5692

sem história triste… só vontade firme e aquela beleza que a gente batalha, corpo malhado, cabelos tratados / sim, investir na imagem e focar. vestir... luxar por este lado porque o mundo, o respirar está caríssimo. como vou fazer? cortar a grama, tenho a máquina, podar as folhagens, eu posso. curtir a piscina neste calor absoluto, praia, seja com guarda-sol e distancia há de se ter coragem… o sol tá exigindo tudo, o mar lotado. ou tudo isso é imaginação minha? as séries turcas bombando, a televisão dentro da alma… a música e o piano meus / curto / fico feliz / com prazeres absurdos também, lavar a roupa (mania de cheiro cheirosos), passar os lençóis, vibrar com odores de tapetes perfumados. sem poeira, louças bonitas postas em toalhas limpas. comida feita por mim… o viver a vida nas/pelas conversas com o neto, intermináveis falas. deixo correr o amor, leio, inadvertidamente eu leio até deixar os olhos exaustos. iria ao cinema e comeria pipocas do pipoqueiro… comeria balas de gomas. ah! gosto do que foi e do que é… ando sentindo uma certa nostalgia / o corpo precisava ser mais cuidado… mais animado! enfim! Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres / bom sono importa, não esquecer. acho que vou fazer uma tatuagem. vou? entrar / escolher / ou me candidatar a outra tribo… recomeçar.

quem sabe

quem sabe este amanhecer? numa foto a vida se descreve gloriosa – viver: respirar, olhar, ver e olhar. essencial… a riqueza está ali depositada no sol, na chuva, nas nuvens, no verde… Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Fazenda Santa Helena – Cachoeira do Sul

passo e pensamento

goles pequenos, passos largos e venci a volta na lagoa… atravessei a ponte, encontrei pessoas sorridentes e passantes empenhados, posso dizer, a manhã está fresca e… e alegre. somos transparentes: eu estou alegre. ontem, depois de ficar horas na piscina, encharquei a alma de sol e conversa solta, risadas: muito bom. renovei. dormi a tarde inteira e acabei espichando… numa concentração / mentalização de alegria pura. sim, gosto da minha casa, gosto da minha comida, das pequenas invenções e do piano, os discos de vinil me divertem no tempo com seus chiados característicos… e a vida volta nostálgica e se desenha tão agora, tão hoje, tão perfumada. obrigada Pedro. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres (claro, faltam fotos! vou providenciar)

cavalgada incerta

que estranho sentimento de finitude, quando penso na minha vida, perdas – separações – projetos, cursos ou caminhos e a sensação da cavalgada que me era estranha. eu sempre senti muito medo disto e daquilo. tudo misturado, a vontade de viver , o desejo, o encanto, o outro, o amor agarrado, os filhos… os filhos que precisam ir e ser e acontecer e amar. amar para sempre e sempre, juntos. os amados amores e agora esta aflição aflita de que não sei bem para que serve viver, uma saudade do apartamento da José Picoral, 117 com seu piso de lajotas vermelhas, parede de pedra, grande biblioteca, enorme cozinha e a sacada que nos dava as redes… e o mar logo ali, tão perto, tão ruidoso, e as pessoas, tantas pessoas… tantas risadas e conversas… por que não estou mais ali, por que não estou aonde era, afinal, quem eu sou, como sou… por que abandonei meus alunos e deixei a faculdade, e o esforço, e a cura? aonde joguei meu mestrado, doutorado e paixão por arte, por música, meus amores amados / amigos, queridos. quero tudo outra vez, quero de volta… quero viver, viver, viver… e encontrar a Torres da minha juventude, ver a Porto Alegre dos caminhos, de Petrópolis, da rua Vitor Hugo 229, mas também minhas escolas, o Esplanada, Bloco A na rua André Poente. Quantos sonhos! Elizabeth M. B. Mattos – Torres 2026

??????????????????????????????????????????????????? e agora?

quietude feliz

com vagar, devagar recarrego minha alma: o piano, apenas ele, a luz entrando… e o sono saindo silencioso. os passos arrastados neste amanhecer a se espreguiçar. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2025 – Torres se despedindo do ano…

Anaïs NIN

Etait-ce une maladie nouvelle née de notre époque? Pas le temps d’aimer, pas le temps d’avoir des amis, pas le temps de se confier.

Rank transfigure chaque chose par la magie du sens. Ceux qui viennent à lui sont comme les aveugles, les muets, les sourds. Lorsqu’il découvre l’ “intrigue”de leur vie, cela les intéresse. C’ est d’un intérêt sans fin, rempli des surprises. (p.20-21) Journal 2

som

meu querido: tanto, tanto a te contar das coisas quietas de dentro. tanto a te contar das saudades pequenas e daquelas enormes que me assombram. estou com medo. medo de envelhecer e de me perder. impaciente, agitada, escorrego entre os gritos e as ideias tomadas de sentimentos enlouquecidos. deves estar quieto, introspectivo ou catando brilhos, sei que gostas de brilhar: retomar o tempo de direito perdido. cansei de te explicar, não foi perdido. aquele tempo, meu menino, desenhou tua história assustada de herói… chegaste entre abraços e abraços e apertos, festejado. isso foi bom e lindo. uma vida brotou e teus livros foram escritos, tua casa construída, teus amigos te protegeram e voltaste ao português. voltaste. eu te beijo. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro de 2025 – Torres

acho, não tenho certeza

não sei o porquê de amontoar tantas letras e seguir, seguir. escrever escorregando numa vala, numa ideia, tropeçar, sujar a roupa, não parar, escrever. quando menina queria que fosse um livro de verdade, uma história. ela iria embora, e ele não se importaria, ninguém diria nada, ela iria para não voltar. mas voltou, voltou / cortou o tempo, fatiou e desenhou o antes e o depois com as mesmas convicções. perdoou a decepção daquele casamento desfeito, e recomeçou a colorir a vida deles todos, como se fossem parte dela, obrigação dela ensinar a dançar, cantar e dizer… aprenderam depressa. e a casa, os móveis, e a vida cresceu ali… colada. quando venderam a casa mudou tudo, promessa dele que seria bonito, limpo e novo. e foi. eram apenas eles os dois colocados um ao outro, amorando o amor, recomeçando. Elizabeth M. B. Mattos- dezembro de 2025 -Torres

íntimo

A música é cura / cura forte / feitiço contra qualquer mal. Entro noutra estória / enredo. Qualquer música, canção. MARAVILHA! Hoje João aniversariou / cortamos o bolo de manhã! Como saiu ontem de noite estava meio dormindo, meio acordado (risos). Estou em casa tentando arrumar este EXCESSO de discos / separar os que escuto / os que devem ser doados… passo pequeno para a ordem. Verdade, limpeza e ordem definem.

Empilho roupas e tudo vira confusão… ou dobro, seleciono. Higienizo armário… tudo isso me faz bem, muito bem. Ou escuto a música, ou penso, ou escrevo e sinto misturado num prazer de tempo que ‘se aflige’ / haverá tempo físico para ordenar esta desordem confusa? O que a vida é? Ou se faz? Tão intenso s sentimento que me imobiliza. Enlouquece e se espalha… enraíza e depois floresce, também vira mato, e inço, às vezes, violetas.

Este caminho não é o que eu procuro, assim mesmo escrevo, obcessivamente escrevo: excessivos decotes, sensualizados gestos. Nada disso procuro, busco algo mais calmo, mais íntimo, cativante e profundo. Não sei como expressar porque não estou dentro dos sentimentos. Passo o dia atordoada: limpo, esfrego, cozinho.

Deixo o tempo escorregar pelo ralo como se fosse uma torneira aberta / esquecida, abandonada, sem uso… a água sai rola escorrega. Quero outra vida. E penso retornar a Porto Alegre: escutar outros sentimentos.  Apenas movimento, afinal, altera muito pouco quem eu vou ser / o desenho rascunho escorrega do lápis. Estou nostálgica de ser eu, apenas eu mesma. Outra vez recomeçar. Elizabeth M. B. Mattos – dezembro – 30 de dezembro de 2026 – Torres