reencontrar

Para “reencontrar” minha mãe, fugidiamente, é pena, e sem jamais poder manter por muito tempo essa ressureição, é preciso que, bem mais tarde, eu reencontre em algumas fotos os objetos que ela tinha sobre sua cômoda, uma caixa de pó-de-arroz de marfim (eu gostava do ruido da tampa), um frasco de cristal bisotado, ou ainda uma cadeira baixa que hoje tenho perto de minha cama […], as grandes sacolas de que ela gostava (cujas formas confortáveis desmentiam a ideia burguesa de “bolsas”. (p.97-98)

Para reentrar minha mãe percorro os mesmos corredores. Vejo os seus olhos claros, arregalados, generosos. Os olhos do meu pai. Os dela eram pequenos castanhos, inquietos. Lindo ele. Apenas carinho e encontro. Para chegar perto de minha mãe eu bebo uma xícara de café preto e fumo um cigarro. E ela sorri. Ou bebo um gole d’água gelada, ou água com limão, o pai recomendava. Acompanho a leitura em voz alta que ela faz para ele. Comentam o parágrafo, eu não entendo, apenas ouço. Antes das refeições estamos todos ali, reunidos. A tia Joana senta no sofá. Eu como as bergamotas descascadas com os dedos: sentada nos degraus do alpendre: o sol entrando… Os nós de pinho queimam na lareira porque é inverno. Estamos na biblioteca da rua Vitor Hugo, 229. Apenas eu sentada nos degraus do alpendre. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2024 – Torres – com o sol a entrar no apartamento – a ideia de morar em Torres, meus filhos e eu deve ter sido, mesmo, do meu pai. O apartamento da rua José Picoral, 117 – foi comprado para ser meu. Coisas de saber o futuro, no presente, no agora das pessoas.

“Assim, a vida de alguém cuja existência precedeu um pouco a nossa mantém encerrada em sua particularidade a própria tensão da História, seu quinhão. A História é histérica. Ela só se constrói se a olhamos – e para olhá-la é preciso estar excluído dela. Como criatura viva, sou o contrário da História, o que a desmente, a destrói em benefício de minha estória apenas (impossível para mim acreditar nos ‘testemunhos’; impossível, ao menos ser um deles; Michelet, por assim dizer, nada pode escrever sobre seu próprio tempo. Para mim, a História é isso, o tempo em que minha mãe viveu antes de mim (aliás, é essa época que mais me interessa, historicamente). (p.98) Rolland Barthes A CÂMARA CLARA

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