“Eu vi um santo que talvez estivesse parado sobre um poço. Para dizer a verdade, talvez não tenha visto nada, mas senti algo que teria de expressar assim. A água corria, e o que o santo fazia também vinha jorrando sobre a beirada, como se fosse um tanque mansamente transbordando para todos os lados. Acho que deveríamos ser assim, pois então sempre agiríamos direito, pois seria completamente indiferente o que fazemos.” (p.529) Robert Musil O Homem Sem Qualidades Editora Nova Fronteira

Talvez, uma incerteza inquieta e desanimadora. Dizer não significa encontrar o poço. Esta coisa de jorrar, de água a escorrer, pode ser desperdício. Abundância, certamente, indiferença. Transbordar enquanto se respira. Chorar por não conseguir dizer. E aperta por dentro. Não dizer pode ser omitir, deixar passar o abraço, o beijo, a certeza. Não te escutar quando queres mesmo receber, acertar. Num instante o vento, ou a trovoada querendo dizer… O bom são palavras boas, também desafio de ser reflexo do emaranhado, o nosso. Pedir perdão não basta. É preciso entender a loucura de não saber, não poder ajudar. Esfarelado momento. O que de fato eu posso fazer? Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2023 – Porto Alegre