verão de 2001

M. minha amiga, admiro cada vez mais teu jeito de dizer as coisas, de pensar e fazer/acontecer a tua vida. Ansiedade terminou, é isso aí, minha amiga, encontraste o caminho. Pessoas carecem de pessoas, amigos. Vida a se desdobrar… Não apenas sexo e encontros amorosos. Muito, muito mais o viver. Experiência curiosa e interessante, teu comentário. Compreendo a tua amiga. Valores estratificados e comportamento regular. É assim mesmo. Ela conseguiu ficar em casa / no poder, sem complicações / acolheu… Valores adquiridos. Eu admiro. É corajoso. Força de vontade, garra. Sou mais fluída. Pego muito leve quanto ao socialmente correto. Minha alegria pessoal, meu motor. A experiência do / no Bazar Praiano: porta que se abre. Estou gostando de minha atividade. O comércio pode ser um bom / novo caminho. Gosto de atender, deste contato com o público: o painel, o laboratório, a fantasia, a observação. Olho, faço. Estou dentro do ritmo quente das vendas: compras compulsivas, outras induzidas. Respiro as pessoas, troca cúmplice de olhares. Todos de férias. Tudo solto. Vagar e calor no meio das pastas de dentes, colheres, bandejas, revistas, café expresso, enlatados, pão de queijo, roupas, chapéus, cestas grandes e pequenas. Brinquedos e redes. Necessidades ou futilidades. Cartõezinhos, livros e o que hoje chamam de decoração: vela, potinho, enfeite, pratos, vasos. Tudo o que possas imaginar. Gosto deste contato com o público: fantasia. Observação. Estou integrada. Não é engraçado? De repente, dou-me conta de que tudo é possível. Ana e João chegaram ao Rio de Janeiro. A casa em Miguel Pereira é muito linda, fresca: estão bem instalados. Ela vai fotografar e escrever. Sinto saudade deles. Não é uma tolice? Saudade de tudo. Uma retomada no tempo. Necessidade de inserir o passado dentro do agora. Quantos sonhos! Não cabem no papel. Estou agitada, fervendo por dentro. Planos. Se possível viro a mesa. Não volto para a Ulbra. O terrível é que engordei: estou lá em cima! Enorme para todos os lados. Rever alimentação e amor próprio. Estou louca para sentar, tomar café preto e conversar contigo. Será muito bom. Assim mesmo amiga compreendo a tua posição. Também tenho saudades da Beth de antes, da minha juventude, do meu fôlego e das minhas certezas, do luxo e da coluna social. Sei que que isso tudo terminou. Não corri. Achei que a vida daria tudo sempre tudo e mais, sem esforço. Mudei. Enfim, cá estou diante de uma porta aberta, colorida, engraçada. Vou entrando… com carinho e saudade. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro – 2001 – Torres

Foto: Pedro Moog

amorar

quem desespera no /com o eco das vozes? eu, decerto sou eu mesma. preparo a reclamação aos gritos… é preciso acomodar / ceder e dar passagem para a gentileza. preciso te ver / sentir / acolher / recolher teus beijos espalhados. “superações exigem muito e algumas deixam vestígios, alguns duradouros, outros permanentes. Não se pode evitar.” não me consolam tuas palavras. perco a fantasia. poder de te imaginar a chegar. ou pensando, ou livre… amarras / grilhões assustam / afastam, sinto tua ausência. o exercício de viver deixa o corpo dolorido. tempo aperta. envelhecer exige administrar. eu tento. Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2025 – Torres

Ônix – 2024 – Torres

ainda o beijo

Longe estás do beijo, e, da voz e do amor e das palavras. Sombra ou presença – meu querido, perdas / espaços / lembras quando nós nos preocupamos com o lugar da poltrona? O perfeito. Aquele em que, finalmente, sentarias para passar tuas longas tardes. Intermináveis, não. Completarias as leituras inacabadas. Terias os teus a tua volta. Respirarias. Escrevo para reafirmar: penso em ti. Nossos pais ainda conversam: escuto vozes de respeito, admiração. O tempo alcançou tua mão. Quem desespera no eco das vozes. Estamos preparados para reclamar: mundo colorido e morno. Borboletas e pipas voam, mas não estás lá… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2025 – Torres

anjo a partir do estado

Sorrindo, apanhou da estante um livro em que se encontrava uma marca de leitura, e precedeu as próprias palavras das seguintes palavras alheias ‘ Embora o céu, como a Terra, esteja submetido a uma sequência de acontecimentos diversos, os anjos não tem a menor noção ou ideia de espaço e tempo. Lá também os fenômenos se sucedem uns aos outros, em perfeita conformidade com o mundo, mas, mesmo assim, eles não sabem o que significa o tempo, pois no céu não há anos e dias. vigoram apenas modificações de estados. Como os anjos, ao contrário dos homens, não tem nenhuma ideia de tempo, lhes falta também sua determinação; eles nem mesmo conhecem a divisão em anos, meses, semanas, horas, em amanhã, ontem e hoje. Quando ouvem um ser humano falar a respeito – e Deus sempre fez anjos acompanharem os homens -, entendem estados e determinações de estado. O homem pensa a partir do tempo, o anjo a partir do estado; assim, o que nos homens é ideia natural, se transforma nos anjos em ideia espiritual. No mundo espiritual, todos os fenômenos de movimento se realizam através de modificações de estado. Como isso me preocupava, fui alçado à esfera celeste e à consciência dos anjos, e conduzido Deus através dos reinos do céu até os astros do Universo, em espírito, entende-se, enquanto meu corpo ficava no mesmo lugar. Todos os anjos se movem dessa maneira de um local para outro, razão pela qual não existem distâncias para eles, e por conseguinte, também não existe longitude, mas apenas estados e modificações de estados; toda aproximação é uma semelhança de estados interiores, todo afastamento uma diversidade; os espaços no céu nada mais são que estados externos que correspondem aos internos. No mundo espiritual, qualquer um fica visível para o outro assim que sente um desejo premente de sua presença, pois então se coloca em seu estado; existindo repulsa, ele, pelo contrário, se afasta. Da mesma forma, alguém que muda de paradeiro em seu meio, em átrios ou jardins, chega mais depressa quando anseia por isso, e mais devagar quando o anseio é menor, o que observei frequentemente e sempre me causou espanto. E como os anjos não podem conceber o tempo, a ideia que eles fazem da eternidade da eternidade é diferente da dos homens ; eles entendem terrenos; eles entendem por eternidade um estado infinito e não um tempo finito.’

Ulrich encontra essa passagem por acaso, ao folhear alguns dias antes uma edição das obras escolhidas de Swedenborg, que possuía, mas nunca chegara a ler direito; e se a transcrevera tão extensamente, comprimindo-a um pouco, era porque apreciava ouvir esse velho metafísico, esse engenheiro erudito – que , aliás, causara impressão nada desprezível sobre Goethe, e até mesmo Kant – falar do céu e dos anjos com tanta segurança como se se tratasse de Estocolmo e seus habitantes. Isso condizia tão bem com sua própria ocupação, que a diferença restante, também ela nada desprezível, se destacava com enorme nitidez. Sentia grande prazer em insistir nessa diferença e em recriar aquelas afirmações de um vidente, de certo secas e despidas de sonho em sua precoce convicção, mas nem por isso menos extravagantes, partindo dos conceitos formulados com maior cautela por um século ulterior.

E escreveu assim o que pensara. (p.858-859) Robert Musil O Homem Sem Qualidades – tradução Lya Luft e Carlos Abbenseth – Editora Nova Fronteira, 1989 – Rio de Janeiro

olhar é pintar

Não usei pincéis, não sei bem do prazer de pintar / colorir ou desenhar / projetar. Sonhar com objetividade / plano. Andei meio ao acaso, desviando. Nunca a projetar / organizar. Lápis coloridos, macios. Um risco de delícia. Gamas e gamas de colorido esparramado. Ah! Amanhã vou comprar frutas e pincéis e me aventurar… Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

mentirinhas…

a vida se agarra nestas mentirinhas que a gente conta. nada gravíssimo, afinal, elas, as mentiras, tem plateia, testemunhas e etc. conto mentiras pra sustentar a vida como ela é, teatro com plateia e ator ué… acredito na fantasia. todas as fantasias coloridas… Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Torres

inclusive acredito quando eu afirmo: sou feliz!

urgente

Urgente deve ser falar / falar / falar: viva a terapia da palavra que se derrama na escrita. O pensamento flui como rio… Claro! Existem as margens, (o plural). A travessia. O movimento dos barcos… O movimento. A leitura é rio e travessia. Paradoxalmente, imobilidade. Leio o conhecido, ou escrevo o mesmo. Pode ser gemido, esganiçado… Urgente sobrevivência. O escrito / o pensado, paralisado… Louco, incoerente. E nem mencionar saudade. Saudade tenho de mim mesma. Do que deveria ser / do que deveria ter sido se a escolha fosse outra. Eu, outra. Então, a vontade de gritar! Atravessar o tempo aos gritos, despida de dúvidas. Incrível esta coisa de estar viva e não estar no avião que se espatifa no ar. Nem sentada a escutar intermináveis promessas escondidas num sorrisinho prazeroso de discursar, discursar pipocando no importante. Abriram as pipocas, o milho está saltitando. Um pouco de sal… Que tédio viver na mentira do discurso, na inoperância da fala… Assim mesmo falar / falar / falar dá um alívio imediato. Mesmo na incoerência inocente. Ufa! Eu disse! Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2025 – Ainda em Torres

o tempo se espreguiça, deve ser preguiça do tempo