Não terminei de gostar

unnamed.jpgjardins

Ainda não terminei de gostar de você. Ainda não terminei de gostar de nós dois. Deste tu que se mudou para o você…  Ainda não entendi quem era aquela menina nem aquela jovem e a mulher que quis te tocar amar cercar e beijar. Ainda não terminei a romaria da reza ainda não terminei de te perseguir ainda não terminei de desejar. Ainda não terminei de te querer.  Então!  Cada dobra de papel cada três pontos cada obrigada ou cada lembrança desta memória tem gosto de permanência de fluidez impossível. Não terminei de te gostar e nem sei mesmo se te gosto! Não segui não fui adiante não vi caminho nem nada … acho que levei um trambolhão, empurrão uma sacudida e uma chuveirada gelada. Estacionei em mim mesma.  Dizem que os sentimentos são assim como soluços … compassados profundos, e misteriosamente superficiais. Eu não terminei de gostar de você nem de mim mesma. Então, se me escreves estremeço e também me assusto e me excito nestes longes que é ter a idade de setenta anos … imaginas? Tu você tu nós dois você indo e eu chegando. Nós românticos.  Tu irritado você longe tu tomando a esquerda da Vitor Hugo. Eu subindo a rua depois de descer do bonde. Era cheio de amoreiras carregadas o caminho … aquelas conversas regadas de chuva e ventania e fogo na lareira. Teu tu e teu eles caminham, passos largos na minha frente. Você não me espera e eu te olho do canto da sala ou da fresta. Recife, maio de 2017. Elizabeth M. B. Mattos

Francisco e eu

unnamed.jpg MINHA FOTO com ele

PALAVRAS sobre PALAVRAS L.C. Carpim

LINDAS AMORAS

As palavras têm poder. No princípio era o verbo, diziam os hebreus. Por esta indicação, vê-se que o verbum era imaterial, mas gerava matéria. Popularizado, o verbum seria parabola e derivaria em palavra, uma realidade capaz de atuar tanto sobre a luz quanto sobre as sombras. Dito de outra forma, a palavra tanto produziria uma declaração de amor quanto uma proclamação de guerra.

Humanas, demasiadamente humanas, as palavras dizem o que querem, mas também querem o que não dizem. Há, portanto, palavras para todas as ocasiões.

Em Elizabeth Menna Barreto Mattos, as palavras constituem um bailado. Não necessariamente, e não apenas, aquele movimento ritmado, que dá forma ao silêncio ou se eleva com a música. Não, trata-se também do pállõ com que os gregos agitavam, meneavam, oscilavam, saltavam ou conduziam.

Desapego da coisa pode ser fácil, mas da palavra, do sentimento, não consigo (2012), diz a autora do blog Amoras Azuis. Aqui, feixes de palavras, por vezes lentamente, por vezes impetuosamente, saltam da amorosidade à angústia, do tédio à euforia, da dúvida à afirmação, do fim ao começo, como se devessem cumprir um ritual: anunciar.

Mas Elizabeth não se desvenda num feixe de palavras. Revela-se um pouco mais no outro, no outro e no outro, fazendo das palavras essências surpreendentes, ambíguas como o enigma, que por ironia desaparece no exato momento em que, ilusoriamente, pensa-se dado ao conhecimento. Totalidades com som e significado, até mesmo quando surgem em frases curtas podem ser tão eloquentes quanto um solene e prolongado discurso.

Ela sabe que palavras podem atrair, seduzir ou fascinar. E as usa de forma sincera e transparente, com a engenhosidade de quem sabe que continua dúbia e incerta.

Em Elizabeth Menna Barreto Mattos, as palavras estão onde devem estar e onde já não podem fazer quase nada, pois ela deixa quase latente que também existe palavra para conceituar o que é fatal e que, exatamente por esta razão, não pode ser detido por nenhuma palavra. São humanas, enfim. Demasiadamente humanas.  Luís Carlos Carpim – Jornalista – (Maio, 2017)

amoras azuisamorasssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss

amoras amora_19504_l

Somos nós?

Está frio aqui dentro tão quente na calçada gelado aqui dentro. Hoje não chove, não estou te dizendo o que já sabes, escuta: faz sol e o planeta se ilumina apesar desta guerra anunciada o planeta se ilumina. Apesar desta bandidagem solta e violenta o anjo anuncia luz e uma fatia de tranquilidade. Era isso que eu queria te dizer. E contar do livro de Stefan Zueig 24 horas da Vida de uma Mulher o passado e o agora explica o equívoco. Ninguém muda ninguém, ninguém fica diferente do que é mesmo quando não se identifica nem se conhece (este alguém) este Eu aponta para um ele que É. Perfumei o livro. Cheiro de outono, mas também de primavera com folhas amarelas … colorido na calçada. Estamos tu e eu outonando castanhos avermelhados. Branco preto cinza, e nós dois.  Odor vento voo leveza e bom sentimento. Temperatura com gosto de laranja de ameixa de pera sem abacaxi sem uva nem goiaba. Tâmaras? Pode ser outono em qualquer parte do mundo e ao mesmo tempo outono. Cerejas framboesas ou amoras são todas as mesmas. Surpresa ansiedade tormento amor amizade loucura mais (+) silêncio mais (+) tua voz que, afinal chega. Mundo avesso bordado povoado (dois sentidos, adjetivo e substantivo) transborda enlouquece e me deixa gelada. Preciso calor água um copo de bom vinho teus braços, ou estar eu comigo, contigo. Este desejo! … preciso quero entender e se entender eu explico  … Nenhum lugar seguro. Venta tanto dentro de mim! Segura minha mão ou voaremos como aquelas figuras de Chagall … Elizabeth M.B. Mattos, Torres.

Para C.M.  “nous étions prêst  à nous ouvrir, et notre ami spirituel s’est ouvert, et tous deux nous sommes renncontrés au même moment, c’est merveilleux.” Chogyam Trungpa

marc-chagall_les-maries-dans-le-ciel-de-paris-952x1023

“A maioria das pessoas não tem senão uma imaginação débil. O que não lhes toca diretamente, o que não se lhes enterra como uma ponta aguda em pleno cérebro, não chega a comovê – las, mas, se, diante de seus olhos, ao alcance imediato da sua sensibilidade, acontece alguma coisa, por insignificante que seja, logo começa a ferver nelas uma paixão desmedida. Compensam então, até certo ponto, a escassez de interesse que tomam pelos acontecimentos exteriores com uma veemência imprópria e exagerada.” (p.233) 24 Horas da Vida de um Mulher e outras novelas, Stefan Zueig, tradução de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. 

… da tristeza

Vejo um cavalo puxando uma carroça. Dolorido, suado, magro. Cansado. Carros gritam com buzinas. Ele segue, aguenta a lomba cansado. A tristeza se derrama pela ladeira. Cascata de tristeza que escorre no paralelepípedo, e sobe nas calçadas. As pernas doem, suarentas, exaustas. Sem cabresto sigo, sigo molhando o corpo na imunda saudade triste. Lembro a carta solidária de Iberê Camargo descrevendo solidão, gritando dor. E o quadro azul, o último. Solidário, impotente. Mundo egoísta a carimbar propriedade, grilhão, peso que mede a dor. Sobrevivência. Propriedade. Mil réis, cruzeiros, centavos, reais. Planto tomates e alface nas janelas poluías de São Paulo. Esqueço tudo o mais. Abraço uma saudade juvenil de amores de verão. Vou recortar cartões, recolher as fitas. Derramo um sorriso nas teclas do computador. Tu escutas do outro lado do fio. Rimos. O que é mesmo que dizíamos?