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Os pedaços que ficam…
“O Juiz passou os olhos pela sala em que Henry lhe dissera o que havia a dizer; viu a lista dos seus títulos, ainda sobre a mesa, a cadeira posta de lado como Henry a deixara ao levantar-se, e as coisas permanentes e inanimadas – o relógio dourado, os pequenos bronzes que o ladeavam, a sua cadeira de braços, o livro que estava a ler quando Henry chegara – e tudo lhe parecia pertencer agora a um antigo período acadiano de sua existência, separado dele pela torrente de desastres subitamente desencadeada. Quando se recebe uma notícia má, as coisas inanimadas, que ela em nada modificou, parecem reter em si o espectro da felicidade perdida do observador; este toca no relógio, quase esperando uma resposta milagrosa; retoma o livro abandonado, lembrando-se; foi este o parágrafo que eu deixei em meio quando ocorreu o desastre; e as coisas nenhuma resposta lhe dão. ” (p.96) A História do Juiz – Charles Morgan
Ainda Amós OZ
“Pois é, a gente tem de viver de alguma coisa, não é mesmo?” Porém seu coração não estava no comércio, mas sim nas suas paixões secretas e inocentes, que, tal como um ginasiano de setenta anos, abrigava no fundo do coração – nostalgias e sonhos vagos. Se lhe fosse dado viver sua vida novamente, conforme suas preferências e autênticas inclinações, por certo teria escolhido amar as mulheres, ser amado por elas, compreender seu coração, gozar de sua companhia nas férias de verão em meio à natureza, navegar em barquinhos por lagos azuis aos pés das montanhas nevadas, compor poemas apaixonados, ser um homem lindíssimo, delicado, de cabelos cacheados, mas de porte masculino, ser amado pelas multidões,ser Tchernichowski, ou Byron. Ou melhor ainda, ser Zeef Jabotinsky: o poeta inspirador e o líder carismático combinados em uma única maravilhosa pessoa.
Toda a sua vida ansiou por mundos de amor e generosidade de sentimentos. Ao que parece, nunca percebeu a diferença entre amor e admiração: tinha uma sede imensa de ambas as coisas. ” (p.136)
AMÓS OZ De Amor e Trevas. Editora Companhia das Letras
O BULE ESTÁ NA VITRINE
Tens razão neste ir e vir e permanecer no mesmo lugar… Detalhes de um grande vazio. Na verdade um ponto, um texto. E todos juntos. Variantes. Uma tela preta, um ponto branco, pode ser nada, ou o começo. Um bule de chá vermelho pintado. Ou descrito. O começo.
Parece ruim este olhar demorado, mas não é… O objeto e suas diferentes faces! A leitura tem releitura. Voltas… Como ir ao baile de fantasia todos os anos com a mesma fantasia: o livro. Ou ir sempre ao mesmo baile… Que bom teres escrito! Leio tua carta no prazer, e posso te ver aí sentado na varanda a escrever.
Hoje vi o filme francês Entre os Muros da Escola: impressionante. Voltei estupefata! A imigração, a integração na vida do outro é uma adaptação cruel. Violenta e cruel. E todas as adaptações se assemelham… Como a banal relação de homem e mulher: nem sempre a mesma linguagem. Entender o outro é adaptar-se… Novas referências. Barreiras, às vezes, intransponíveis como mostra o filme. Ou soluções e leveza ao final.
Não somos diferentes, meu querido, etiquetamos a vida, as pessoas, as coisas. Tens razão, estou a me colocar na liquidação. Os outros são o bom resultado. Enquanto alguns se movimentam entre passeios e restaurantes, sigo entre o quarto e o quarto. Contabilizo… E sem dinheiro parece que não saímos do lugar. Vive-se a supervalorização da moeda como medida de vida possível.
Se morássemos numa ilha: pescaríamos, entraríamos no mar, dormiríamos na rede… Acender o farol. Acordaríamos com o sol… Parece igual, mas não é. Outras pessoas atravessam ruas, enfrentam o trânsito, comem às pressas, olham e conversam com as mesmas pessoas, equacionam, resolvem. Nós pescamos o peixe. Para eles não basta o peixe, querem o peixe limpo, cozido…
Existe a grande história, o grande romance, o sucesso ou o fracasso na ponta da vida… Antes, adaptação. E sabemos que não tem pote de ouro pra pegar no fim da rua, não na nossa rua…Todos os dias , dia vencido. Importa o que escreveste: “No fim somos nós mesmos…”
Ainda não sei a diferença entre comprar o bule vermelho porque é belo (beleza, aliás, q só eu percebo), e comprá-lo como utilitário, para fazer a infusão.
O bule está na vitrine. Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Porto Alegre
Outra casa,
Louco Amor
“ Resta insinuar-nos, sem grandes pressas, entre os dois impossíveis tribunais que se enfrentam entre si: o dos homens que eu, por exemplo, fui, quando amei, e o das mulheres, que me surgem, todas elas, vestidas de claro. Assim o mesmo rio redemoinnha, deixa marcadas as garras, desvenda-se e passa, preso do encanto das doces pedras, das sombras e das ervas. A água, enlouquecida com seus redemoinhos, com uma autêntica cabeleira de fogo. Para fluir, como a água, em pura cintilação, seria necessário perder a noção do tempo. Mas que defesa existe contra ele? Quem nos ensinará a decantar os prazeres do recordar?” (p.9 André Breton/ O Louco amor)
flores brancas para Laila
Chove sol, chove calor. Já deves ter chegado a Porto Alegre. Embora se tenha passado um par de dias juntas, pouco foi dito. As raivas de ontem se desmancham nos beijos recheados de olhares mansos. Há saudade na tua presença fugidia. Momento de alívio quando adormeces vestida; posso afrouxar tua roupa, fechar as cortinas, colocar outro travesseiro para melhor apoiar teu corpo pequeno. Silêncio conciliador neste curto espaço de tempo… Entregue, suspiro no alívio, como se toda tensão pudesse desaparecer. Transformar erros em acertos. Poderiam as queixas se volatizar? A beleza do corpo adormecido transforma o quarto. As cortinas estufam ao vento. E a floração do jasmim perfuma a sala.
O vestido que cobre teu corpo está colado na tua pele suada. A perturbação desta contemplação tira o ar, e sinto um enjoo doce e quente desta floração tão próxima da janela. Mastigo as pequenas flores brancas… Minhas narinas abrem e fecham, tenho as mãos molhadas. Adormeço sentada. E a tarde vai esfriando o dia. A chuva fica mais forte. Venta. O verão surpreende.
Durante o tempo em que estivemos juntas imaginei cada palavra que poderia dizer, pensei o discurso, imaginei o pretexto para dizer o que me afligia. Separei qualidades e defeitos. Mas confundi amor com responsabilidade. Felicidade com abnegação. Elaborei, mentalmente, o que escreveria reconsiderando a dificuldade das longas, retardatárias, ou invasivas cartas. Repassei leituras adequadas, procurei autores que auxiliassem apoiando minha advertência, mas não consegui escrever. Nem dizer. Não consigo. Sempre adormeço ao teu lado… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2012
Memória redonda
Memória redonda
Outra vez a casa da fazenda. Campo vazio, tijolos. Moirões. Cercas, invernadas. Açudes. Ovelhas. Gansos. Sombra. Cinamomos. Férias. Santa Catarina, no Continente. Lembras do tempo sem luz em Rio Pardo? Banho frio. Memória. Galpão com terra batida. Velas. Verões de grande seca! O arvoredo! Baldes d’água no trator. Portões fechados, sem telefone. Ausências. Cartas. Envelopes. A sofisticação do silêncio. Cartas desviadas, azuis e quentes.
E o Rio de Janeiro! Pintores e galerias. Laila, Suzy, Roberto, Olívia, Aldinha, Ronaldo. Ônibus, lua, e Cristo Redentor da janela da Viúva Lacerda. São Paulo, ponte aérea. Hípica. França e Limoges. Paris. Bretagne e Torres. Um livro.
AS BRASAS
(…) “Era da raça de Chopin, ou seja, era uma criatura cheia de reserva e de orgulho. Mas no fundo da alma ocultava um impulso espasmódico: o desejo de ser diferente do que era. É o tormento mais cruel que o destino pode reservar ao homem. Ser diferente do que somos, de tudo o que somos, é o desejo mais nefasto que pode queimar num coração humano. Pois a única maneira de suportar a vida é se conformar em ser o que somos aos nossos olhos e aos do mundo. Devemos nos contentar em sermos feitos de uma certa maneira e em sabermos que, uma vez aceita essa realidade, a vida não nos louvará por nossa sabedoria, ninguém nos conferira uma medalha de honra ao mérito só porque nos conformamos em ser vaidosos e egoístas, ou calvos e barrigudos – não (…) Devemos nos suportar tais como somos, esse é o único segredo. Suportar nossa caráter, nossa natureza profunda, com todos os seus defeitos, seu egoísmo e sua cupidez (…) Devemos aceitar que nossos sentimentos não são correspondidos, que as pessoas que amamos não retribuem o nosso amor, ou pelo menos não como gostaríamos. (…) eis algo que apreendi no decorrer de setenta e cinco anos aqui no bosque.” (.p106)
Sandor Marái, As Brasas
Confissões para Cinquenta Anos esta Noite
Terminei a leitura com prazer, esclarecida. Os fatos históricos relevantes estavam perdidos! Memória afetiva a minha.
Fui lendo Cinquenta Anos Desta Noite para te reconhecer, para me encontrar. Que pecado! Narcisa, circular, um pouco tola, e no espelho! Achei graça na história os Menna Barreto. Eu a tenho noutro formato, o Robertiano… A frase que cita Anita e Roberto se alonga numa centena de páginas porque tudo que o Rubens podia ser, ou pensar estendi ao meu pai calado, minha mãe belicosa, ativa! Como se eles fossem prolongamento mesmo escondidos na grande biblioteca da Vitor Hugo.
Eduardo, Dado: o casamento prematuro me afastou do mundo, o rompimento com Luis Afonso Antunes foi terrível, embora muitos anos mais tarde Flávio Tavares me devolvesse o sentido de amar. O percurso. Estranho, maravilhoso (pelo menos para nós leitores familiares, e incluídos) a forma sutil, e assim intensa com que atiças alguns fatos. Claro que envolves tua mãe com um manto quente, teu pai menos. Herói, modelo, cidadão? Controverso. E não escondes o principal. O leitor ligeiro nem perceberá algumas dores, o teu orgulho! Esgotas emotividade mesmo na timidez. E levantas a história do Rio Grande do Sul: a cada nome citado lemos páginas e páginas de nós mesmos. Ativas a memória, resgatas o tempo sem pesar. Nós leitores alongamos, e aguardamos os desdobramentos que estão para chegar ao segundo volume.
Estou em Torres, como quase sempre estou.
Ah! Esqueceste de mencionar a casa de Ipanema onde o Saci e eu brincávamos no pátio como locutores… Será que ele lembra? O meu querido Francisco! Estes dias encontrei uma foto da Lígia entre amigas, bem em frente da casa! E também um cartão que mandaste da Boca do Acre… Estas coisas que nos pegam ao sair das caixas e guardados como pedaços vivos do passado… Um beijo. Aguardo notícias. Anexos escritos conforme te prometi. ElizaBETH a prima.
Depois do almoço: sol tímido, a ansiedade de sempre. Tenho que fechar as malas e voltar para Porto Alegre.

