ainda transito na correspondência… fico com vontade de rabiscar um bilhete, escrever uma carta, desenhar com a caneta tinteiro sentindo o cheiro da tinta / tão absolutamente fora do contexto / não é morar na lua, mas ainda muito, espiar a lua… desejar e acompanhar a luminosidade. não sei o que devo fazer deste meu deslocamento. ainda adoro espiar correspondências e ver o tempo através destas “conversas” epistolares. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres
Autor: amorasazuis
coisas de AMIEL
“Assim, embora a minha vida secreta tenha tido os meus tormentos, não atravessei os piores suplícios, os do amor desconhecido, do amor traído, da paixão tornada loucura, nem a separação de uma pessoa ou de um filho amados. Relativamente fui privilegiado. As provações da miséria, da humilhação prolongada, das cruéis enfermidades físicas passaram longe de mim. Tenho muitas graças a render a Deus pelo meu destino, que antes foi contemplativo do que ativo, mas que recolheu mais bens do que males sofreu.
Conclusão: levemos os fardos uns dos outros e, por conseguinte, pensemos menos na defensiva pessoal do que na na caridade. Se podemos ser úteis a alguém, sejamos – embora sem muita esperança nem encanto. Semear sem contar os grãos.” (p.365) Amiel – Diário Íntimo
…li, reli, transcrevi. trabalho as palavras dentro do meu coração… pois é, não sei… tenho graças a render, mas como gostaria de conseguir expor, contar os apertos e as dores, e as mágoas -, tentei ser contemplativa, mas a vida veio com ondas enormes que derrubam. era para ser mar tranquilo, de repente, aquela onda enorme que nos leva pro fundo… estranho viver. na confissão… pois é, gosto de estar viva, será isso? Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

fazer / doméstica solução
Lavar / quer dizer, esfregar pra sair mesmo a mancha do café. Passar. Limpar aqui, ali. Perfumar. Angustia mastigada pelo vento. Renúncia inconsolada: não entra no acordo da circunstância, não tem paz. Suponho que o sentimento se mistura ao cacarejante da voz na escada. Sobe o som: o assunto não me diz respeito. Viagem do vento… Nem vou explicar o porquê. Anoitece na minha alma. Tudo é turvo e confuso. Resultado perdido… Perco a consciência de poder. O poder é mesmo uma risada desgarrada: aos mãos perdidas, não acerto o abraço. Construir nova família / não pode esquecer da que já existe. As rupturas me apertam… Como vou explicar o sentimento? Os netos, os sobrinhos são prolongamento. Amar! O escudo da vida, sim, o meu amor por eles me coloca na frente da batalha… Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres
Que venham os girassóis!




cansada e medrosa
pessoa cansada / mulher medrosa / homem assustado
o cansaço / o medo / o susto
adjetivo ou substantivo
classe gramatical = gente ou enchente
sei lá! esgrimar deve ser difícil
educar
venham!
maestros e regentes!
é urgente. Elizabeth M. B. Mattos / abril 2025 / Torres
PASCAL QUIGNARD
Oh! mes enfants, je ne compose pas! Je n’ai jamais rien écrit. Ce sont des offrandes d’eau, des lentilles d’eau, de l’armoise, des petites chenilles vivantes que j’invente parfois en me souvenant d’ un nom et des plasiers.
Mais où est la musique dans vos lentilles et vos chenilles?
Quand je tire mon archet, c’est un petit morceau de mon coeur vivant que je déchire. Ce que je fais, c’est que la discipline d’une vie où aucun jour n’ est férié. j’accomplis mon destin. (p.86) Pascal Quignard Tous les matins du monde
tu aqui ou ali / no disfarce
de repente insuportável! com certeza sem retorno. são só brilho, são só água. lâminas, golpes agudos.
BRUNO TOLENTINO
O embrulhinho
EU me debato dentro de um vulcão. A esperança de ainda voltar a ver-te dói como uma criança com medo de nascer, sufocando em meu ventre.
Ah, se, para arrancar-me esse pedaço que ainda hoje te pertence, eu pudesse matar em silêncio esse fantasma que atormenta a minha carne!
Mas não. Padeço com um vulcão por dentro, sem coragem para esse assassinato. Tu, que me inseminaste de doçura e de ultaje, ensina-me este parto!
Eu, Beth estremeço com o versos. Lá está a história todo, do amor tocado e impróprio, distante de nós dois, mas dentro de mim, a remexer…
Solilóquios
Mas não tem importância, aqui estamos nós outra vez… À distância, eu sei, mas ainda a sós. Que importa, eu nunca fiz sonhos de perspectiva e uma chaga furtiva vale uma cicatriz. E ainda que não houvesse nem uma nem outra, quem muito busca encontra: tu vens, tu me apareces.
Querido, sempre, meu querido. Obrigada. Escreves e se faz ponte: caminho por tuas palavras / teu ‘discurso’ certeiro a ponderar. Não te respondo derramada como eu gostaria, por pudor, por pudor, meu querido. Seguem versos. Que compreendas o quanto te amo. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres
AS HORAS DE KATHARINA – Bruno Tolentino, nascido no Rio de Janeiro – 1940, publicou seu primeiro livro, Anulação e outros reparos, em 1963.
intimidade feminina
Diário Íntimo de Amiel (Henri-Frédéric Amiel ( 3 de junho de 1877 )
“A intimidade feminino, a intimidade platônica e santa me foi tantas vezes concedida, sempre foi no entanto uma fonte de dores, para uma das duas partes, ou mais exatamente para ambas. Mas como proceder? O que me faz morrer foi antes o que me faz viver. O amargo decorre do mel. A Natureza nunca é generosa senão parcialmente, e em aparência. Encontramos o nosso momento em nossa alegria, a nossa punição em nosso privilégio. Para casar-me, teria sido necessário encontrar uma igual, meu complemento, aquele que tivesse satisfeito integralmente o meu ser. Ora, jamais encontrei aquela com quem a ideia de passar toda a vida e toda a eternidade não me causasse um pouco de temor. Sempre percebi o lado da sombra, o limite, a insuficiência, o obstáculo, o ponto ameaçador, e não pude ter a ilusão necessária para a fé. Essa percepção crítica de algum modo impede a amizade, isto é, a afeição que perdoa, encoraja, ergue, suporta, melhora, mas dissipa o prestígio, impede essa admiração encantada que faz ver, em uma determinada mulher, a mulher, a desejada, a única, a suficiente, a esposa, em suma.“(p.455) Henri-Frédéric Amiel Diário Íntimo
Parece tão fora do contexto – bem, é 1800 / categórico – os adjetivos saltam objetivos. Assusta um pouco / arranha o que se entende hoje de escolhas / parceiros… Mas eu o sinto íntegro, corajoso e fiel a ele mesmo… De toda a sua enorme obra / o que chega com reedições e leitura é o DIÁRIO / cada dia… o que posso dizer?
Espiar diários, anotações rápidas, páginas embrionárias / esta nudez do escritor / esta perturbadora exposição é minha coragem. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres
onde você está em mim?
Alucinação! / Suportar o dia a dia /amar e mudar coisas diz Berchior / o tempo que volta: boa canção, bom cheiro, bom amor, apaixonada palavra e teu braço! O beijo de amar! A saudade colorida que traz o hoje embrulhado no ontem e já é amanhã… Elizabeth M. B. Mattos / março de 2025 – Torres
Esta coisa da idade?! 90 anos, 80 anos ou aqueles preciosos 70 anos. Que idade eu tenho? Que idade tem o amor? O que é ontem não está dentro deste agora e eu vibro, querido.
sombra e manhã
A sombra da manhã me agrada. Frescor! Aquelas boas sensações do dia abrindo… Gosto. Gosto de estar viva / desejo e alegria transbordam. Confusão para fazer acontecer. O silêncio adormece. Certeza mansa: estás a caminhar na direção amorada das frutas maduras. Amo isso. Apegada, agarrada aos teus sonhos, meu querido. Obrigada. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

estica tua mão
Como estou perto de ti meu querido! Estende tuas duas mãos, vou te dar um beijo. quero sentir teu abraço, entender o trevo do jardim e acreditar: somos dois. Sigo amanhã para São Paulo. Estaremos juntos. Nada mais importa. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres