M. minha amiga, admiro cada vez mais teu jeito de dizer as coisas, de pensar e fazer/acontecer a tua vida. Ansiedade terminou, é isso aí, minha amiga, encontraste o caminho. Pessoas carecem de pessoas, amigos. Vida a se desdobrar… Não apenas sexo e encontros amorosos. Muito, muito mais o viver. Experiência curiosa e interessante, teu comentário. Compreendo a tua amiga. Valores estratificados e comportamento regular. É assim mesmo. Ela conseguiu ficar em casa / no poder, sem complicações / acolheu… Valores adquiridos. Eu admiro. É corajoso. Força de vontade, garra. Sou mais fluída. Pego muito leve quanto ao socialmente correto. Minha alegria pessoal, meu motor. A experiência do / no Bazar Praiano: porta que se abre. Estou gostando de minha atividade. O comércio pode ser um bom / novo caminho. Gosto de atender, deste contato com o público: o painel, o laboratório, a fantasia, a observação. Olho, faço. Estou dentro do ritmo quente das vendas: compras compulsivas, outras induzidas. Respiro as pessoas, troca cúmplice de olhares. Todos de férias. Tudo solto. Vagar e calor no meio das pastas de dentes, colheres, bandejas, revistas, café expresso, enlatados, pão de queijo, roupas, chapéus, cestas grandes e pequenas. Brinquedos e redes. Necessidades ou futilidades. Cartõezinhos, livros e o que hoje chamam de decoração: vela, potinho, enfeite, pratos, vasos. Tudo o que possas imaginar. Gosto deste contato com o público: fantasia. Observação. Estou integrada. Não é engraçado? De repente, dou-me conta de que tudo é possível. Ana e João chegaram ao Rio de Janeiro. A casa em Miguel Pereira é muito linda, fresca: estão bem instalados. Ela vai fotografar e escrever. Sinto saudade deles. Não é uma tolice? Saudade de tudo. Uma retomada no tempo. Necessidade de inserir o passado dentro do agora. Quantos sonhos! Não cabem no papel. Estou agitada, fervendo por dentro. Planos. Se possível viro a mesa. Não volto para a Ulbra. O terrível é que engordei: estou lá em cima! Enorme para todos os lados. Rever alimentação e amor próprio. Estou louca para sentar, tomar café preto e conversar contigo. Será muito bom. Assim mesmo amiga compreendo a tua posição. Também tenho saudades da Beth de antes, da minha juventude, do meu fôlego e das minhas certezas, do luxo e da coluna social. Sei que que isso tudo terminou. Não corri. Achei que a vida daria tudo sempre tudo e mais, sem esforço. Mudei. Enfim, cá estou diante de uma porta aberta, colorida, engraçada. Vou entrando… com carinho e saudade. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro – 2001 – Torres

Foto: Pedro Moog





