De onde vem a mágoa

Flutuo na violência interna onde os seres humanos aparecem crus e agressivos, aquela parte que não vemos mas sentimos. No livro é evidente. Nesta carta ele conta sem contar a raiva contida. E como de repente ela se solta voa cai como chuva atômica, e mata. Desmedida. Um detalhe na explicação inexplicável porque não gostaste o presente que te dei…poi é assim, qualquer coisa pode ser a mola da explosão. E aquela coisa de dizer que as palavras se escrevem porque caminham mesmo sozinhas…

Somos mágicos. Possuímos o dom.  Alguns não usam o poder … O mundo é feito à nossa maneira. Penso. Todas as pessoas se recuperam, e se esperam o tempo suficiente. As pessoas se esperam. E depois… As nossas pequenas histórias definem e explicam quem somos. De onde vem a mágoa, e onde pousaram as certezas. Estou olhando o cinzento do meio dia.

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As palavras começam a ficar pesadas, como se não fosse possível escrevê-las com rapidez suficiente: ‘ Se vou rasgar a carta de qualquer maneira, é melhor escrever tudo logo de uma vez. É como se toda a casa estivesse viva, com olhos por toda a parte, como se houvesse pessoas por trás da porta, prontas para entrar, se a gente desviasse os olhos. Isso me deixa de pele arrepiada. Quero dizer … quero dizer … isto é, jamais pude compreender porque nosso pai não gostou daquele canivete que comprei para ele em seu aniversário. Por que não gostou? [ …] Se tivesse gostado eu não teria descarregado em você. Pareceu-me que a cadeira de mamãe está balançando um pouco. Mas é apenas a luz. Não acredito nessas coisas. Mas tenho a impressão que de que há alguma coisa inacabada. A sensação é de um trabalho pela metade, mas que não dá para lembrar o que foi. Alguma coisa que não foi feita. Eu não deveria estar aqui. Devia estar vagando pelo mundo, em vez de ficar sentado aqui, numa boa fazenda, procurando uma esposa. Há alguma coisa errada, como se não estivesse acabada, como se acontecesse cedo demais e deixasse algo de fora. Eu poderia estar onde você está, enquanto que você deveria estar aqui. Nunca pensei nisso antes. Talvez porque seja tarde, até mais tarde do que eu falei. Acabo de dar uma olhada pela janela e está amanhecendo. Acho que não vou dormir. Como a noite pode passar tão depressa? Não posso ir para cama agora. E, de qualquer maneira, não conseguiria dormir mesmo. ’ A carta não estava assinada. “ (p.47)

A Leste do Éden –  John Steinbeck

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