Venta. Faz calor. Pouca coisas a dizer. O virtual segura a festa do último dia do ano. Sigo separando velhas fotos: uma caixa para cada filho. Guardo lembrança: cartões, cartas, pedaços de fita. Guardo / encaixoto memória. Esquisito escrever despedida. O último ano, dia, este agora entardece. Fecha o ciclo. Já desconectada com o que terminou. Passou. Só hoje importa. E será hoje a abrir o livro, olhar pela janela, e o nosso abraço chegar… O beijo. Sinto saudade. Sempre sinto saudade: isso é velho. Que seja! Um bom 2016 para todos! …, enquanto somos nós dois, juntos. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2020 – Torres
Fiquei pensando: esta reclusão filosófica, esconderijo, fuga tem o porquê. Coisa mal resolvida, sentimento atrapalhado. Pouco dinheiro, pouca vontade. Se eu tivesse outra vez a Vitor Hugo, se a situação fosse aberta pro movimento, se eu trabalhasse… Se eu vivesse! Se cachorro não fosse importante. Se fosse ainda a Santa Branca, ou Santa Cruz do Sul. Ou Rio de Janeiro, ou outra Torres, ou Porto Alegre da Independência. Seria diferente. Seria outro eu, seria outra pessoa. Seria o ideal. Antes as portas se abriam, as janelas escancaradas chamavam. O mar estava do outro lado. Mais fácil. Os pés iam direto para a areia da praia. A vida tinha gosto de quero mais. Não existia não, nem não posso, muito menos não quero. Agora é diferente. Dizer não é preciso, incomoda, aperta. Dói. Estraga tudo. Deixa de ser natural, fica teatral.
Tudo grudado na garganta apertando. Machucando. Publiquei. Engraço estas coisas de dizer, escrever pro estranho ler, o eventual, o que não está inserido, mas fica. De repente sabe mais das tuas histórias do que tu mesmo sabes. Dizer feito grito, no meio da rua. Parece justo, resolvido, como tirar a roupa. Feito. Não sei. Parece analisado. Foi tua carta amorosa a me consolar. Fu eu mesma a repetir, a voltar atrás, a me redimir. Está feito. Tanta coisa surge de um simples não. Não sou eu que não a compreendo, sou eu que mudei. Não sou eu a tomar atitudes de preservar, voltar pra dentro, ou filosoficamente defender uma postura x ou y. Sou eu covarde. Quando se abre a porta a intimidade fica toda ali, devassada, ao julgamento do outro, exposta como se não fosse minha, mas de todos. Então passo a chave. Fecho as janelas. Ou então publico. Sou eu a rasgar o papel, deixar a notícia aparecer. A vida como ela é. Assim sem mistério. Apenas prosaicamente simples. E limitada. Eu mudei. Enrolada em papel, não é de seda, mas jornal mesmo. Respiro. Quero reconstruir. Será isso mais justo ou apenas negação. A mão no bolso? Ou pode ser reconstrução. Salientar recalques, fraquezas. Novo. Esta coisa de se adaptar. Estou outra vez me adaptando. Acomodando os dias num novo quadrado. Estranhada. Bandeira hasteada, mas, escondida. Ser verdadeiro pode dar um medo enorme porque sempre é mentira. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2015 – Porto Alegre ou Rio de Janeiro – pode ser Buenos Aires
Verão cheio de bichinhos insistentes. Cupins deixam asas para se acomodar. Que horror! Sem falar em mosquitos valentes. Formigas obreiras. E a passarinhada acorda gritando mais alto. Cheiro peculiar, movimento. E o calor aumenta T U D O tudo, tudo. Verão ruidoso: inquieta, desperta. Exibido. É isso. Vou dar uma caminhada pela calçada sem sol, enquanto o dia acorda, depois fica fervente. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro 2015
Cada imagem um enredo cheio de entrelinhas, reticências. Exclamações interrogações. O quadro que aparece nesta foto é do pintor Carmélio Cruz. Óleo sob papel. E minhas crianças: Ana, Pedro e Joana. Viúva Lacerda Humaitá Rio de Janeiro.
Fazenda Santa Branca – Rio Pardo – Rio Grande do Sul.
Pedro com Luiza, minha caçula, 1986
Aqui já é Santa Cruz do Sul – Avenida Léo Kraeter , a casa. Escapa o número. Linha Santa Cruz do Sul, a ser verificado os detalhes. A memória que não se garante, volteia. Billy na foto com Luiza e o carrão do Pedro. Cães, sempre muitos cães, e a frota.
O bom das fotos é não ter ponto final. A cada uma delas uma história que completa no olhar. Elas tem som, cheiro e movimento. Isso é incrível. Esta última foto minha já foi tirada em Torres Rio Grande do Sul. Elizabeth M.B.Mattos Torres
Não tenho intenção de ser irônica. É isso mesmo que quero dizer. A frase quer dizer isso mesmo que já disse. Estou velha, e não vou me apaixonar. Não tenho mais tempo para dizer o que não quero dizer. Ou fazer o que, absolutamente, não quero fazer.
Uísque não é a bebida certa. Um limão cortado ao meio, gelo, água. A farofa com passas… Vou beber água com mais limão, sem açúcar. E entender o silêncio. Vou pegar o ônibus da meia noite. Mais silencio. E não vou emagrecer. É tarde. Não vou me apaixonar, e você sabe o motivo. Vou chorar um pouco. Elizabeth M.B. Mattos – dezembro de 2015 – Torres
Sou dura por dentro. Sobrevivente pode ser uma boa explicação… Perdas calejam as mãos, o coração também. Esqueci a memória… Harmonia é uma boa palavra.
O que faço? Sigo amorando, lendo. Devagar, voltando, amassando as letras. E tenho um cachorro. Este ter é pesado, ansioso, preocupado, amigo. Gosto de pão com manteiga, café preto. Converso pouco. Durmo bastante, e cedo.
“Há palavras, senhor juiz, que não deveriam jamais ser pronunciadas, palavras que são a justificação de uns e a condenação de outros.”
Em Carta ao meu juiz: “O tempo passa. Subo. Abro o primeiro volume das Memórias de Talleyrand. Possuo uma biblioteca completa de memórias e correspondências. E não por acaso. No fundo, sei o que procuro encontrar aí, e não é algo que me orgulhe. Ao descobrir as fraquezas dos grandes homens e suas pequenas covardias, sentimos menos vergonha de nós mesmos.” George Simenon
Estou esperando a chuva, espero o vento. Enquanto espero ouço piano. E sinto prazer com as cordas… Vou beber um cálice de vinho. Vou dizer as bobagens da vergonha. Vou dançar, vou beijar, abraçar. Correr na chuva, voltar molhada, roupa encharcada. Vou escandalizar. É saudade do amor. Vou beber vinho, água gelada, vinho. E passear outra vez com a Ônix pela lagoa. Voltar pra praia e ver o mar tomando banho… Elizabeth M.B.Mattos – Torres 2015
A moda é o corpo. Postura. Certeza. E o cuidado. Olhar perspicaz. Inserir e destacar. Roupa invisível. Valoriza pernas, cintura, seios, pescoço, pés. Valoriza altura, esconde, surpreende. Roupa embeleza o sorriso, o estar feliz na própria pele. Prazer, conforto. Alegria faz moda… não é só isso, mas pode ser. Elizabeth M.B. Mattos / 2015
Não, não é incrível a vida. É a vida. Clichê. A gente se esgueira, se acomoda, tem tremores nas pernas, nas mãos. A gente a trata com carinho, adestra, se apega a ela. É a vida. Existem os corajosos e aqueles que se acomodam. É tão menos cansativo se acomodar…
Bloqueada. Amarrada. Amordaçada.
Desnudado é tão pior! Permissividade, embate, perplexidade.
Ao vivo, a saltar do visor, imundice.
Não encontro Papai Noel, nem vestígios natalinos. O Brasil nos engole. E já não sei se é limpeza, ou imundice. Não consigo respirar.
Sem palavras, sem visões. É muito ruim o que acontece.
Como posso te mandar rosas? Beth Mattos / Elizabeth M.B. Mattos / Torres