aniversário chocolate e tantas tantas tantas flores

As compridas tulipas rajadas estavam muito esticadinhas em suas hastes, como se fossem filas de soldados, e lançavam olhares desafiadores às rosas, que ficavam do outro lado do gramado, dizendo: ‘ Nós agora somos tão esplendidamente belas quanto vocês.’ As borboletas roxas esvoaçavam por toda a parte com pó de ouro nas asas, visitando as flores, uma a uma; uns lagartinhos saíam dos buracos do muro para se aquecerem no sol quente e as romãs estouravam e abriam com o calor, deixando à mostra seus coraçõezinhos sangrentos. Até os pálidos limões amarelos, que pendiam em quantidade da melissa mofada e, ao longo das arcadas, sombras pareciam ter adquirido tonalidade mais rica com a maravilha da luz do sol, enquanto as magnólias abriam suas vastas flores que pareciam globos de marfim recurvado, enchendo o ar de pesado perfume.” (p.83-84) Oscar Wilde Histórias de Fadas – O aniversário da Infanta

De fato estou com minha estória embutida… O fato de estar resolvida não me impede ver / imaginar flores e espalhar tinta colorida na tela que preparei. Pego os pincéis e vou passando pelas pastas, molhando as pontas nos potinhos e sigo a me esbaldar: sangue e imaginação atiçando as cores, e o texto. Estou cansada. Fiz a mudança ontem.

A casa tem um quintal apertado, e venezianas amarelas. A lareira com pedras irregulares (difícil de limpar), mas funciona. Comprei nós de pinho. Com lenha seca e gravetas o fogo iluminou o frio deste agosto. Setembro vai me acordar pensando primavera para me dar parabéns! Comi o bolo de chocolate. Abri o livro e as fadas entraram com o Príncipe Feliz do Oscar Wilde. E eu acomodei todos os fantasmas de amor e bebi o vinho para festejar. Pensei em reinventar meus cabelos e ficar blonde e bela. Por que não aceitar o tempo mudando tudo? Todas as vontades em lugares diferentes… Flores em pequenos vasos, enfileiradas no parapeito da janela. Sinto que os anos se desdobram, soam como sinos soam… As minhas invencionices me aquecem, mas a verdade, a evidente, é o danado deste frio misturado com morangos e ideias, e música. Dancei. Dancei e espalhei os discos de vinil pela sala. Esta história de entender estórias desalinha qualquer lógica. Vou amontoar os sonhos em baixo dos travesseiros e trazer as vontades para baixo dos cobertores e dormir. Amanhã vou colocar as roupas nas gavetas, as louças no armário, e polir as pratas enquanto mergulho as taças na bacia com sabão e luxo. Ficarão lindas amanhã. Amanhã. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2023 – Torres

E o gosto de vida modifica tudo. “ Um gago tentando desesperadamente pronunciar o primeiro som é como um passarinho tentando despegar-se de um visgo espesso. Quando finalmente consegue se soltar, é tarde demais. Lógico, há ocasiões em que a realidade do mundo exterior parece ficar esperando por mim, como se cruzasse os braços, enquanto tento me soltar. Mas o que fica esperando não é uma realidade fresca. Quando, depois de todos os meus esforços, consigo atingir o mundo exterior, tudo o que encontro é uma realidade que mudou de cor e saiu de foco – uma realidade que perdeu o frescor que eu considerava necessário, e que recende um pouco a podridão.” (p.7) Yukio Mishima O Templo do Pavilhão Dourado – Editora Rocco, 1988

Deixe um comentário