…pois é: os livros se atravessam… a música consome pensamento. leitura afunda os sentimentos, todos. um registro rápido, ler histórias envolve, transporta… contar histórias ou estórias é muito, muito difícil! escritores pintam almas: mas a tal alma tem cor / existe / posso descrever? estou confusa. oitenta anos explode / agita o tempo, ou serão os cinquenta? os aqueles misteriosos quarenta anos? todas as teclas se movimentam… vozes soam misteriosas. é preciso / il faut /aproveitar todos os detalhes. hoje comprei pão para muitos meses, sou exagerada. venta, venta, venta muito por aqui. a primavera colorida… ando preguiçosa e sonolenta. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres
imprópria escandalosa degenerada esguia inescrupulosa e promissora
se todos estes adjetivos cercarem o texto e se derramarem em seus substantivos magrelas há de ficar um texto instigante, rondando o verdadeiro / em se tratando de homem versus mulher ou vice versa uma fatia de verdade escandalizaria o estável, correto e feliz: uma verdade aflita / correta / limpa / inodora… completa. sem arestas… uma nudez necessária explícita… hoje as coisas ficaram tão imediatas, pontuais, mesmo no instante mesmo que a palavra voa para se materializar já vai contorcida, medrosa ou audaciosa, escrupulosa ou já pronta para escandalizar… quero ser eu, apenas eu… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2024 – T099ES –






estregue
debutantes festas discos e velhas revistas… um punhado de passado (ufa! da festa ainda não encontrei… viagem no tempo)
se a irmã passa uma semana, se a sobrinha me encanta com passeios e voltas e delícias de uma memória de criança que cresceu nos veraneios de Torres… nossa SAPT, nossas barracas, no Farol Hotel, as casas que ainda estão cuidadas, prontas, e as ruas intactas…
então eu me surpreendo com o céu da Guarita, a majestade do Parque e novas e enormes casas protegidas no condomínio transformam as caçadas de correrias em parques /jardins / cuidados com vigias e flores… a Torres sofisticada de um mundo murado protegido.
se tudo invade meu mundo quieto e amoroso entre tardes e tardes com o neto, projetos, conversas e sonhos, rindo com a IA que se manifesta certeira… e exercícios primeiros que fortificam meus braços, minhas pernas e me fazem ativa e disposto.

volto ao tempo de sem hora com tempo, tempo derramado de alegria ao folhar as Revistas do Globo, as novas caixas para disco, as sessões de dança, ginástica artística…ah! que orgulho ver a pequena Valentina se apresentar, e brilhar… aquele empenho de ser primeiro lugar, de estar pontuando, de estar concorrendo, de estar / ter nas pontas dos dedos seus onze anos graciosos, trabalhados, méritos e sacrifício, alegria a explodir com verdade e fogos a cada etapa. parabéns minha neta! parabéns! orgulho! quero me debruçar neste tempo de se feliz, feliz…bom saber que a minha Luiza ergue a casa em Pernambuco ficando raízes e com as mãos planta a nova vida, sente nas mãos a conquista, enterra raízes e espera frutificar… orgulho! Ana não interrompe nem o sono nem a vigília / assim, interruptamente ela constrói vida orgulho trabalho, coragem, e forte / forte / dona do seu tempo / saúde / progresso só ela administra a luz e a noite. Meus filhos! Pedro encontra no Rio de Janeiro o começo, a Lattoog a ser palmilhada, seus desenhos, suas tintas, é ele. E sou eu. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres








Primeira visita/viagem Rio/Porto Alegre de Ana Maria. Eu, feliz apresentando a minha filha. Apartamento da rua Garibaldi /POA

Flávio Tavares visitando Torres para trabalharmos com os textos de Iberê Camargo










medo

reduzo o dia, o fazer, a expectativa / esta diminuição reduz o medo. com o passar do tempo o medo vai ocupando o seu espaço / seu? um grande espaço… fico a pensar como fiquei assim tão medrosa? paralisante o sentimento age de um modo esquisito… são tantos os sentimentos a serem investigados! escrever vai caminhando por esta estrada pedregosa e difícil. a confissão, a palavra, o pensamento livre era fácil e agora, ficou pegajoso, deformado. os caminhos diferentes…as pessoas se modificam no meio da trilha / serão acertos ou desencontros? conviver fica, pouco a pouco, mais difícil. o que eu digo não se entende, o que ouvem é diferente, voltar a explicar já cansa… interrompemos. concordamos. conversar ficou esta coisa de entregar pontos… é tão novo! conviver, uma aventura. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres

coisas e fatos
esta coisa de pensar pode cansar / aliás, deixa um exaustão que invade o corpo inteiro e os olhos divagam, e as mãos se agitam sem sentido. pensar agita corpo, alma e as coisas saem do lugar, criam independência… pensar / pensar agita o tempo… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres
O frei. A farra. O freio.
A Beth. A pitangueira. O sol. E a história a se arrastar…Amanhã eu conto. Hoje? Comi pitangas maduras na pitangueira. Fazíamos isso no colégio. A saudade. A história. A nostalgia. Gostei da crônica de Eugênio Esber na Zero Hora! Ah! Jornais pontuam… Será que as pessoas leem todo… O belo se esparrama, o hediondo sobrevoa. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres
desormais /a partir de agora
aquela lembrança que me agitou por tanto desapareceu / não existe mais a magreza / nem olhos azuis / nem esquisitices / uma libertação / uma revoada cinza de pássaros / gritos da natureza inundam buganvílias / brotam flores miúdas amarelas e eu me deslumbro. sinto um alívio enorme de pensar mais / sentir mais e saber que o novo jeito de sentir /o amor / outro jeito de ser se derrama… da adolescência ou o de sempre, o novo Francisco / estás ali… ou Modena volta: lembro do Marco e toda a Itália / a França refletem na lagoa / o meu paraíso é forte e bom / generoso e calmo = felicidade. chegaram os livros / os textos derramam perfeição, eu gosto. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres / rezo uma ave maria, um santo anjo ou um pai nosso pra estar, outra vez, na memória do colégio…
livro não conta história
livro não conta história / não é enredo, livro é instrumento para pensar / exercício constante de respirar / escritor é operário, constrói, empilha as pedras, amanhã haverá uma catedral magnífica: a obra. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres
André Gide

voltar a ler Gide parece glorioso, e eu não li todos os livros / li cartas, diários, relatos de viagem e também… mentira, eu mastiguei / engoli: eu li muito André Gide. / no ônibus, em casa – tardes, madrugadas, como que embriagada. Agora Paludes / Les nourritures terrestre… “Nathanael / je veux t´apprendre le ferveur.” o que eu lembro? como seria percorrer outra vez o mesmo caminho, ainda em francês / não venci Les faux monnayeurs / estas questões da crença / das certezas / do conversão… comprar em português? seria outra Beth / outra pessoa / reler é pensar tudo outra vez / o idioma desenha diferente. estou tão distante dos livros, do obsessivo / escrevo aos trancos e barrancos / sem aprofundar / sem transformar / ficou tudo a título de registro. solto. estou apenas sentindo coisas / como revoada e vento. terei tempo para reconstruir / para estudar de verdade / fazer diferente. agarrar um autor / dos meus preferidos e repassar por inteiro… por um momento na minha vida eu exigi o retorno ao português / acertar lacunas / tão relapsa fui… se não escrevo em francês, não posso alimentar apenas um lado do motor. gasolinas / combustíveis diferentes. dar aulas / ganhar a vida / caminhar apressada, casar, namorar, dançar e brincar me desvio do que eu considero o melhor. terei que retomar? recomeçar / voltar? estou inquieta. estou apaixonada, apaixonada por um fantasma. e sendo fantasma não tenho nada. não tenho nada no corpo, nada na alma. estou apaixonada. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres

reticências e muito mais
meu querido: faz tanto tempo que não te escrevo sentimentalidades… o gosto / o cheiro do amor está concentrado. tu me fazes dançar e rir sozinha e contigo. eu te penso / e nos sinto abraçados. quando penso eu sei: estás chegando. vais me abraçar muito e bastante. nós diremos as banalidades de sempre. nervosa vou queimar o café com água fervente e a cozinha ficará cheia de odores e tu acharás graça e vais me levar pra beira do rio Mampituba / escolher um restaurante. vou me encolher, e dizer que não quero ir. medo dos olhares. estou escabelada, não estou pronta. faz tanto tempo que não estou pronta… eu me atrapalho. ainda fico vermelha, sem graça porque tu chegaste e amar o amor ainda é a melhor coisa do mundo. volto a querer o intenso / a incerteza e te beijar, beijar… Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 – Torres