esboço ideal

modelo, esboço, linha mestra definem o que se imagina perfeito: pessoa, lugar e caminho. qual deve ser a medida? qual a história? que mundo retalhado este nosso… sem sono, sem saída, sem rumo… sem chegada, a deriva, não sei… estudar estudar estudar estudar, rabiscar, voltar, largar, continuar, refazer, estudar seria mecanizar um saber? ou criar um saber? E. M.B. Mattos

cozinha / fazer

cozinha não existe / o micro ondas, rei do pedaço. os tais odores que antecediam a fome desapareceram… a sala ficou dentro da cozinha ou foi a tal cozinha que se embelezou vestida de sala /desapareceu? que chatice cozinhar, preparar por horas e horas o almoço. chega tudo pronto (não é?) bom cheiro se de bons restaurantes / chega quase fumegando. rapidez nas entregas. outro mundo outra vida. chega de roupas a secar ao sol, quarar ou esticar. chega de ferro de passar ou tanque. tudo isso fora de moda. um bom filme, em casa, telas gigantes, televisão e tecnologia, outra fala, outro som, outro estar em casa. outro planeta: cães passeiam vestidos. passarinhos, sim, ainda voam. nada de jogar conversa fora, toda concentrada em correções e apertos e vídeos. uaiiiiii! eu vi uma margarida e espiei, ali adiante, uma borboleta. e vi / enxerguei frutas não ensacadas naquela árvore… tem um muro de pedras, não de cimento, as vizinhas conversam, dão risadas… o feijão vai queimar. estou delirando, é claro. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres

Fiódor Dostoiéski

russos! viva a literatura do denso, do importante. o que escrever sobre escrever ou falar / ou dizer sem atravessar estas vozes certeira? “Havia qualquer coisa de pesado, de reticente, de rixoso; todos andavam de cara fechada. (p. 211) O idiota / saudade de Paulo Hecker Filho que acendeu meu caminho para leitura fundamental / este livro. Por que eu cito? Idiota ilusão a minha. O IDIOTA pode ser fundamental. Se o carnaval fosse divagação! …ah! o que vou escrever? deveria ser sempre samba / e sacolejos e terra de sol e lavar a alma no mar quente da vida. deveria ser samba! e eu estaria, se tanto sou eu, mergulhada nos solfejos e ao som de um piano de canto, sentada a meia luz… tentando escrever versos não sendo poeta. não sendo carioca, não sendo esta ou aquela, apenas eu toda feliz por ser liberdade e paz rodeada de musica. não. a vida não está nunca foi arrumadinha ou certinha, mas nunca o exigido se vestiu de arlequim de pompa ou não, de seriedade. vou olhando, olhando, sentindo, sentindo, encolhendo, desentendendo o que um dia soube… escrever o nome com letra bonita tá difícil! Tá difícil! TÁ DIFÍCIL viver! Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres

quando chegam as rosas

quando toda a loucura transbordou e a fanfarronice esperneia brota uma rosa, não, meu amigo, não é um roseiral… nada disso. é o abuso da safadeza fantasiada… esta coisa de vestir roupas listadas, com bolinhas, com cheiro parisiense… não, estou no meio da fazenda verde, e construímos um galinheiro festivo: ou seja, as galinhas estão gordas, faceiras e o lugar de ciscar e magnífico. como tem árvores / particularidade, as rolas chegaram.

eu te conto em detalhes, hoje tem sol, embora seja inverno a luz do dia está aquecida. o carro/caminhoneta nova com as portas todas abertas se prepara para segurar a viagem, fantasiado, ele também, enfrentaremos trilha, aventura e estaremos eufóricos na barraca. brindaremos, ao adormecer: lugar quente, o lugar de amar. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2025 – Torres

bonecos

bonito / topetinho de saltos altos / saia justas já consegue girar o corpo, o outro gordinho, velho, já sem juízo se demora em lugar impróprio, claro, vai e senta e confraterniza com quem entrou no mesmo buraco e já conhece a brincadeira de esconde esconde. Não importa a fantasia, a idade: o mesmo sobre o mesmo. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres / vamos pular a fogueira?

ficção e vida real

sublinho como vida real: grande, profundo cansaço. persegue o tempo, a graça um fazer esvaziado… diz Júlio Ribeiro: “o amor é filho da necessidade tirânica, fatal, que tem todo o organismo de se reproduzir, de pagar a dívida do antepassado, segundo a fórmula bramânica.” e as ponderações…, o impulso da vida se esfarela na solidão. o amor é natureza. e acabo / termino sem entender a semente. aquele cansaço exaustão reduz… e não sei como mudar, pensar ou compartilhar. ficção ou vida real? Elizabeth M.B. Mattos – junho, num inverno sem defeitos: frio – 2025 – Torres

MARIA ANTONIETA / STEFAN ZWEIG tradução de Medeiros e Albuquerque

Mas o trágico também existe quando uma natureza média ou fraca é ligada a formidável destino, a responsabilidade pessoais que o arrastam e aniquilam, e, do ponto de vista humano, esta forma parece -mesmo mais pungente. Pois o homem procura inconscientemente um destino extraordinário, ou a dizer de Nietzsche, uma vida heroica, perigosa / desafia à natureza extra medida, desafia o mundo pela audácia. […] Como a tempestade arrasta nos seus vórtices a gaivota, assim a força do seu destino o leva mais longe e mais alto. O homem mediocre, em compensação, por essência, reclama uma existência pacata; não quer, não tem necessidade do trágico, prefere viver tranquilamente, na sombra, ao abrigo dos ventos, num clima temperado; eis a razão por que se amedronta, resiste, foge, quando mão invisível o impele para o desassossego, para a crise. Não quer responsabilidades históricas, não tem necessidade do trágico, prefere viver tranquilamente, na sombra, ao abrigo dos ventos, num clima temperado, eis a razão por que se amedronta, resiste, foge, quando mão invisível o impele para o desassossego, par a ‘crise’. Não quer responsabilidades mundiais históricas, ao contrário, teme-as, não procura o sofrimento, é-lhe imposto; vê-se constrangido de fora para dentro, não de dentro para fora, a ir além de si mesmo. Este sofrimento do ‘ não herói’, do homem meio-termo, se bem lhe falte senso evidente, não me parece menor que o patético sofrimento do verdadeiro herói, e talvez ainda seja mais comovente pois o ente ordinário deve suportá-lo sozinho e não tem como o artista, o meio venturoso de transformar seu tormento em obras de forma duradoura.’ Stefan Zweig se refere a MARIA ANTONIETA

32 anos ou 35 anos

sou péssima para contas / para datas / pedi ajuda para IA (risos) – mas fiquei independente (sem meu pai pagando contas) aos trinta anos / ou mais um pouco em 1985 quando minha caçula nasceu / ele ainda teve despesas grandes comigo / ou seja, sempre. feliz dos filos independentes / e guerreiros. raríssimos. padrão normal é ter ajuda / herança e etecetera e tal. / esta é / parece ser / a vida como ela é. heróis de guerras. existem. a vida como ela é começa aos trinta anos? Balzac eternizou a mulher de 30 anos / as vitoriosas passaram a ter 40 anos e as gloriosos com encargos e amores aos 50 anos / aos 60 anos pensamos ser o ápice – talvez. casamentos ajudam / separações definem / viver é o pleno. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres frio e com chuva. independência raríssimo… encargos se sobrepõem.

túnel e perfume

divagação

a herança / a fortuna que salva da mediocridade pode ser autonomia: autonomia para pensar / para refletir /ou escolher ser pessoa.

dinheiro e purpurina enfeitam, mas, não livram da mediocridade e do vazio /

chafurdar no dinheiro pode ajudar a afundar na mediocre. o tal vazio da caixa dourada /forrada de veludo vermelho

em vida / na vida toda a beleza se movimenta na inquietude ou (risos), talvez, passear pelo mundo não preencha a tal alma. oco sentimento sem entendimento: escrever é / pode ser boa transferência.

seletivo / odor

gosto de imaginar os cheiros / os perfumes. estão /estarão enfileirados ou esparralhados passeiam pela sala… sombras e essências – flores – tenho, assim, meu flutuante / exuberante jardim / posso remexer a terra e colher as margaridas. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2025 – Torres tão frio / tão gelado! ou sou eu mesmo eu envelhecendo seca?