intimidade cúmplice

Há entre nós uma intimidade cúmplice, que tu teces sem alardes. Verifico quando já não é mais possível a repelir. E por que evitaria? Para proteger-me? De mim mesma? Não sei explicar. Vou a caça da memória… E hoje, já tão perto de um nada, eu amoleço o tempo com o perfume de cravo, um vazio escravo, uma indolência que se faz misericordiosa, talvez. Tenho lágrima escondida: não tenho mais tempo para saltitar ou organizar. A despedida parece breve. E a música perdida. Enfim… O tempo para contar histórias. Ainda terei? Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

amor não passa, não termina

grande amor, amor não passa, não termina… aguenta firme, dilacera, segue e vai com a vida que a gente consegue ter. não é descoberta, não se refaz, não se imagina. alguns sente, outros se encostam no amor, e…

amor entre as pessoas, não importa o grau de parentesco, ou existe e ferve, ou não existe, mas a pessoa inventa (imagina) -isso é bom pra carregar vida, mas o amor / amado / interrupto, mesmo entre homens e mulheres, humanos, é único. sentimento de existir lá dentro ou não existir. quando acontece de amar…o cenário somos não, de dentro…o mundo é cenário. às vezes precisamos estar sempre envolvidos com cenários / inventamos, criatividade faz amor, eu sei… Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

sim

sim, eu deveria ter conversado mais, dito mais, contado menos, vivido mais. de verdade. o tempo passa como ventania, tanta água, lava tudo. escolhas? escolhas ou empurrões- sei. não sei. no meio da insônia, o gosto de um vinho, de um brinde, um por que não? o sorriso que eu persigo. o lugar, a pessoa. sim, eu deveria ter conversado mais, dito mais, contado menos, ouvido, escutado mais. Elizabeth M. B. Mattos – 27 abril de 2025 – Torres aonde eu poderia estar, não sei, acho que não estou no lugar certo, mas tenho medo de ir / ir, não sei. ou ficar…

estranheza do meu tempo

Eu, meu agora claudicante, nublado, não sei definir. Limpo mais vezes a casa, cozinho menos, olho pela janela: o mundo segue apressado, ou distraído. Talvez, talvez inquieto. Sentir importa. Esticar a mão, ou escutar o corpo. Não desanimar.

Fotografia de Ana Moog / única, maravilha, espetáculo. Um olhar arrematado: beleza! Pura poesia, não, romance, ou uma novela, ou apenas ela, a olhar / ver a beleza pelas lentes… Ela agarrou o mundo dela e fotografou para me emprestar!

É bastante! Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

quase

quase velha / no sentido amplo que significa envelhecer / e o quase…, bem, quase é a reação. um dia dividido em manhã agitada, tarde laboriosa, anoitecer assustado. difícil explicar. transborda tanto sentimento: intenso. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

maratona

outro dia / outro limite, renascer, ultrapassar, carregar alegria pra chegar na energia… preparar a corrida! beijo, abraço, energia… E saudade boa! faz voar… perto! viver é muito bom! Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2025 – Torres

solavanco

crateras pelo caminho, usar as calçadas um desafio, as ruas, toda atenção! o solavanco pode ser definitivo / ou fatal… fico a lamentar. as ruas e as calçadas eram possíveis, ou já estou na imaginação… ocuparam o apartamento de cima, os feriados, as ditas férias deslocadas, abraços do ano, e estes com chocolate… será que existe mesmo? a surpresa, o gosto, a vontade e sonhos reais? o que eu fazer? receita: o gosto de gostar – boa receita! dia bem bonito por aqui… Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

tempo remexido

lendo Taras Bulba / Nikolai Gógol – heroica luta do povo ucraniano contra invasores poloneses. cossacos – camponeses russos que colonizaram vastas regiões da Ucrânia no século XVI – o hoje remexido, esquisito, atrapalhado, não sei… direita, esquerda ou nada disso. tu me dizias, gorda! és revolucionária, mas não me explicaste direito. ainda quero te perguntar tantas coisas!

A ignorância era a ciência predominante naqueles tempos, porque todos estavam afastados da experiência.” (p.29) Nikolai Gogól – 1982 – – tradução de Francisco Bittencourt