José Maria, João Carlos,
A chuva desceu furiosa e grossa. Das secas? Das imundações? Do verão explodindo. No mar majestade, nostalgia: saudade. Esta é a terceira carta escrita, repensada na palpitação, inacabada. Vontade de dançar, emagrecer para não doer as pernas, voltar do tempo com fartos cabelos, quiças brancos. Não faz fresco nem quente. Volto da caminhada pelos Moinhos de Vento, jantar na Dinarte Ribeiro. Os jacarandás iluminam o imaginário florido. Porto Alegre verão urbano. Dou-me conta: relação amistosa entre homem e mulher, beijo e afagos, olhares bizarros, apertos, bizarro sentir… Preciosos momentos derramados na futilidade social da calçada e deste sopro noturno /ou boemio: rende ilusão. Tempo tomado do sonho. Precipitação. Amor escorregadio, soberbo amor. Desejo? Falso/ incompleto. Volto para as cartas ou João Paulo? Esta relação amistosa entre homem e mulher, beijos, afagos. Não. Cartas. Cartas eu posso completar com associações idiotas, outras boas, soturnas, alegres, mas catalisadora, verdade. Gosto disso. Das conversas. Do olhar e dos gestos, juntamos bebida fala e tempo, acrescento desperdício de tempo na euforia… pas des nuits blanches,mas exaustão, yeux cernés. Pateticamente, dor pelo corpo, noite mal dormida. E segue no dia seguinte, hoje.
Quero guardar este trepidante momento de mudança, chegada no meu lugar, chegada no silêncio entre leituras, cartas, fotos…e, as fotos estão pintando as portas, gosto. Se eu pudesse hibernar para chegar no tempo da pesca, mel, sol e quem sabe um namorico, verdadeiro: urso tem possibilidades. Não quero esvazear o momento. Posso me imaginar na França, entregue aos teus cuidados, ou no campo, ou perto do mar num tempo de recolher a vida dos pedaços espalhados… Tu te imaginas em Porto Alegre, urbano, solto, cheirando a fruta, ao sol dos trópicos. A fala preguiçosa da lingua estrangeira? Talvez tudo se faça na sonolência: noites mal dormidas, um trabalho idiota, a secura da vida, empurrões. Acreditei em histórias que se fecham: certeza dentro das incertezas. Foi assim com o marchand, viúvo, logo se engajou com amiga alemã, namorada poderosa. Apenas dividiu o tempo. Quebrou meu orgulho. Estou desgastada, sem sintonia, triste.Perdoa.
Escutar tua voz ao telefone foi bom. O som da remissão: tu me perdoavas. Assim, eu me aproximava, quieta, acalmada. Confidências entre mares? Nunca poderemos nos encontrar, nem na França, em lugar nenhum. Tempos cruzados por afazees: uma pedra sobre outra perda para reconstruir terra ancestral. Os princípios, disse Juliette. Eu não mandei os presentes…meus equívocos.
Vou te escrever mais. Esta carta ficou longa e confusa. Quero tuas palavras precisas. Sentir o carinho reconhecido no gesto – egoista eu sou. Rígida. O olhar, o toque. Correspondência ao sentimento interno de alma machucada, descrente, justo pela diferença. Quem é mais feliz? Homem ou mulher? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2004 – Porto Alegre. – Foto Marina Pfeifer –
