percepção: coisas de Huxley

Percepção: coisas ditas por Huxley: “Todos os ruídos haviam desaparecido. A escuridão era completa, mas no vazio e no silêncio, ainda perdurava um certo conhecimento, uma vaga percepção.

Percepção não de nome ou pessoa, não do presente, nem lembranças do passado, nem mesmo deste ou daquele lugar, pois não havia lugares. Havia apenas uma existência cuja dimensão única era saber que não pertencia a ninguém, que não possuía nada e que era solitária” (p.138) Aldous Huxley O tempo deve parar

Li / sublinhei, voltei e reli tudo outra vez. Avancei na leitura e me surpreendi… Acho que ainda acontece seguido isso de me surpreender e navegar… Surpreender com pessoas, textos e com a vida. Estamos assim, superlotados, surpreendidos, carregados de exclamações e interrogações. Viver tem encanto de amor, se renova nos teus beijos, teus abraços, e teu envolvimento. Com o teu objetivo, tuas risadas. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

eu digo bobagens

Eu não sei dizer o que pode, poderia, realmente, ajudar. No meio da dor, atordoada pelo medo, quero estender o braço, o socorro. O que faço? Com voz de fantasma repito coisas bizarras: beba um copo de leite, a maçã é uma boa fruta. Agarra um livro. Mesmo que não entendas bem, mesmo sendo aborrecido, segue lendo… Depois anota. Abre aquele caderno, com um lápis  / feito desenho escreve. Se nada original ocorre, descreve…., se não te ocorre ainda nada, escreve teu nome. Conta do almoço, do banho quente, ou gelado. Descreve a árvore que vês pela tua janela. Alinha o pensamento ao cotidiano. Deves ter comido tomates, feito um macarrão, cozinhado dois ovos. Ou uvas, ou pêssegos. Milho, quantas espigas de milho tinham ali na cozinha? E nada me ocorre. O que eu falo? Estamos juntos, tardes inteiras a rir bobagens, mas não consigo desenvolver a ideia. Tenho ideias? Ou eu mesma me agarrei na vida porque respirar era / é bom? Tenho dúvidas. Por que este meu otimismo pequeno é couraça? Um jogo do contente de M. Deli ou das Vacas Voadoras de Edy Lima. Em sala de aula eu atuava cheia de vigor. Anotava, e me proponha a explicar, ou eram os alunos que se propunham a ouvir e fazer. Era uma energia emprestada? Eu repito sempre as mesmas coisas. Coisas de beijo, de abraço, de carinho, de representação. Odor. Eu persigo o cheiro da luz, do brilho, da alegria, da risada cantante. Afinal, não faço nada. Sequer escrevo. Eu sonho. Como posso solucionar o problema dizendo: tudo vai ficar melhor, perfeito, sonhe meu querido, deseje forte e a vida se abrirá… Estou mentindo? Não. Eu sinto assim, a vida se abrirá… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

espiando o amor

Às vezes já não sei o que é ontem, hoje. Saberei do amanhã – planejarei!? Aonde estarão meus sonhos sonhados, vividos… pesadelos do aprendizado. O susto de quebrar o prato preferido, espatifar o copo, tropeçar: joelhos esfolados. Aonde a corrida, o perder o fôlego.  Já sinto dores de cabeça, pernas doloridas… Desconfiança no tempo. O calor? Talvez o cansaço se misture com o sol, ou exaustão de respirar. A leveza desapareceu. E nem sei das explicações, daquela lógica de dentro… Pois é, está tudo tão explicito na negação, no susto. O tal medo se estica.  Abraçar o escuro

Amar ou apaixonar-se é risco / como andar no escuro. Tropeçar nas coisas, cair, mas, chegar… O querer, o derramado das lágrimas! A gente sempre chora no amor. Ganha-se e perde-se tudo tão depressa! Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

inquietude

inquietude move a montanha como movimenta a vontade. aquela vontade espinhenta / instigante… sentimento agitado. o dia se fez agitado, caminhado. neste passeio pelas calçadas a viagem vai no vagar do olhar… Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

anotação, data e vozes: pequenas alucinações da memória: o perigo de ser gente / pessoa em movimento

de vez enquanto

vez que outra ela encrespa os cabelos, de escorridos ficam ondulados. às vezes faz um sorriso, sai no/ao vento, mas pouco… toda morena gosta do sol. e se enfeita sim, vejo as roupas… gosta da vida carregada, festeja a sorte, a carta premiada e sorri, ri… de vez em vez se arrepende, mas pouquinho. confia no testamento. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

Inteligência Artificial

A IA mastiga a energia da memória… Tudo está, estupidamente, pronto: posso teclar a metade de um nome, dedilhar no computador pedacinho da ideia, logo, imediatamente, tudo está completo. Como casar com alguém com filhos e netos: família entra no meu domínio, eu, inteira, borbulhando, aceito ou não me caso. Pegar ou largar. Muito estranho. Tempos de hoje a serem engolidos.

Paul Auster ainda me encanta. “Como todos os seres ainda pré-alfabetizados, a memória do menino é espantosa. A capacidade de observação minuciosa, de ver um objeto em sua singularidade, é quase ilimitada. A língua escrita exime a pessoa da necessidade de lembrar muita coisa do mundo, pois as lembranças ficam armazenadas nas palavras. A criança entretanto, situada em uma posição anterior ao advento da palavra escrita, lembra do mesmo modo que Cícero recomendava, do mesmo modo imaginado por todos os autores clássicos que trataram do assunto: uma imagem casada a um lugar” (p.184-185) A invenção da solidão editora Companhia das Letras 1982

Este esforço mínimo de pensar, rascunhar o que se pensa, escrever como exercício, abrir um livro porque tem cheiro, data e memória própria, deixou de importar. Fica na memória um resquício de vida vivida resolvida num clicar…Procuro na IA que me conta o que já sei e o que, possivelmente, desejei saber, mas não memorizei. Pensar, estudar, ficou fora de moda. E já vou catar o que possa eu sentir… Congelo, uso o micro ondas para descongelar: panelas são poupadas, o esforço minimizado, respirar ficou fácil? Os livros, os jornais, todos virtuais. Eu me espanto. Os dinossauros vivem? Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres

Conceito de trabalhar, ganhar dinheiro, ser importante ou fazer sucesso tropeça na política / cada vez mais surpreendente. Surpreendem as decisões e a qualidade de honestidade. Estou num planeta desconhecido…

…mas algumas imagens te devolvem a vida. Ainda combato os cupins / como frutas, e sou feliz na beleza de cada objeto… Não desisto.

odor e rumo…

Os cheiros conversam comigo: defino muito / tanto e tanto pelo cheiro: associações. Desejos caminham pela trilha do odor. Logo / súbito lembro gramado molhado, floração, poeira das estradas. Chuvas encharcam e são perfume. Banheiro aromatizado pelo banho ensaboado. Casa toda respira depois da faxina! Casa respira? Sou eu a respirar e sentir. Polir importa porque converso com os cheiros brilhantes. Armários ventilados, roupas ao sol. Ah! Este sol que se entrega! l Espera dentro das gavetas e dos guardados… Bom isso! Adoro sentir as frutas maduras: conversam e se comunicam com o perfume. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2025 – Torres