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Correspondência FORA DO TEMPO
Caro amigo:
Passaram-se vinte e nove anos! Outra mudança, desta vez radical quanto a espaço. Os livros aqui, amontoados. Devo abrir um por um: recolher fotos, cartões, talões de cheque e até cartas… Um dia, dois, e no terceiro, encho um carrinho de supermercado, chamo os sebos interessados, e fecho os olhos. Esqueço. Há tanto para ler!Tão pouco tempo! Luxo inviável.Voltei para a cidade: o apartamento? Uma grande sala iluminada, duas janelas rasgadas até o chão abrem as venezianas para uma sacada de um metro e tanto de largura. O balcão de ferro abaulado, uma grade pintada de branco. Coloquei vasos: carreiro de violetas, jasmins, orquídeas, alfazema, uma muda de pitangueira, e um arbusto de primaveras: bom espaço, ensolarado. Pelas venezianas, o jogo de luz. Trouxe os discos de vinil, a pequena vitrola, e muitos caixotes de livros. A estante, eu mesma pintei de vermelho queimado. Gostei de escovar, ordenar… Naquela mesa de centro, de duas gavetas, coloquei a pasta de papelão das gravuras, arrumei os livros de arte, dicionário, em cima dois vasos de cristal. O quarto não é grande. Banheiro com banheira, espelho sob uma janela de trinta centímetros de largura, lá no alto da parede do sol. O piso com branco e preto. Cozinha apertada.
Passaram-se 29 anos!
Hoje encontrei e reli tuas cartas. Uma delas colada, como se nunca tivesse sido aberta: quatro páginas de letra esparramada. Contas da morte da tua mãe, do testamento, do retrato que encontraste. Naquela tarde, fiquei contigo em pensamento. Estou de férias lá da loja.Olheiras, por noites em claro. Durmo pouco, os carros buzinam, as pessoas gritam, e há gatos na vizinhança.Na calçada, lá em baixo, as mesas do café–restaurante, também uma casa de sucos logo na esquina. Apenas a floricultura fecha as portas cedo. Os jacarandás enfeitam meu horizonte. Sinto-me como se estivesse bem no meio da calçada. Instalei a poltrona de orelhas ao lado da janela; lembras dela? Mandei estofar de amarelo escuro, comprei uma banqueta para apoiar os pés. Ias gostar.
Vinte e nove anos se passaram dos passeios, do café preto, do cigarro mentolado, das frutas secas, e dos pastéis da esquina. Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Porto Alegre
GASTON BACHELARD
A POÉTICA DO ESPAÇO
“O crítico literário é um leitor necessariamente severo. Apresentando às avessas um complexo que o uso excessivo depreciou a ponto de entrar para o vocabulário dos homens de Estado, poder-se-ia dizer que o crítico literário, que o professor de Retórica, sempre sabendo, sempre julgando, fazem muito bem um complexo de inferioridade. Quanto a nós, afeitos a leitura feliz, não lemos, não relemos senão o que nos agrada, com um pequeno orgulho de leitura mesclado de muito entusiasmo.Enquanto que o orgulho se revela habitualmente num sentimento maciço que pesa sobre todo o psiquismo, a pontinha de orgulho que nasce da adesão a uma imagem feliz permanece discreta, secreta. Está em nós, simples leitores, para nós, e só para nós. Ninguém sabe que lendo revivemos nossas tentações de ser poeta. Todo leitor, um pouco apaixonado pela leitura, alimenta e recalca, pela leitura, um desejo de ser escritor. Quando a página lida é bela demais, a modéstia recalca esse desejo. Mas o desejo renasce. De qualquer maneira, todo leitor que relê uma obra que ama sabe que as páginas amadas lhe dizem respeito.”
(p.11) Poética do Espaço. Tradução de Antônio da Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal/ Livraria Eldorado Tijuca Ltda,Rio de Janeiro)
serenidade sem tédio
Felicidade, serenidade sem tédio. Mansidão amanhã. Brilho no repouso. E segurança em semelhanças. Sigo o rebanho. Engraçado! Quero um alguém para alguém… Repito o gesto. Não posso recolher palavras ditas, gestos feitos, nem virar as costas. Está tudo colado na minha pele. Exaustão! É preciso dormir. Depois, encontrar esta serenidade sem tédio… E.M.B. Mattos – Porto Alegre – 2012
Como feitiço
Dormiu cedo. Estava mesmo exausto. Fiz o despertar lento, com piano, abrindo as janelas devagar, beijando um pouco, cobrindo outro pouco… Passei o café como ele gosta, esquentei o pão… E o amanhecer já preguiçoso estava lá bem em frente olhando pra ele… Como ele gosta! No rosto um prazer miúdo, inominável misturado com amor! Coisa boa! E nos demos conta que estávamos atrasados para a Olimpíada da Matemática… Oito e quinze, não quinze para as oito horas. Saiu, às pressas, lindo, cheiroso, com a garrafa de água, e os lápis, a caneta e a borracha num saquinho. Claro! Esquecemos o estojo na casa da mãe! Nós dois! Nós dois ficamos neste jeito bom de mimar um ao outro! Quando separei os lápis, escolhendo… Ele foi logo selecionando os mais simples (sabe que é da minha coleção! Adoro lápis, e tenho o pote cheio…, não tão cheio como gostaria de ter) Este jeito de escolher os menos importantes me sensibilizou. E agradecer o café com leite que estava bem do jeito que ele gostava! E sair doce! Feliz apesar do atraso! Atraso meu, não dele! Tantas vezes me disse o horário, tantas vezes esqueci o horário! Deus! Um sentimento de amor tão agudo, tão forte! Para acordar, antes de chamar eu escolho o som de um piano, e num crescente para o alto. O som vai se apossando de tudo, pode ser Noturno de Chopin, Mozart. Estes dias, ele veio chegando sonolento, e me argumentou meio sorriso: com este som já vou dormir… E sorriu intrigado. E me olhou. É o jeito de dizer: Não gosto muito! Já hoje de manhã fui logo diminuir o som do vinil, ele abriu o sorriso: Deixa assim! Gosto deste jeito de entender, de ir levando para dentro a doçura dos sentimentos, como feitiço. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2012 – Torres

NENHUM OLHAR
“Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como e fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como o céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu. Um açude sem peixe, sem fundo, este céu. Nuvens, veios tênues . e o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso como um homem cansado, ar.
PENSO: talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez uma claridade, talvez os homens não sejam feitos de escuridão, talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens e talvez os homens sejam as certezas que possuem’”
José Luís Peixoto / Nenhum olhar
“Então, todas as coisas fazem sentido. Repetimos os mesmos gestos todos os dias e, sussurramos as mesmas palavras, e as dores apertam, e as pernas respondem, e sorrimos, porque afinal, afinal não passa de dor, de dor aguda de sentir, mas apenas dor. E podemos seguir.
Não existe uma única palavra que a liberte da mágoa, do vazio, e da decepção. Ficamos boquiabertos, sofrendo, gemendo, chorando… Chora-se tanto que depois de um dia ou dois, ou três as lágrimas se esparramam pelas dobras do corpo, estamos nus. Despidos de qualquer censura, ou vaidade choramos, como se deste sal, desta água e da vida lavada se apagasse a dor… Apagar, mas não esquecer. Não esquecer porque o perfume do amor, o toque perdido ainda está no meu corpo. Melhor chorar sem raiva. Chorar manso até sair tudo que deve sair. Tudo aquilo que um dia foi ilusão de querer bem. Jogo-me no pasto com as roupas rotas; agarro-me aos cães, e adormeço cansada de sono grande.”
Ainda José Luíz Peixoto – Nenhum Olhar
AS BALEIAS
As baleias estiveram em Torres: dezoito ou vinte. Esguichavam, nadavam com seus filhotes. Vieram para as águas mornas e mansas deste mar. Entre os lobos marinhos, as rochas. As baleias estão em Torres.
Passo o tempo arrumando. Preparo amor. Penduro quadros, encero os móveis, lustro as pratas. Espaços no armário. Roupas passadas, empilhadas. Luzes certas para a meia-luz. Os discos com o piano de Mozart,de Brahms. Ou Brel, ainda Violeta Parra. Não vejo os dias passarem. Espero o amor.
Os marceneiros, as prateleiras, eletricistas, luminárias: preparo a casa para que chegues amanhã, ou setembro? Nunca sei ao certo. O correio. Estou alegre.
Outro telegrama: /Só quando rapaz é melhor amar sem paz; mas já, mais tarde, como agora, quero tranqüilo comer amora pra que todos vejam Gaal me namora, menamora. /Leio, releio. São versos. Olho para minhas mãos, vou tocá-lo. Releio o que escrevo: eu me descrevo. Arranco a beleza do corpo, e sabes por que faço isso? Para concentrar em ti o poder estético do meu mundo. Não quero ser bonita, apenas quero estar dentro da imagem que faço de ti… Nos meus movimentos, tua presença. Minhas mãos existem não para ser belas, mas pra tocar teu corpo. Escrevo. Escrevo enquanto te espero. Antecipo ansiosa. A saudade marca o corpo.
Encero, limpo, lustro, espero. Compro violetas, plantas verdes. O verdes na luz de frestas das janelas entreabertas. A chuva faz o verde chorar. Venta nesta primavera. Os telegramas e os versos chegam: / Quando a quem ama só resta telegrama, até mesmo o beijo escreve-se com o desejo de que o papel tenha gosto de mel; saudade aperta, mas abraço não deserta mesmo que no dia 12 não esteja aí, estarei ao teu lado, contigo, todos os momentos./ Leio. Releio. Riso aberto. Bom é te esperar.Para que perdure andar do amor de abraços beijos toques alma, terminantemente proibido refrigerantes, comida salgada, álcool em suas várias modalidades; além todas manualidades exclusivas vida íntima./ Pretendo inspeção ocular após dia 25. Beijos, Saudade./Descomunal saudade Gaal, mas não quero apurar viagem; pois necessito tentar vender imóveis agora pra não voltar rápido permanecendo eu lado todo o tempo. Mil beijos./ O tempo de espera o meu tempo de amor. Mais um detalhe, mais outro e o riso perpassa tudo. O desejo aquece. As palavras escrevem o tempo. Telegramas caminham rápidos, e misturam emoções. As palavras crescem no meu caderno de notas: para cada nova palavra nova leitura encadeada, associações de prazer. Linguagem desdobrada, leitura misturada às tantas outras leituras! Tecer, tecer amor, e amar a nova forma de amor: palavras./ A paga incêndios, contém emoções, evita suicídios, homicídios, afogamentos. Enfim, explica aí. Quem interessar possa que não se aflijam além limites porque poucos dias mais estarei chegando. Beijos. Saudades./ Difícil resolver alguns detalhes aqui. Talvez não esteja aí data pensada. Tento cumprir pé da letra, sugestão entregar tudo, mas, burocracia demora obrigando adiar. Beijos, abraços. Quero envolver Gaal. Estejas tranqüila. Estou sozinho.Retido. Retido. Faço mil planos contigo para julho, também, depois tentando sonhar preciso Gaal pra vencer letargia tomou conta de mim; estarei aí máximo primeira semana de julho esperando até lá te cuides: corpo e alma, cabeça já que coração é ingovernável mesmo. Mil beijos, milhões de abraços./ Adiamentos viagem aumentam saudades. Vontade sentir-te estar contigo; demora não é desamor ao contrário. Tardo por querer ganhar tempo extraviado anos não te conheci. Beijos./ Fico olhando para o nada. Releio, vejo, repasso. A palavra vai crescendo, criando outra nova palavra, movimentando: interno, remexendo depois numa outra via, outra guia… Nova história. Leio entre todos os outros todos os novos, o último conto… O novo tempo. A palavra vai criando, crescendo, movimentando, depois salta. Estanca. Para, fica quieta e significa a via, a veia sangra, via faz o novo, o outro, homem, mulher, a história. Lentamente sigo o rumo, a nova estrada. Não é mais a minha história…Letárgica no espanto do vazio desta ausência. São as chuvas desta primavera. São os ventos. E o mar sem as baleias. Esguichavam, nadavam com filhotes. Elizabeth M. B. Mattos – setembro – 2012
Correspondência
Açambarcar, engolir, ver cor nas palavras é o processo. Absorvo algazarra. Acompanho correrias e brincadeiras, joelhos esfolados, seguro bolas que rolam nas calçadas, empurro carrinho de boneca, bocejo. Os mesmos comandos mecânicos. Domésticos. Roberto Carlos, depois Beethoven, concerto para piano. Li o livro que mandaste pelo correio. Passei lençóis, experimentei a nova receita de bolo de laranja. Dormi um pedaço da tarde. Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Torres
(…) “encontraste felicidade nas coisas simples: marido, casa, arvoredo, gado, e para alimentar a tua fantasia, as nuvens que, nos dias ensolarados, povoam o campo com um rebanho de sombras.Reencontraste o sabor do pão feito em casa, tu que por tanto tempo te nutriste com o pó do asfalto da grande cidade. Eu te compreendo, mas não deixo de pensar na tua formação esmerada, nos teus companheiros, clássicos e modernos, da língua francesa. Tu os abandonaste? Também gosto da vida da campanha — bem a conheço –, vida arrastada, modorrenta, feita de dias longos, demorados. Em Porto Alegre também há muito remanso, muito sossego. Mas eu não me deixo adormecer na modorra.É preciso estar atilado, se não, a gente vira coisa, morre por dentro.Tenho saudade das rosetas, dos mata-cavalos, das marias-moles, das guanxumas e dos carrapichos que jogava, por judiação na corujinha da minha irmã preta. Hoje tudo isso é lembrança. Eu também sinto falta dos amigos do Rio, não da cidade. Tenho trabalhado muito, de sol a sol.”
Diferentes cenários, idênticos e domésticos sentimentos. Nostalgia ao ler a carta de Iberê. Beth Mattos – Torres – 2012
A soma
As fotos, os textos, a soma. Escrever ou fotografar: os pincéis, as canetas, as tintas e o lápis, o foco. Elizabeth M. B. Mattos

