sem voz, pego emprestado…

Sem voz. Sem conseguir expressar o que sinto. Sem poder te abraçar e beijar como seria abraçar e beijar. Sem floreios, nem sínteses. Resolvendo um café da manhã cheio das delícias do almoço. Eu usufruo desta chuva verdadeira, chuva que não interrompe nem mesmo o vento: forte e com raios… Chuva, agora maio outonal…” Pode-se dizer que entre homem e mulher existe algo mais importante que o amor? Direi que é possível ver outra pessoa como a si mesmo: permitir-lhe todos os gestos e os movimentos permitidos a si mesmo, ter prazer quando ela os faz como se goza quando nós mesmos os fazemos, não se sentir privado de algo que ela faça com outros como nós não nos sentimos tolhidos de algo que fazemos com outros – quer dizer: amar nosso próximo como a nós mesmos. Este amor se chama caridade. Mas se a outra pessoa desaparece? Podemos nos amar, mesmo desaparecidos? Seria preciso crer que ninguém jamais desaparece. Que a morte não existe. Morrerá e tu ficarás sozinho como um cão. Mas como podes aceitar a morte para ti, pois queres negar ao outro aceitá-la por si? É caridade ainda. Podes chegar ao nada, mas não ao ressentimento. Não ao ódio. Lembra sempre que nada te é devido. O que realmente mereces? Quando nasceste, por acaso a vida te era devida?” (p.307-308) Cesare Pavese O OFICIO de VIVER

Assim esperneio diante de coisas aborrecidas: da poeira da casa, da louça que preciso lavar, das plantas a serem molhadas, da comida a ser feita, das camas a serem arejadas, sacudidas, do chá, das conversas / falas necessárias com a família, do alô aos vizinhos… Das chamadas telefônicas a serem respondidas. Não das cartas a serem respondidas, nem das saudosas idas ao correio, nem do trabalho… Ou ao que chamo trabalho / a produção. O envolvimento com o meu fazer que me completa. Mas, contudo, tudo o mais é uma corrente a ser arrastada… Não dimensiona nem o teu beijo, nem teu abraço, nem teu olhar, nem o meu prazer… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2024 – Torres com muita muita muita chuva neste Rio Grande do Sul enquanto o Brasil se esquenta e ferve num verão estranho.

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