A Roda Gigante de Pedro

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Sensação de estar fora do contexto, noutro lugar. Um lugar que não é meu, mas assim mesmo meu. De tantas coisas não participei, passaram, pulei …, e vem a tristeza. Ando triste e o tempo jogado nesta tristeza …  Acho que a vida deve ser tranquila mesmo sendo triste. A tristeza é um recolhimento, um silêncio, até uma descoberta que te põe na roda novamente … se estás triste, não entra na Roda Gigante, não vais ver nada lá de cima. A tristeza pede silêncio. Depois chega a hora alegre de alegria. Não jogar o tempo fora mas ficar com a tristeza o tempo de ficar.

(O grifado foi retirado de uma carta sem data de Pedro Moog)

Simone de Beauvoir

Que alegria poder fechar a porta e passar dias ao abrigo de todos os olhares! Durante muito tempo permaneci indiferente ao aspecto do ambiante em que vivia; talvez por causa da ilustração de Mon Journal, preferia os quartos que ofereciam um sofá e prateleiras, mas eu me acomodava em qualquer canto; bastava-me ainda poder fechar a porta para me sentir plenamente satisfeita.” (p.16)

“Felicidade é uma vocação menos comum do que imaginam. Parece-me que Freud tem inteira razão de ligá – la à satisfação de nossos desejos infantis; normalmente, a menos que empanturrada até a imbecilidade, uma criança formiga de apetites: o que tem nas mãos é tão pouca coisa em confronto com essa superabundância que percebe e pressente ao redor de si! E ainda é preciso que um bom equilíbrio afetivo lhe permita  interessar – se pelo que tem, pelo que não tem. Observei- o amiúde: as pessoas cujos primeiros anos foram devastados por um excesso de miséria, de humilhação e de medo, ou – principalmente – de ressentimento, não são capazes, em sua maturidade senão de satisfações abstratas: dinheiro, (se o dinheiro, como dinheiro, não dá felicidade, diz Freud, é porque nenhuma criança deseja o dinheiro) honrarias, notoriedade, poder, respeitabilidade. Precocemente presas de outrem e de si mesmas, desviaram – se de um mundo que só lhes reflete mais tarde a antiga indiferença. Em compensação, como pesam, que plenitude de alegria podem trazer – lhes as coisas em que aplicaram o absoluto!” (.31)

A Força da Idade  (1929-19440)  Simone de Beauvoir

Individualismo irredutível

Chove. Chove e chove em Torres. Sem ventania.

Primeiro Dai Sijie, depois  vou me derramar nas ponderações sobre

Jean-Christophe. de Romain Rolland.

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“Durante todo o mês de setembro, depois do roubo bem-sucedido, fomos tentados, invadidos, conquistados pelo mistério do mundo exterior, sobretudo o da mulher, do amor, do sexo, que os escritores ocidentais nos revelavam, dia após dia, página após página, livro após livro. Não apenas Quatro-Olhos havia partido sem ousar nos denunciar, mas ainda, por sorte, o chefe da nossa aldeia tinha-se ausentado para participar de um congresso dos comunistas do distrito, em Yong Jing. Aproveitando-nos da vacância do poder político e da discreta e momentânea anarquia reinante, recusamo-nos a trabalhar nos campos, coisa que em nada afetou os aldeões, ex-cultivadores de ópio constituídos guardas de nossas almas. Desse modo pude dedicar-me aos autores ocidentais, por trás da porta mais que nunca trancada – e, com a frivolidade e seriedade de meus dezenove anos, encantei-me de Flaubert, Gogol, Melville e até de Romain Rolland.

Falemos de Romain Rollad. Na maleta de Quatro-olhos só havia um de seus livros: o primeiro dos quatro volumes de Jean-Christophe.  Como se trata da vida de um músico, e como também eu era capaz de capaz de tocar ao violino peças tais como Mozart pensa em Mao, desejei folheá-lo, como quem flerta levianamente, tanto mais que havia sido traduzido por Fu Lei, o mesmo tradutor de Balzac. No entanto, assim que o abri, encantei-me. De costume preferia livros de contos que apresentam histórias bem amarradas, cheias de ideias brilhantes, às vezes engraçadas, ou de tirar o fôlego; histórias que nos acompanham por toda a vida. Sempre desconfiei dos romances, com raras exceções. Mas Jean-Christophe, com aquele individualismo irredutível, sem nenhuma mesquinharia, foi uma revelação edificante. Sem ele nunca teria conseguido compreender o esplendor e a amplitude do individualismo. Até aquele encontro roubado com Jean-Christophe, minha pobre cabeça educada e reeducada simplesmente ignorava que se pudesse lutar sozinho contra o mundo inteiro. O flerte se transformou em grande amor. Até mesmo a ênfase excessiva à qual o autor havia sucumbido não me parecia nociva à beleza da obra. Sentia-me literalmente devorado pelo fluxo poderoso de centenas de páginas. Para mim, era o livro sonhado: ao término da leitura, nem a maldita vida nem o maldito mundo poderiam ser como antes. ” (p.95-96) Dai Sijie

Balzac e a Costurerinha chinesa

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Segredos nem tão secretos

No fundo dos olhos azuis houve um lampejo de intensa tristeza. E raiva. Que cena tão simples havia sido lembrada? Tão dilacerante! O dia que tudo terminou. A certeza de que não há nada para ser dito. Altera a voz, e o olhar… Seguimos caminhando pela rua Redentor. O sonho, não é mais o seu sonho, nem sua escolha, ou decisão. A vida rasga o tempo, e separa o amado do amor. E já houve confidência, deslumbramento. Correr para o nada, entender o medo, saber o segredo daquela mala vazia. Ouvir, mas principalmente falar, e contar histórias enfiadas umas nas outras. Entrar naquela vida como se fosse possível desaparecer nos olhos azuis… E reaparecer dentro dos segredos secretos. Como se o outro fosse eu, e eu o outro. Estar enfiada naquele abraço. No para sempre… Ideia velha do para sempre será. Em contos de fada existe a obscura e misteriosa intenção de não terminar… E viver felizes para sempre (engraçado eterno inconsciente) que permanece para sempre. E nada é para sempre. Nem a terra, o mar, nem o sorriso, nem a pedra, nem a história, o exílio, e menos ainda a presença, o amor, ou a amizade. Tudo tem tempo, validade. Não há tempo neste tempo delimitado. Olho para suas mãos presas nas minhas mãos. E já nos contamos o incontável. A distância reside neste inexplicável. A esta entrega já chamamos de amor… Como você escreveu em telegrama demorado.

De perto é fácil amar e de escasso mérito quando objeto amado, cheio de doce ternura na voz, no jeito, nos lábios merece algo transcendente insubstituível abarcando não mundo, mas também vida e morte. Talvez assim Gaal entenda que estando ausente se ama ainda mais. Cartas não chegaram. Mantenho data viagem para o dia nove. Avisa hora oculista não tocar na marca que marca o pescoço, nem pintar parte superior da cabeça, pois nada mais elegante que cabelos brancos quando o interior é jovem. Arroz integral bom companheiro de dias noites de solidão junto ao mar. Beijos. Abraços.

Perdoa se eu o feri ao abandoná-lo, também não deixei de me ferir. Descobrir o vazio, e este enorme nada também doeu. Temi você pensar que eu me reservava a parte mais agradável sem me preocupar em deixar-lhe o lado desagradável. Não é verdade. Eu me senti infeliz por fracassar. Você me fez falta de todas as maneiras, em todos os instantes, e a ideia do erro, por mais de uma vez me fez absolutamente infeliz. Assim eu procuro reestabelecer a mesma convicção, vozes, odores, toques, rosas, petúnias, hortênsias. Cravos, laranjas, pêssegos e morangos. Sem esquecer das amoras azuis, e das lágrimas que me sufocam neste momento de adeus. Aperto sua mão, agarro sua tristeza…

Agora, quando roço a tua pele e no silêncio te sinto estremecer, me pergunto para que evocar o exílio, aqueles longos dez anos [… ] Eu me lembro tanto de tanto ou de tudo que, talvez por isso, tentei esquecer. Quando te amo, este amor enfurecido de beijos e abraços ocupa todo o espaço da memória, e só então, vivo tranquilo e em paz. […] Esquecer? Impossível, pois o que eu vivi caiu também sobre mim, e o corpo ou a alma sofridos não podem evitar que a mente esqueça ou que a mente lembre. […] E por não esquecer te conto, minha amada. Como um grito te conto. Ouve e lê.”(12-13) Flávio Tavares – Memórias do esquecimento

Penso que as idades passam, os interesses, os amores, os amados e fica apenas o vácuo. É o novo se acomodando dentro de mim. Ou é apenas um novo que sempre foi, e vai voltar e vai desaparecer… A tal nostalgia. Afinal o que dizemos se revela no que não falamos. E está dito nas entrelinhas. A sutileza do contexto que não se explicita.20140219_125557

Apenas mais tempo

Se o tempo voltasse e me despejasse nas mãos arrependimento dor e tristeza. Mágoa e perda e também encantamento. Alegria juvenil, ou apenas amor, apenas bondade, apenas o melhor …, o que eu diria se o tempo voltasse? Eu responderia para o  tempo que eu quero tudo igual, tudo igual e a mesma coisa, quero apenas mais tempo senhor tempo. Elizabeth M.B. Mattos – 2018 Torres

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De onde vem a mágoa

Flutuo na violência interna onde os seres humanos aparecem crus e agressivos, aquela parte que não vemos mas sentimos. No livro é evidente. Nesta carta ele conta sem contar a raiva contida. E como de repente ela se solta voa cai como chuva atômica, e mata. Desmedida. Um detalhe na explicação inexplicável porque não gostaste o presente que te dei…poi é assim, qualquer coisa pode ser a mola da explosão. E aquela coisa de dizer que as palavras se escrevem porque caminham mesmo sozinhas…

Somos mágicos. Possuímos o dom.  Alguns não usam o poder … O mundo é feito à nossa maneira. Penso. Todas as pessoas se recuperam, e se esperam o tempo suficiente. As pessoas se esperam. E depois… As nossas pequenas histórias definem e explicam quem somos. De onde vem a mágoa, e onde pousaram as certezas. Estou olhando o cinzento do meio dia.

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As palavras começam a ficar pesadas, como se não fosse possível escrevê-las com rapidez suficiente: ‘ Se vou rasgar a carta de qualquer maneira, é melhor escrever tudo logo de uma vez. É como se toda a casa estivesse viva, com olhos por toda a parte, como se houvesse pessoas por trás da porta, prontas para entrar, se a gente desviasse os olhos. Isso me deixa de pele arrepiada. Quero dizer … quero dizer … isto é, jamais pude compreender porque nosso pai não gostou daquele canivete que comprei para ele em seu aniversário. Por que não gostou? [ …] Se tivesse gostado eu não teria descarregado em você. Pareceu-me que a cadeira de mamãe está balançando um pouco. Mas é apenas a luz. Não acredito nessas coisas. Mas tenho a impressão que de que há alguma coisa inacabada. A sensação é de um trabalho pela metade, mas que não dá para lembrar o que foi. Alguma coisa que não foi feita. Eu não deveria estar aqui. Devia estar vagando pelo mundo, em vez de ficar sentado aqui, numa boa fazenda, procurando uma esposa. Há alguma coisa errada, como se não estivesse acabada, como se acontecesse cedo demais e deixasse algo de fora. Eu poderia estar onde você está, enquanto que você deveria estar aqui. Nunca pensei nisso antes. Talvez porque seja tarde, até mais tarde do que eu falei. Acabo de dar uma olhada pela janela e está amanhecendo. Acho que não vou dormir. Como a noite pode passar tão depressa? Não posso ir para cama agora. E, de qualquer maneira, não conseguiria dormir mesmo. ’ A carta não estava assinada. “ (p.47)

A Leste do Éden –  John Steinbeck

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