Francisca Chica ou Albertina

Insegurança fica por conta da insegurança, nunca vou conseguir explicar todos os motivos escarafunchar em todas as feridas, nem reservar e alimentar sementes necessárias para o novo jardim. Acordar foi de repente quando toda a pressão de ser filha mãe avó professora marchand irmã tia prima e …, pois é, depois foi depois de ganhar meu próprio dinheiro, depois de erguer a cabeça livre para ser apenas eu Albertina, não Elizabeth. Cheguei em mim mesma. Eu vi/senti/apalpei. Estou despida. Tirar a roupa é devagar, tirar a alma pra fora também é lento. O que eu quero o que eu não quero, não sei: olho para o corpo envelhecido exausto (palavras de efeito) penso nos biquínis no despudor, na loucura de amar o amor, e fico estarrecida, mas gosto do passado, do choramingo, e gosto deste fogo que arde dentro de mim. Das traições traídas e de encontros que não terminam, começam, transbordam, …. Encabulada eu me cubro outra vez, e adormeço. Gulosamente quero todas as Beth Elizabeth more e more somando apelidados como Chica (Suzana dizia assim) Francisca, Guria, Albertina, Azul, Liza ou Eliza, e fui adotando nomes, mas sou apenas a Elizabeth com z e não com s Mattos. De algum canto de Portugal este nome já simplificado do nome de meu bisavô que seria Francisco de Assumpção (riscado) Martins Cardozo, natural de Conselho de Fontes, solteiro, súdito Português -, diz o passaporte. Para o Rio Grande do Sul Abonado competentemente. Dado em o Porto aos 22 de Março de 1843. E a assinatura resultou Francisco Martins Cardozo de Mattos. Passaporte do Exterior. Signales: Idade 23 anos Altura 59 polegadas Cabello sombrolhos olhos, castanhos, nariz boca regular e côr natural. Este é o pai do Pedro Alexandrino de Mattos (meu avô). Casou com a paulista brasileira Rita Menna Barreto. Disciplina resulta em trabalho ordenado. Desordem em anárquica vida. Se estou perdida, não respiro nem penso ou retomo, corro, desabaladamente … O mar responde e esconde o que não quero mostrar. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2018 – Rio Grande do Sul

passaporteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

 

 

 

já amanhã

porque acordo e sinto dor no corpo

porque acordo e não tenho corpo

porque acordo, e sei que dormes

enfim, afinal, o que posso mudar, …

reconheço o balanço do tempo

já tanto envelheço, – estupefação,

e agora/ hoje desperto a te esperar

vem chega perto e toca meu corpo, – eu respiro

deita ao meu lado,

respira respira …,

juventude volta, fecho os olhos,

e já somos amanhã

E.M.B. Mattos março de 2018 – Torres in trânsito

Há um provérbio que diz que o tempo e a maré não esperam as pessoas; se o tempo não nos espera, precisamos levar isso em conta e estabelecer o nosso cronograma de forma consciente. Ou seja, em vez de esperar, devemos tomar a iniciativa de forma agressiva.” (p.91) Hauki Murakami Romancista como Vocação Alfaguara, 2017 São Paulo











 

tentativa

Silêncio nas folhas que se agitam.

No meu ombro tua mão …,

e o perfume da terra se mistura ao gosto do corpo.

Perco medo de ser apenas mulher, mas não consigo me despir dos livros nem do prazer morno, arrastado da leitura. Eliza/ Liza /Beth  Mattos – março 2018 – Torres

MATISSE atelier no sótão

Henri MATISSE – O atelier no Sótão, 1903 L’ atelier sous les toits – (Óleo sobre tela Fitzwilliam Museum).

…,mesmo a imaginar teu abraço, teu corpo.

“Descalcei – me, estendi – me na cama e pensei em Moira. Um verso formou-se sozinho. Sentei -me a uma pequena mesa, junto à janela, abri o laptop e escrevi os restantes. Enviei o poema a quem o inspirara. Voltei para a cama e adormeci.” (p.148) José Eduardo Agualusa A Sociedade dos Sonhadores Involuntários  TusQuets Editores – 2017

 

 

culpados, os livros

Não resisto, abro um livro, e esqueço da arrumação das caixas da chuva. Não consigo me despir desnudar das palavras, e ser eu,  não consigo. Cito poetas mergulho, quase me afogo, afundo, mas te juro: respiro também. E.M.B. Mattos – março de 2018 – Torres

Cada livro é uma investido na vida da gente! Quanto mais se lê, menos se sabe e se quer viver como nós mesmos. Pois isso é terrível! Os livros são nossa perdição. Quem leu muito não pode ser feliz. A felicidade é sempre inconsciência, a felicidade é apenas inconsciência. Ler é exatamente como estudar medicina e conhecer nos mínimos detalhes a razão de cada suspiro, de cada sorriso – isso soa sentimental – de cada lágrima. Um médico não pode compreender a poesia! Ou  ele é um mau médico ou um hipócrita, pois a ele impõe-se  a explicação natural de tudo que é sobrenatural. Ora, neste momento, eu me sinto como esse médico. Olho para os fogos nos morros e me lembro do querosene; vejo um rosto triste e me pergunto a a razão – natural – de sua tristeza, talvez, o cansaço, a fome, o mau tempo; ouço a música e vejo as mãos indiferentes que a tocam, uma música tão triste e estranha … E em tudo é assim.” (p.99-100) Marina Tsvetáieva  Vivendo sob o Fogo –Martins Fontes editoratradução de Aurora Fornoni Bernardini, 2008.

Mesmo assim o outono é bonito. Como é bonita uma folha caindo! Primeiro ela se solta, revoa, indecisa, depois vai caindo, caindo, num movimento harmonioso, junta-se ao chão, a suas irmãs – todas terminaram do mesmo modo suas curtas vidas.” (p.92)

fidelidade fantasia

Fidelidade palavra (sentimento) engraçado. Encontro beijo sexo abraço desejo para sempre o mesmo, igual. Fidelidade fiel leal firme constante e observância rigorosa da exatidão e da verdade (definição de dicionário), pois é. Ser livre, ou fiel, ou infiel ou prisioneira, ou eu mesma.  O ciúme mastiga devora o que há de melhor na parceria, – o direito de ir e vir. Amarra amorosa voluntária, nunca imposta. Não existe para sempre. Morrer. Mas nem morrer pode ser para sempre.  Não sei. A fidelidade se enraíza no impulso desejo vontade de que seja para sempre. A roda segue girando.  Nem sempre sou fiel a imagem projetada no espelho. Fantasia, segundo Laplanche e Pontalis no livro Vocabulário da Psicanálise:  fantasia é um roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em última análise, de um desejo inconsciente. Este ciúme grudado na fidelidade a infernizar conversa ou olhar consome amor, e também amizade. Danifica a relação. Eu acho, não sei, sinto assim. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2018 ainda Torres. Dia de chuva pesada e boa.

vantagens e desvantagens

Vantagem de morar sozinha. O dia se revira entre o sono e a vigília. O particular sono virado me surpreende no meio da noite, ou me adormece durante o dia. Desvantagem de estar/ficar eu comigo mesma. O peso da palavra, em qualquer interlocução, fala ou dizer vira logo temporal enxurrada enchente. Eu me afogo sufoco apertada.

Às vezes a gente não sabe de que lado está o humor e a graça: amanhã vou comprar sonho e pastel na padaria.

…, as coisas não se desacomodarão porque sei sabes disso (risco zero): ambivalência controlamos, com mais ou menos intensidade. Ninguém mergulha, conscientemente, onde não deve. O Siroco é raro, mas existe há séculos, e não estraga a vida de ninguém, ao contrário. Para que a nuvem seja branca, faça com que não te perturbe. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2018 – Torres – o que inquieta: existe o Simún

 

«Simún»: um dos ventos mais temidos do deserto

Desconhecido para grande parte dos cidadãos a nível mundial, é um tormento para os locais de uma zona específica do globo. Falamos do «Simún». Um vento de cor avermelhada que assola o deserto do Saara, entre os meses de junho e agosto. Mas o que torna o «Símun» tão temível?

As tempestades que produzem o «Simún» têm estruturas rotativas semelhantes a um ciclone. Trata-se de um fenômeno muito específico. O vento é muito seco, a sua temperatura pode chegar aos 54 graus centígrados e a sua umidade nunca ultrapassa os 10%. Esta conjugação de fatores torna o «Simún» um dos ventos mais temíveis, não fosse o seu nome, traduzido à letra, «vento venenoso» (a palavra original provêm do árabe «samûn»).

Diz quem sobrevive a este temível vento que é o mais parecido com o inferno. Quem entra nas suas entranhas, muito dificilmente sai de lá com vida, já que as probabilidades de morrer por asfixia ou hipertermia (calor) são muito elevadas. Solução? Não há. O melhor conselho é o abrigo num lugar seguro e esperar que este fenômeno passe, porque este «engole» tudo o que está à sua volta.  Goole

explode

O amor se excede em cada beijo e explode. Certeza? Por que tenho/ teria certeza? Porque sou parte do outro, e nada pode me ferir, nada pode mudar isso: no amor mergulho cega. Tenho a mesa cheia de trabalho, sinto sono. Vontade de não fazer, mentira: vontade de fazer amor, – de ficar no escuro. De estar sozinha. E (sorrindo), de me reconhecer contradizer. Em toda forma há incoerência; extrema incoerência na rigidez dos acontecimentos, os mais perfeitos. A vida desmancha-se em calamidades e o homem/ a pessoa constrói  muros, não quero muros. Tenho o infinito do mar quando olho pela janela.  E.M.B. Mattos – março de 2018 O tempo venta e passa e faz chuva, e faz vontade de amar.

 

 

 

 

 

criando coragem

Amorasazuis, o blog, é o meu livro móvel. O facebook a plataforma de divulgação. Sempre escrevi com a Remigton  máquina portátil do meu pai.  Cheguei a comprar uma profissional, cheguei a ter máquina elétrica, aquela que tinha corretor. Agora o computador. Desde sempre tive diário, correspondência, escritos por todos os lados. Magda e eu chegamos a imaginar e  fizemos, uma troca de cartas entre princesas e príncipes (escondidos em castelos e reinos fantasiosos). Adorava as bonecas bebês: trocar fraldas roupas levar para passear dar mamadeira. E subir em árvores. A calçada para pularmos sapata / amarelinha era também quintal. Não lembro de estudar. Mas de correria e de bonecas de papel. Das tampinhas de garrafa colecionadas, das pedrinhas e de pedaços de azulejo raspados na laje, das formas geométricas. Eram personagens. Não fui boa aluna, aliás, péssima. Apreender português competitivo: pai e mãe intelectualizados, biblioteca disponível, esforço e concentração para tanta distração! Sim, todas as boas condições presentes. Preguiça indolência vontade de brincar atrapalhavam. Fui tardia na alfabetização,  devagar distraída. Era a caçula e a mais livre das crianças numa casa em movimento. Petrópolis um bairro nascente com terrenos baldios e jacarandás. Andava de bonde. Comprava balas no Bar Tupi. Lembro das matinês do cinema Ritz e da missa na Igreja São Sebastião. Frequentei a Escola Estadual Rio Branco. Este período de vida me parece longo alegre e rico.

As Cônegas de Santo Agostinho, o Colégio Nossa Senhora das Graças, se apresentaram numa emergência. Por motivos sérios, ano complicado, deixava o Santa Inês, e ia para o Internato.

Mas esta já é  história pessoal.

O Amoras nasceu em Torres, tem seis anos, e foi ousadia. Desordenado, sem filtro todos os textos encontrados foram jogados na rede. Numa brincadeira de mosaico. E no que eu chamaria aproximação, inclusão. Ficou íntimo, ficou texto, ficou plataforma, ficou encontro. O passado volta. Tempo da nuvem, – do virtual. Amorosidade. De velhos e novos amigos e amigas. É mágico. Estou perto, desnuda. A palavra poderosa personagem. Gosto da conversa, e deste constante diálogo, e vou a criar/criando coragem. Um dia eu conto a história de ser EU. Não que tenha mistério nem seja pior ou melhor do que qualquer história de pessoa/gente: somos todos tão iguais! Gosto de escrever. Escrever está na minha pele, a tatuagem que ainda não tive coragem de fazer, mas farei. Elizabeth M. B. Mattos – março 2018 – Torres num sábado iluminado.

Joaquina e eu pequenafoto de fotos de muitas épocas pouco nitida

máquina.jpgOS LÀPIS DA ELAINE.jpgmáquina de escrever.jpg

Nada de novo

eclesiastes

Recife,  Oficina Francisco Brennand

O tempo não deveria ser tão apressado! Eu não devo ser tão sedenta inquieta vulnerável, mas sou. Não há nada de novo na palavra, nem na vida …, nem dentro de mim: somos irremediavelmente iguais. Não há exposição nem vitrine, a verdade inventada ou real assusta. Relação perfeita, ou desastrosa incomoda. Cada um quer o mundo a sua imagem e semelhança …, não é preciso se debruçar tanto na carência nem na ausência, como afirmas, está tudo dentro de cada um, internalizado do jeito que é/precisa ser …, respetivo viver! Intransferível.

Sonho o  mesmo sonho sonhado por ti -, nudez igual, muda apenas, o jeito de olhar … Persigo e atropelo, mas esqueço sem te esquecer. Estás dentro da imaginação, a minha, e sinto prazer. E me debruço nas tuas vontades. As minhas vontades. Teu querer me satisfaz generoso. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2018

035

desde tão jovem eu me perdia/perseguia no olhar …, procurando procurando