O SAL E O SONHO

As letras do alfabeto kazar levam nomes de iguarias salgadas, e os números levam os das diferentes espécies de sal; os kazares distinguem sete tipos de sal. Oskazares acreditam no envelhecimento pela ação do olhar, seja o nosso olhar que recai em nosso próprio corpo, seja o olhar dos outros, pois os olhares lavram e rasgam os corpos com as mais diversas armas e as mais mortíferas, criadas por suas paixões, ódios, intenções e desejos. Só o olhar salgado de Deus não faz envelhecer. Chorar é a maneira de rezar dos kazares, pois as lágrimas pertencem a Deus porque, como a concha abriga a pérola, as lágrimas encerram sempre um pouco de sal no fundo.

Os kazares tem igualmente o culto do sonho. Aceditam que quem perde seu sal não poderá mais dormir. Daí a atenção que se dá ao sono […] Os kazares acreditam que os que habitam no passado de um homem estão como que aprisionados ou condenados em sua memória não podem fazer nada diferente do que já fizeram, só podem encontrar com as pessoas que já encontraram, e nem mesmo podem envelhecer. A única liberdade concedida aos ancestrais, a povos inteiros de pais e mães desaparecidos e guardados na memória, é a trégua temporária dos sonhos. Ali, nos nossos sonhos, esses personagens da memória ganham de novo uma parcela de liberdade, agitam-se um pouco, encontram novos rostos, trocam de parceiros para a raiva e para o amor, voltando a assumir assim um lugar importante na religião kazar, pois o passado, a prisionado para sempre em si mesmo, ganha liberdade e possiblidades nos sonhos.(p.225-226) MILORAD PAVITCH – O DICIONÁRIO KAZAR – Romance Enciclopédia em 100 000 palavras – edição feminina

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