só eu fiquei: isso é pouco

continuo a adiar tudo para amanhã e fico a minguar, incerta, no entanto, sigo a ver o futuro como se tudo estivesse por começar, começar. o tempo das risadas floresce… tambores! escuto os tambores!

o último prazo

chego no ponto exato, e não me lembro / invento: coisa de palavra, história repetida, não exatamente, mas o detalhe… a criança lembra, exige, mas agora, agora já posso alterar.

esqueço a longa viagem, o texto das mensagens… eu te esqueço.

ah! coisas de amar! agarro o amor, embalo. Elizabeth M. B. Mattos

às vezes

sim, pode acontecer de você se sentir solitário, triste e tão triste! naquele momento / neste / agora / nada importa: nem o sorriso, nem a lágrima e muito menos explicação

um abraço, mas o abraço vai me aquecer? não sei.

às vezes respirar é tão difícil! Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025

pressa em contar/dizer o fim

7 de abril de 2025 – segunda-feira chuvosa / vento, e finalmente, o frio do outono se aproxima, cinzento o dia. Escuto a chuva batendo nas calçadas e os carros levantam a água nas ruas. A limpeza do ar, e, se renova a Lagoa do Violão: jardins se alimentem…  As macarronadas voltam a fazer sentido. Suculentas e quentes. Deixei de escrever. Os dias puxam um fio distraindo de horas vazias, sem nenhum entusiasmo. A cadeira aceita estar ocupada o dia inteiro, quieta.

9 de abril de 2025 – quarta-feira

Caminhada necessária! Jesus meu Deus! O exercício se arrasta dentro da preguiça. Bom que as ideias se amontoam interessadas… É preciso escrever, claro! Bocejar não. Aquele sono bom e prolongado terminou. Eu me pergunto: em que momento foi que eu dormia amontoada na cadeira, não me assustava com os ruídos, nem reclamava dos excessos nem da escassez. Era tudo bom e na medida. Não tenho priorizado a palavra, o exercício de quatro frases por dia, sete se possível. Começou uma bateção no apartamento de cima. Obra, obra / ou consertos? Primorosa reconstrução. Alugam: depois gastam o dinheiro refazendo o que os inquilinos destruíram. Eu fico neurastênica. Depois aceito. Gritos ou música, risadas ou conversa sussurrada que eu escuto. Ah! Estas paredes de papelão!

10 de abril de 2025 – quinta-feira – Torres com chuva. Forte. Incoerente. Depois da pancada que encheu a calçada fez da rua um lago, uma luz seca com jeito de dia bonito. Penso: vou caminhar, não. Saio do banho, outra pancada, outra ventania. Inquietude não definida. Recorro a memória saudade da Albertina de um tempo de amor, desconfiança, cartas e cartas, telefonemas e temporada de beijos. Tenho agora tanto tempo sobrando, inútil e rastejante! A saudade miúda volta, aquela do amor fervente, desgovernada alegria que me fez andar nas pontas dos pés e dançar.

Sempre recomeçar. Volto ao tempo de fazer televisão, trabalhar, escrever para a Revista Globo. Acreditar que podia, afinal, escrever. Não é fácil. Medrosa, escafedida com o estudo do inglês -, preguiçosa, – fiz tudo do meu jeito. Investi no francês (risos) o que não resultou em grande coisa. Não finalizei. Este ponto de vencer e encerrar e depois investir na etapa seguinte não é para todos, para poucos. Saber de que barro fomos feitos. Quem eu sou? Importa? Para mim mesma deve importar, com os outros a gente divide, parte, pedaços. E o bolo fica recheado. O bolo. Vou engolindo depressa. Cansando da pressa interrompo tudo. Sento quieta na cadeira. Quando será que vou conseguir fazer o sonho verdade, não ter as costas doendo, nem a vontade esgaçada. Fala tão atropelada?! A pensar. Observo. Sei. Sinto. Na verdade, não me atrevo a dizer. Nem educar, nem contornar. Abstenho-me da verdade. A tal coragem de matar o leão, a formiga. Espicaçar a esperança. Reler. Não mais atravessar as estantes a catar autores. Parece tão mastigado. Reeditado. Desenhar, pintar, colorir, usar os lápis, fotografar, ouvir música. Cozinhar. Cozinhar exige alquimia, inteligência, disposição e tempo. Algumas pessoas não desenvolvem o tempo para administrar panelas. Eu compreendo. Exige um prazer primitivo soterrado, esquecido. E tempo. Tempo. Tempo. Estamos todos na corrida de ‘ganhar tempo’ e ganhar dinheiro, ganhar espaço, ganhar beijos e sorrisos, ganhar. Na cozinha a gente perde tempo. Odores, cheiros e movimento desencadeiam um prazer a ser compartilhado… A invenção dos assados, e do tal churrasco com a conversa em volta do braseiro. TEMPO. Estamos reduzidos a comer nos restaurantes espalhados pela cidade. Os aglomerados e apressados restaurantes do quilo / servir-se pesar e comer com os olhos no relógio / liberando a mesa. Alguns sofisticados demoram mais, e não é hora nem para vinho, nem para bebericar, mas comer e voltar… E não gastar muito. Ah! Como eu me canso sem correr, canso de comparar. E aquele prazer de remexer as panelas desapareceu. Agora são chefs / não existem mais as cozinheiras, nem o tempo / a hora de sentar, aguardar, esperar, rir e comer devagar. Este tempo desapareceu. O domingo talvez possa reunir, o sábado, quem sabe. Mas vamos no estranhamento de ter pressa -, pressa pra sestear, pra dormir de tarde. Para inventar o feriado. Desenhar pula esta memória aborrecida. O desenho e as cores saltam mais festivas. A ideia sai andando faceira empurrando os pincéis e não se explica. A gente faz. Escrever tem aquela repetição, a releitura que desfaz, a preguiça do correto, o bom, da leitura. Do reescrever. Saudade tenho de procurar, desejar ainda, percorrer escadas às pressas, caminhar para chegar lá, e olhar. O mar… Este mar a ir e vir, tão natural! Despeja águas na areia. E eu tão urbana, quero olhar vitrines, esbarrar nas pessoas, voltar ao teatro, ao concerto. Vestir o esvoaçado da vida em movimento. As cidades se movimentam em baixo do azul e da chuva e da noite e do amanhecer. A cidade. Gosto da cidade. Do ônibus, do bonde (que já andei tantas vezes, trilhos certos), dos carros no engarfado trânsito. No sem pressa, agitado tempo de coisas obvias. Sem concorrer, mas ser no sonho sonhado. Crescer devagar. Fazer sem certeza.

Diletante. Distraída eu estou. Queria voltar a ladainha de casar, de ter noivo. Por que eu me casei tão rápido. Os noivados devem ser demorados. Os casamentos, o suficiente, sem bengalas. Mas é tão bom ser dois! Então vamos. Às vezes ficamos / somos logo, três ou quatro. Ou disputamos a sala, a conversa, os amores amados. Nem sempre estamos nos trilhos. Esta coisa de conviver. Viver com tem magias e feitiços. Comunidades. Tendas, acampamentos, aventura. A vida é uma conversa com tempestade: sol chuva ventania, desanimo e festa. Tudo junto.

A pensar meus casamentos. Os dois. Sou do tempo do divórcio. Da separação. De estar junto sem lágrima. Ou de ser independente sem ser. Enrascada pressa. Véu e grinalda. Missa, sonhos rezados. Apressada juventude: decidir. Por quê? Como? Foi assim? Hoje é tão diferente! Tudo espaçado. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

fotografia ou palavra

não sei escolher / começo pelo aperto que sinto. a gente sente apertos. lágrimas. abençoadas lágrimas escorrem, mas não explicam. abençoadas! tão bom chorar! magnifica dor! Ela se esparra com lágrimas! o silêncio abençoa, é claro, mas o agito das flores, da música e das cores também ecoam. música, batendo, gritando, atordoando meus ouvidos. música no/ao volume alucinado do atordoamento. conversa / grita tudo sobre todos… quero ver a menina bonita, quero estar no centro, quero poder… quero que os olhares e as vozes estejam dentro de mim, um alívio! o circo dos horrores na maravilha alienada do nada. afinal, viver significa começo ou fim. quando vou conseguir plantar as margaridas, regar, acalmar o coração e entender que o quintal pode ser o universo completo, perfeito. não preciso entrar num supersônico para conhecer as geleiras e o deserto, nem escutar os olhares pela altura da música, está no calor do pequeno abraço. na ternura. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

Luiza S / amiga

tropeços / alegrias risonhas, encontros surpreendentes. gostosuras. hospede! – foi inesquecível ficar na tua casa! também festas sofisticadas. também teu aniversário, em Torres. filhos se cruzaram, filhas aniversariam no mesmo dia / incrível! é preciso tecer / festejar estas coisas. nunca mais vinho, nunca mais um almoço nem ar livre. tu, sempre (verdade verdadeira) com presentes, surpresas, e coca-cola!. sofisticação, seres linda! bem educada e dona. como pode ser difícil assim pensar / descrever o gostar de uma amiga. e já se vão amigos: colar de perdas, e arrependimentos. eu? eu? desloquei as energias. agora parece tarde demais, meio sem sentido pegar o bonde, não existe mais. quanta coisa queria te dizer / quanto pedir! não faz sentido. o tempo se costura ao estranho. e eu? agora atravesso saudade aguda de tudo que não foi e poderia ter sido. ah! queria eu ter amado! caminhos obstruídos

Diz / escreve meu amigo. Ontem um dia de ação, só ponteiros! As varetas / as lógicas, esparramadas. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

cartas a passos miúdos

ainda transito na correspondência… fico com vontade de rabiscar um bilhete, escrever uma carta, desenhar com a caneta tinteiro sentindo o cheiro da tinta / tão absolutamente fora do contexto / não é morar na lua, mas ainda muito, espiar a lua… desejar e acompanhar a luminosidade. não sei o que devo fazer deste meu deslocamento. ainda adoro espiar correspondências e ver o tempo através destas “conversas” epistolares. Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

coisas de AMIEL

“Assim, embora a minha vida secreta tenha tido os meus tormentos, não atravessei os piores suplícios, os do amor desconhecido, do amor traído, da paixão tornada loucura, nem a separação de uma pessoa ou de um filho amados. Relativamente fui privilegiado. As provações da miséria, da humilhação prolongada, das cruéis enfermidades físicas passaram longe de mim. Tenho muitas graças a render a Deus pelo meu destino, que antes foi contemplativo do que ativo, mas que recolheu mais bens do que males sofreu.

Conclusão: levemos os fardos uns dos outros e, por conseguinte, pensemos menos na defensiva pessoal do que na na caridade. Se podemos ser úteis a alguém, sejamos – embora sem muita esperança nem encanto. Semear sem contar os grãos.” (p.365) Amiel – Diário Íntimo

…li, reli, transcrevi. trabalho as palavras dentro do meu coração… pois é, não sei… tenho graças a render, mas como gostaria de conseguir expor, contar os apertos e as dores, e as mágoas -, tentei ser contemplativa, mas a vida veio com ondas enormes que derrubam. era para ser mar tranquilo, de repente, aquela onda enorme que nos leva pro fundo… estranho viver. na confissão… pois é, gosto de estar viva, será isso? Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

fazer / doméstica solução

Lavar / quer dizer, esfregar pra sair mesmo a mancha do café. Passar. Limpar aqui, ali. Perfumar. Angustia mastigada pelo vento. Renúncia inconsolada: não entra no acordo da circunstância, não tem paz. Suponho que o sentimento se mistura ao cacarejante da voz na escada. Sobe o som: o assunto não me diz respeito. Viagem do vento… Nem vou explicar o porquê. Anoitece na minha alma. Tudo é turvo e confuso. Resultado perdido… Perco a consciência de poder. O poder é mesmo uma risada desgarrada: aos mãos perdidas, não acerto o abraço. Construir nova família / não pode esquecer da que já existe. As rupturas me apertam… Como vou explicar o sentimento? Os netos, os sobrinhos são prolongamento. Amar! O escudo da vida, sim, o meu amor por eles me coloca na frente da batalha… Elizabeth M. B. Mattos – abril de 2025 – Torres

Que venham os girassóis!

cansada e medrosa

pessoa cansada / mulher medrosa / homem assustado

o cansaço / o medo / o susto

adjetivo ou substantivo

classe gramatical = gente ou enchente

sei lá! esgrimar deve ser difícil

educar

venham!

maestros e regentes!

é urgente. Elizabeth M. B. Mattos / abril 2025 / Torres

PASCAL QUIGNARD

Oh! mes enfants, je ne compose pas! Je n’ai jamais rien écrit. Ce sont des offrandes d’eau, des lentilles d’eau, de l’armoise, des petites chenilles vivantes que j’invente parfois en me souvenant d’ un nom et des plasiers.

Mais où est la musique dans vos lentilles et vos chenilles?

Quand je tire mon archet, c’est un petit morceau de mon coeur vivant que je déchire. Ce que je fais, c’est que la discipline d’une vie où aucun jour n’ est férié. j’accomplis mon destin. (p.86) Pascal Quignard Tous les matins du monde