
sou eu a me explicar / do fim pro começo, do começo pro fim como se apenas noventa anos pudessem mesmo significar….não setenta, nem cinquenta, muito menos oitenta. escondo meu namorado atrás da poltrona, em baixo da estreita cama. coloco muitas muitas flores pelo apartamento como explicação // sempre estou a querer explicar o inexplicável / aquela paixão deslocada, ocupada, com dono de cartório e tudo o mais. as rejeições fundamentais, o caminho de surpresas? por onde exatamente eu devo começar? Queixar-me ou vangloriar-me dos músculos / dos olhos e da velocidade? No momento, não, definitivamente, decidi que a Moby Dick não vai ser caçada, aliás, nenhum cetáceo… deu uma dor no mundo / uma indignação no / do mar / como podemos ser tão levianos, despreocupados, egoístas? já irresponsáveis com os cães, com os gatos, com os passarinhos, com os tigres, com a terra, com as ilhas, com filhos, com a terra? estuporante descuido. é para ser biográfico / deveria ser o eterno (porque sempre recomeçado) texto sobre uma história que termina em estória / contar uma vida de hoje, de ontem, importa? estão todas tão estupidamente já misturas! o meu vestido de renda é o teu, aquela saia fantástica que mandei fazer, eu me desfiz… e as ridiculamente iguais a tantas outras, se amontoam…a fantasia foi pro lixo, e no cofre estranhas joias impossíveis, as que podiam significar as ladras levaram… chega aquela raiva arrumada porque Jorge se importou muito pouco embora sua coleção de armas antigas também tenha sido levada / aquele poço de horror e medo quando a casa é invadida e nossas coisas levadas / descuido estúpido, sei lá…alguém que conhecia todos os cantinhos e detalhes… as coisas / objetos que gritam pelo nosso nome e desaparecem… sem valor nenhum… porque, não me diz respeito. importa meu bolso cheio de pedrinhas que recolhi ontem quando fui a praça. CHORO! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2026 – Torres
