“Enquanto escreve, sente que se move para dentro (através de si mesmo) e ao mesmo tempo se move para fora (na direção do mundo). O que ele experimentou, talvez, durante aqueles poucos momentos na véspera de Natal em 1979, sentado sozinho em seu quarto na rua Varick, foi isto: a súbita consciência de que mesmo sozinho, ou para ser mais exato, no momento em que começou a tentar falar sobre essa solidão ele se tornou mais do que ele mesmo. A memória, portanto, não apenas como a ressureição do passado particular de alguém, mas como uma imersão no passado dos outros, o que vale dizer: história – da qual a pessoa tanto participa quanto é uma testemunha, é uma parte e se mantém à parte. Tudo, portanto, está presente ao mesmo tempo em seu pensamento […] Se existe alguma razão para ele estar em seu quarto agora, é porque há dentro dele alguma coisa ávida para ver tudo de uma só vez, saborear esse caos em toda a sua simultaneidade lenta, tarefa sutil de tentar lembrar o que já foi lembrado. a caneta nunca será capaz de se mover depressa o bastante para pôr no papel todas as palavras descobertas no espaço da memória. Algumas coisas se perdem para sempre, outras talvez serão de novo lembradas, e outras ainda foram perdidas, encontradas e perdidas outra vez. Não há como ter certeza de nada disso.” (p.156) Paul Auster A invenção da solidão – tradução de Rubens Figueiredo – São Paulo – Companhia das Letras – 1999