A propósito, diga a meu pai que as eleições correram aqui como geralmente correm por lá –

atas falsas, livros roubados, capangas, atentados contra a liberdade do cidadão e outras asneiras em que se pegam os políticos da oposição para atacar a gente do P.R.C. Tolices! Os jornais do governo naturalmente dirão que houve inteira liberdade no pleito, que tudo andou às mil maravilhas. Mas eu trabalho em dois jornais de oposição… O interessante é que, um dia depois da eleição, um colega me perguntou se o nosso partido tinha vencido. E eu perguntei qual era o nosso partido. Era o Liberal. Nós somos liberais. Mas eu não sabia… […]

O que eu sinto é morar numa terra onde só se pode conseguir alguma coisas com muito reclamo. Aqui tudo se resume nisto: cada sujeito faz propaganda de si mesmo. Um indivíduo que é burro fala em voz alta, de papo, grita, diz asneira e às vezes chega a fazer figura diante de outros que são mais burros do que ele. Um animal que tem algum talento afeta uma atitude ultra-humana, quase divina – não conversa: prega; não dá sua opinião coisa nenhuma: afirma, assevera, pontifica. É dogmático como os padres da Igreja. Enfim, tudo reclamo. Um tipo escreve um livro e vai, ele próprio, engrandecer, pelos jornais, o livro que escreveu. Muitas coisas más conseguem tornar-se boas assim. Eu digo comigo mesmo que o meu vizinho é um asno; mas tenho interesse em dizer em público que ele é um gênio. É o elogio pago. Tudo reclamo, em toda a parte, a toda a hora, sob todas as formas. Há joias tentadoras nas vitrines, sobre uns estofos magníficos; as mulheres enfeiram-se, pintam-se, estudam gravemente a importante sustão do vestuário, para aumentar o valor de uns encantos fictícios; os jornalistas escrevem, convictamente, que o “o sr. barão Fulano, falecido ontem, em seu palacete à Rua X, era a maior manifestação literária de nosso tempo.” Uma praga! às esquinas, às portas dos bares, sujeitos sérios, rigorosamente vestidos em vastas sobrecasacas negras, dirigem-se, em altas vozes, à multidão: – “V. Exa. conhece a Tomatina? Os senhores já provaram os biscoitos do Sincrano? Experimente as pílulas do dr. X”. Está a gente muito tranquilamente tomando uma xícara de café, quando um indivíduo se levanta e pôe-se a gritar: – “Escândalo! Patifaria! Maroteira!”

Voltam-se todos. Será algum barulho? E o homem bate com a cadeira no chão, dá um murro na mesa e continua a berrar: – ” Imoralidade! Então os senhores já viram tão grande indecência? Miséria! Escândalo!” E, quando a curiosidade dos circundantes chega ao máximo, o homem sorri e diz muito calmamente : – Descansem meus senhores. Não é aqui nem agora. É hoje à noite, no Recreio. A nova peça A Moratória Conjugal uma peça de gênero livre, somente para homens. Uma verdadeira imoralidade! Vão hoje lá. Uma pândega! Veja a senhora como as coisas aqui são. E o pobre diabo que for tímido, que não declarar que é um gênio, é uma criatura morta. Um rapaz meu conhecido apresento-me a um poeta, dizendo que era um literato. E eu caí na tolice de dizer que não o era.. Dei uma grande patada, não há dúvida. Eu devia ter ficado calado ou, melhor, ter entrado a dizer sandices sobre arte e sobre outras coisas que não conheço. Era o que eu deveria ter feito. É o que todos fazem… (p.44-46) Graciliano Ramos CARTAS 1892-1953 / Rio de Janeiro: Record [1981]

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