O passado de frente

É preciso encarar o passado, de frente, não como um ser frágil e inocente, mas como uma pessoa inteira, independente. É preciso ver as coisas que precisa ver, e não as coisas que quer ver. Caso contrário, vai carregar o fardo para sempre…

Enquanto leva esta caixa fechada, pesada, de um lado para outro, não consegue avançar, nem começar, nem terminar. Prisioneira. A casa tem portas e janelas abertas… O passo definitivo. Avançar em direção ao portão. É a jornada… Aventura possível. No entanto, apenas colhe margaridas, corta a grama, apara arbustos, e volta para a cadeira de balanço.

Livro, música, palavra amiga. Revistas, jornais apontam inúmeras formas de viver. Intensifica-se o desejo. Contar a história? Sempre a mesma. Não se trata de inventar. E, como se sabe, no caso de histórias inventadas, os detalhes mudam cada vez que são contadas. Exagerados, ou quem contou esquece o que falou e como falou da vez anterior. É preciso encarar o passado, de frente, e sair…

Pensar livremente, em última análise, é se afastar do próprio corpo. É sair da jaula limitada chamada corpo carnal, soltar-se da corrente e fazer a lógica alçar voo de forma pura. É oferecer vida natural à lógica. É isso que está no cerne da liberdade, quando se trata de pensar.”(p.64)  O incolor Tsuku Tazaki e seus anos de peregrinação, Haruki Murakami

A música

“Como se chama o pianista? Lazar BermanÉ um pianista russo, e toca Listz como que desenha um cenário imaginário e delicado. As músicas para piano de Listz ás vezes são consideradas engenhosas, mas superficiais. Naturalmente algumas são assim elaboradas, mas, ouvindo todas elas com atenção, percebe-se que no seu interior está contida uma profundidade própria. Mas muitas vezes ela esta escondida de modo habilidosos por trás de toda a ornamentação. Podemos dizer isso em especial dessa coleção Anos de peregrinação. Não  são muitos os pianistas atuais que conseguem tocar Listz de modo correto e belo. Na minha opinião. dentre os relativamente novos, temos esse Berman e, denttre os antigos, Claudio Arrau.” (p.61), 

Haruki Murakami O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, Objetiva, 2014.

O piano de cauda Yamaha na sala da casa dela. Sempre afinado corretamente, refletindo a personalidade metódica de Branca. A superfície reluzente e límpida sem nenhuma impressão digital. A luz da tarde que adentra a janela. A sombra do cipreste do jardim. A cortina de renda que balança ao vento. A xícara de chá sobre a mesa. Os cabelos negros e presos atrás de forma meticulosa, e o olar compenetrado na partitura. (…) quando alguém pedia para tocar uma música, ela costumava tocar essa. Le mal du pays. Tristeza sem causa, evocada no coração das pessoas pelo cenário rural. Saudades da terra natal, melancolia.” (p.62)

Se ouvir a música o mundo interior da pessoa se modifica. Escrever música, dominar o piano foi sonho de menina. Mas, a professora, Dona Ondina não tinha um piano de cauda. As aulas, exercícios de escala…E a rua Vitor Hugo só fazia/tinha música saindo  na calçada dos Bordini. A filha do Dyonélio Machado, a dona da casa, Cecília, cantava. Tocava piano, e cantava.Ou a memória me escapa?

Mesmo nas Cônegas, no internato, as aulas terminavam e começavam com A Valsa do Papai. Nunca tive um piano. O amor, eu guardei.

Trabalhando com a memória

Do baú, apresentação provisória do texto, Memórias de Xico Stockinger. O livro saiu apressado do prelo. Xico Stockinger escreve com seriedade na serenidade. Confidência linear, memória seletiva, particular… Se algumas pessoas ficaram menos próximas, afirma o artista, nunca foi por desamor, mas certa incompatibilidade diante do que ele afirma ser lealdade. Tudo que fez assumiu no peito. Modesto. Homem de trabalho. Se a vida o reverenciou, ele aceitou, não alardeou. Grandes e pequenas curiosas histórias: um sorriso, reticencias. Cautela para digitar tudo nesta conversa de memória, biografia, autobiografia. Vai margeando. Salta o espontâneo. Agarro.

O livro é a memória dos seus oitenta e dois anos. O resultado faz parte da jornada programada. No artista Stockinger existe exatidão, cuidado com o perfeito. A vida não é leve, mas intensa. Ordem. Ansiedade também. Fazer tem polimento, cuidado. Instrumentos de trabalho. Este é o Xico. Depoimento entre perguntas, respostas e desabafos. Trabalhar, segundo ele, é a combinação certa com a vida. Organização, tenacidade. Embarcamos …

Elizabeth M. B. Mattos

Porto Alegre, junho de 2002.

Um bilhete de Xico: “Faço questão que continues perguntando, pois acabo respondendo tudo. Agora uma pergunta minha: como é que o Eddie Esteves entrou nesta história? E conta como saiu o teu bife de panela? Bem, vou indo. Um bom fim de semana; manda as perguntas, e lá vai um grande abraço. Xico82”

Duas cartas

Meu querido amigo Iberê:

Perdas, lacunas, dores abertas. Sim. Sinto falta da minha mãe. Amiga, cúmplice, amorosa, belicosa. E foi tão de repente! No meio de asperezas de um casamento possessivo. Não fiquei na cidade. Dia 12 de outubro… Não estava lá. Eu nunca estou… Um jogo de ausências, transparências. Quando te escrevo penso nos vernissages, festejos, aniversários, comemorações. Simplesmente não estou lá. Caço intimidade sem presença.

Quanto ao livro fico feliz. Os escritos me agradam. Tenho recebido rascunhos. O provisório, e o definitivo. Gosto. A minha solidão, meu isolamento se rompe com tuas cartas. Se não estou no mundo, o mundo está ao meu encalço. Um jogo.

Loucura viver, respirar. Acorçoados, assustados, nos imobilizamos. Projetos, construções, planos, trabalho. Afirmação de vida. Como não concordaria? Festejo. De certa forma, meu amigo, a casa é semente. As coisas sonhadas jamais conservam suas dimensões, não se estabilizam em nenhuma dimensão. E, decerto a felicidade é expansiva, tem necessidade de expansão… A casa de Santa Cruz do Sul, o sonho nas pedras, se faz lentamente. Quanto a casa de Nonoai, reafirmas raízes. Estás feliz. Lamento não ser ainda desta vez a visita de vocês. Melhoras para Maria.

“Porto Alegre, 24 – 11 – 86.
Querida Beth. Lamento que tenhas perdido tua mãe. Eu ignorava este transe. Espero que meu carinho te sirva de conforto. Minha amizade te faça companhia. Continuo pintando, pintando e pintando. Acabei mais um quadro de grande formato intitulado Reminiscências. Neste quadro eu me transformo no pescador da Emulsão Scott, com um grande peixe às costas. Quando guri fui obrigado a tomar esse fortificante, o que fazia com repugnância. Acho que toda a minha geração foi lubrificada com esse óleo de bacalhau. Beth, quando vires a Porto Alegre vem ver o que faço. Tá bom? Não cultives a solidão, amiga. É bom que voltes ao trabalho. Dispõe sempre de mim. Do amigo de sempre, o Iberê.

Porto, Alegre, 27 – 8 – 87.

Beth, querida amiga:

No momento, infelizmente, não temos condições de aceitar o teu amável convite. Maria acaba de ser operada de catarata. Ela deve permanecer por algum tempo no mais absoluto repouso. Estou otimista, acho que desta vez a cirurgia vai dar certo, o que não aconteceu quando operou a outra vista.

O livro que pretendo fazer – 10 contos ilustrados com serigrafias – quero que seja um objeto bonito, como todos os livros deveriam ser. Este livro que vai ser patrocinado por uma agência de publicidade lá de Vitória terá uma edição limitada, talvez até numerada, não sei. Tu, evidentemente, vais ter um exemplar.Beth sinto o teu isolamento, a tua solidão, e a falta que faz a tua mãe. Quem sobrevive aos seus carrega sombras e saudade. Coragem Beth é a lei da vida. Nós também estamos construindo uma casa em Nonoai (Teresópolis). Trata-se de uma casa espaçosa, com dois atelies anexos, um de pintura, outro de gravura. Essa chuva que não para, tem atrasado a obra, cujo acabamento está previsto para o fim do ano. É um tanto louco fazer uma casa nesta altura da vida. Sim, é louco, mas é uma afirmação de vida. Concordas? Beth, abraços e muito carinho.

                                               o Iberê”

A história do outro

Contar histórias é tão igual, tão igual! Elas saem de um canto escuro. O buraco da alma, o escondido, o maturado lá dentro da pessoa. E chega ao outro, invade. A palavra se retorce quer aparecer em linhas, em texto, em importância. No caso de Francisco, esta importância esbarra na vaidade prepotente da inteligência. Também, na beleza. Beleza ofusca. Impede julgamento.

Meninos que saem de pequenas cidades não querem voltar. Por nada querem voltar, por pouco se deixam ficar por conta do novo poder, do risco.

E o lugar que se ocupa no espaço desta memória fica todo tomado de sonhos, de laranjas, morangos, pedras, tijolos, barro, sarjeta, asfalto, sangue, revólveres, raiva, inveja e sonhos.

“Dizemos: afinal, somos aquilo que pensamos, amamos e realizamos. E eu acrescentaria: somos aquilo que lembramos. Além dos afetos que alimentamos, a nossa riqueza são os pensamentos que pensamos, as ações que cumprimos, as lembranças que conservamos e não deixamos apagar e das quais somos o único guardião. Que nos seja permitido viver enquanto as lembranças não nos abandonarem e enquanto, de nossa parte, pudermos nos entregar a elas.”

BOBBIO, Norberto. O tempo da memória, Rio de Janeiro. Campus, 1997. (p.30)

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O imaginado volta

Timorato menino, nascido no interior do Rio Grande do Sul, região alemã, tudesco. Gentil, magro, inquieto. Dos estudos, um caminho acompanhado de perto por mãe obstinada. Síria, a mãe, não é alta e tem cabelos claros, crespos. Para o filho, sonha e trabalha duro: menino de interior, o homem da capital. O pai, carrancudo, amargo, não se envolve. Observa na distância com olhos lavados de azul. Casa modesta e limpa. Engalanada nas festas de aniversário, e fim de ano. Naquelas ocasiões permitia-se requinte de carnes, comidas especiais, gastos extras. Na verdade, a vida cheia de parcimônias, a economia dos detalhes transforma-os em pessoas acomodadas e austeras.

Preocupação, o menino Francisco. Corpo franzino, testa larga. Joelhos vermelhos nas calças curtas, camisa aberta. Braços suados. Já no quintal administra a comunidade cooperativa. Distribuir frutas, juntar jornais. Coletar papel, latas. Vender pastéis. Levantar fundos, e sonhar.  Escreve no jornal da escola. Na parede lateral da entrada, à direita, um quadro com gravuras e discursos. Faz versos sem métrica: a voz dos desvalidos. Liberdade, justiça! Conhece conceitos proferidos pelo irmão mais velho, que já se mistura no jurídico da vida. Escuta a voz prática da mãe que o quer longe do quintal. Francisco exige um pouco mais de arroz, um pouco mais de leite, um pouco mais de atenção.

Ríspido, seco, a resposta na ponta língua arde como pimenta quente. Já o olhar, ah!, o olhar,  é derramado nas meninas loiras. Gosta de descrevê-las em poemas: tranças, bochechas rosadas, saias penduradas em pernas roliças. Com as meninas elas, riso largo, olhos úmidos. Gosta de imitar, fazer rir, armadilhas de criança. Matreiro.

Foi estudar na cidade: ensino médio, faculdade.

 

Quem disse que a esquizofrenia é uma doença do sangue teve razão. Ela baixa nas veias e neste momento me move, estuante, na direção do galho que me acena, da lua que se entranha em mim, das vigas e ripas que cercam os escombros e lhes dão vida, pois estas ruínas em vias de reconstrução me dizem muitos segredos, me explica, me decifra, me convida a mergulhar para sempre em seus alicerces e ali deixar meu sangue, meus ossos, as seivas todas do meu ser que começa a se cansar do esforço de viver em vão.” Carlos Lacerda in A casa do meu Avô. 4 edição. Pensamentos, Palavras e Obras Ed Nova Fronteira. 1977. (p. 26)

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E deste livro nasceu um filme precioso. Esta é uma obra de amor e de paciência. Uma única mocinha, sua história, sua luta, seu esforço, seu drama. E a história do seu tratamento.

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As estações se misturam: pode ser verão, inverno, ou primavera…

Existe um agrupamento natural entre as pessoas que se reconhecem. Reconhecer seus iguais, beber do mesmo vinho, centralizar, escutar, falar, dizer e responder, o grupo. Tem cheiro esquisito esta falta de comunicação: abandono do antes para o depois. Falta de vontade, desânimo, incomunicabilidade. Então, a música importa. O livro importa. E a cor. Mas, estes elementos, agora fatiados num único fenômeno, a televisão. Com ela a conversa é infinitamente longa, contínua. O corpo responde com aquela dor precisa  nas costas, no lado. Olhos se apertam, e o tempo se esvazia em menos um dia, menos uma manhã, menos uma tarde, menos uma noite. Sinto as pernas repuxando, dor no calcanhar, inchaço no coração: excesso de comia, de bebida, excesso. Excedo na preguiça de viver. Insisto em leituras repetitivas, no esforço de me fazer compreender. Risco, pontuo, estabeleço analogias, conclusões, depois esqueço. Este efêmero endoidece. Nenhuma relação se pontua afirmativa. Vejo o menino exigindo atenção. Esforço para estar ali, e ser recebido por todo o meu corpo, meu olhar. Escuta, quer falar, e os sonhos se explicam confusos naquele mundo de desvendar mundos. Verão escaldante, distância. A máquina. Fico enjoada. Preciso mudar de lugar, parar de escrever, esticar as costas, mexer as pernas, sede. Raiva. Que coisa estranha estar aqui do outro lado do meu mundo, mas, irritantemente, confortável. A manhã é fresca e silenciosa. Nada a reclamar, salvo estas mazelas interiores. Vou buscar um copo com água gelada. E pensar um pouco mais em como pode ser domingo. Porto Alegre. Do outro lado dos meus olhos o rio, o lago Guaíba faz beleza. Elizabeth M.B. Mattos – 2015