Longe estás do beijo, e, da voz e do amor e das palavras. Sombra ou presença – meu querido, perdas / espaços / lembras quando nós nos preocupamos com o lugar da poltrona? O perfeito. Aquele em que, finalmente, sentarias para passar tuas longas tardes. Intermináveis, não. Completarias as leituras inacabadas. Terias os teus a tua volta. Respirarias. Escrevo para reafirmar: penso em ti. Nossos pais ainda conversam: escuto vozes de respeito, admiração. O tempo alcançou tua mão. Quem desespera no eco das vozes. Estamos preparados para reclamar: mundo colorido e morno. Borboletas e pipas voam, mas não estás lá… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2025 – Torres
Mês: fevereiro 2025
ÔNIX e eu
anjo a partir do estado
Sorrindo, apanhou da estante um livro em que se encontrava uma marca de leitura, e precedeu as próprias palavras das seguintes palavras alheias ‘ Embora o céu, como a Terra, esteja submetido a uma sequência de acontecimentos diversos, os anjos não tem a menor noção ou ideia de espaço e tempo. Lá também os fenômenos se sucedem uns aos outros, em perfeita conformidade com o mundo, mas, mesmo assim, eles não sabem o que significa o tempo, pois no céu não há anos e dias. vigoram apenas modificações de estados. Como os anjos, ao contrário dos homens, não tem nenhuma ideia de tempo, lhes falta também sua determinação; eles nem mesmo conhecem a divisão em anos, meses, semanas, horas, em amanhã, ontem e hoje. Quando ouvem um ser humano falar a respeito – e Deus sempre fez anjos acompanharem os homens -, entendem estados e determinações de estado. O homem pensa a partir do tempo, o anjo a partir do estado; assim, o que nos homens é ideia natural, se transforma nos anjos em ideia espiritual. No mundo espiritual, todos os fenômenos de movimento se realizam através de modificações de estado. Como isso me preocupava, fui alçado à esfera celeste e à consciência dos anjos, e conduzido Deus através dos reinos do céu até os astros do Universo, em espírito, entende-se, enquanto meu corpo ficava no mesmo lugar. Todos os anjos se movem dessa maneira de um local para outro, razão pela qual não existem distâncias para eles, e por conseguinte, também não existe longitude, mas apenas estados e modificações de estados; toda aproximação é uma semelhança de estados interiores, todo afastamento uma diversidade; os espaços no céu nada mais são que estados externos que correspondem aos internos. No mundo espiritual, qualquer um fica visível para o outro assim que sente um desejo premente de sua presença, pois então se coloca em seu estado; existindo repulsa, ele, pelo contrário, se afasta. Da mesma forma, alguém que muda de paradeiro em seu meio, em átrios ou jardins, chega mais depressa quando anseia por isso, e mais devagar quando o anseio é menor, o que observei frequentemente e sempre me causou espanto. E como os anjos não podem conceber o tempo, a ideia que eles fazem da eternidade da eternidade é diferente da dos homens ; eles entendem terrenos; eles entendem por eternidade um estado infinito e não um tempo finito.’
Ulrich encontra essa passagem por acaso, ao folhear alguns dias antes uma edição das obras escolhidas de Swedenborg, que possuía, mas nunca chegara a ler direito; e se a transcrevera tão extensamente, comprimindo-a um pouco, era porque apreciava ouvir esse velho metafísico, esse engenheiro erudito – que , aliás, causara impressão nada desprezível sobre Goethe, e até mesmo Kant – falar do céu e dos anjos com tanta segurança como se se tratasse de Estocolmo e seus habitantes. Isso condizia tão bem com sua própria ocupação, que a diferença restante, também ela nada desprezível, se destacava com enorme nitidez. Sentia grande prazer em insistir nessa diferença e em recriar aquelas afirmações de um vidente, de certo secas e despidas de sonho em sua precoce convicção, mas nem por isso menos extravagantes, partindo dos conceitos formulados com maior cautela por um século ulterior.
E escreveu assim o que pensara. (p.858-859) Robert Musil O Homem Sem Qualidades – tradução Lya Luft e Carlos Abbenseth – Editora Nova Fronteira, 1989 – Rio de Janeiro

