a cada um

A cada um seu particular / um tempo. Cada pessoa vê um lado diferente… Era o mesmo? Não. Outro olhar / visão… O mar é / era o mesmo. Para um represento o quadrado, um dado, para o outro? Sou o sonho, a sentinela. Ou sou pesadelo, engasgo. E, ou ainda, o afago, o beijo. Ou sou as costas da boneca, da pessoa que nunca fica, apenas vai… Cada um tem uma experiência diferente (é claro!) / particular. Nas explicações, divagações: sou aquilo que imagino ser, a narrativa, sou também a parte do que poderia ser o inteiro… Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

Divago sobre saudade, imagino. Sinto a mão, carinho. Existe finitude a cada decisão. A dor aguda faz parte do efêmero, nosso encontro. Vontade de correr, também de imobilizar. Depois alívio. Terminou. Não existes, no teu lugar, ponderações, eu? Sei lá se existo. Imobilização. O momento se cristalizou ou morreu, ou se resolveu, aquele momento. Nem sempre corajoso o meu abandono, nem sempre… coisas miúdas da saudade.

memória certa

Não sei qual memória enquadra melhor o sentimento. Eu me agarro numa lembrança de correria, noutra de ficar olhando as formigas trabalharem, infância com jacarandá, agito do mar. Se penso Rio de Janeiro encontro o fervor, alegria constante da idade. Seria a idade? Vinte anos explode. Não permite, não quer tristeza. A risada vem se arrastando, mas chega e desfaz o nó. A rua Viúva Lacerda é coração. Um dia foi a Vitor Hugo, outro tempo vibrante era feito das fitas do uniforme das cônegas. Indisciplinada comportada. Existe? Gostava de entrar no mato para colher as pitangas, de ler livro na hora de conversar. De correr ladeira acima pra não fazer as costuras daquelas aulas com bainhas e bordados. Era tanta coisa escondida e ao mesmo tempo comparada. Um capítulo longo este. Ambígua pessoa, escorregadia e pacífica. Será que os adjetivos se encaixam? Ajudar sempre, mas nada que segure por muito tempo, infernizar também. Relações fluídas, divertidas e tanta intimidade! Fico cavando e fazendo morrinhos ao longo da pesquisa. Uns se ajustam bem, outros viram castelos e vou atrás da minha amiga Ana Maria. Correta, séria, reclusa. Então eram as cartas usávamos para montar castelos / cresciam poderosos em baixo do piano – grande e suntuoso piano! E nossos reis e rainhas, protegidos. Nós imaginávamos / éramos reis e rainhas. Nós e todas as meninas. Outros dias, prosaicas. Um passeio pelo jardim, como mães de bonecas fui atacada pelo Jeff, o cão pastor amarelo, mesmo na corrente, saltou no meu braço e cravou os dentes. Estragou nosso espanto e nos assustou com sangue e correria. Não queríamos das travessuras. Por quê? Talvez devêssemos estar estudando e não brincando. Lavamos bem o braço e colocamos pasta de dente / não contamos, recorremos ao dentifrício. Imagino que era arteiro o que fazíamos. Tenho a cicatriz… Aquela infância vivida! A dela, com proibições. A gente guarda no corpo os boléus que levamos. Escondidos misteriosos, mágicos. É pensar na infância, na meninice, mais do que a adolescência a sacolejar. Das danças e correrias na calçada esta amiga nunca participou. Sempre esteve atrás dos portões e dos muros. Mas todas as outras amigas / amigos eram da correria, das árvores e do pingue-pongue. Campeonatos. Adorávamos. O Beto, era o campeão. E a turma suava nas disputas. Era verão? Inverno? Férias? Não sei. Éramos um agito. Isso eu lembro. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

agito ou turbulência?

aqui venta muito, tanto! por dentro a ventania ou um jeito estranho de sentir o que passa neste vento e sacode… é tua voz? não sei. passa por dentro a ventania. o vento conversa tudo ao mesmo tempo. sei lá. esta coisa estranha de adoecer de vez em vez, pois é, meu querido, não tenho escrito. resolvi mudar tudo… mas, tens razão, sigo a mesma. estabanada? distraída? ou sei lá… quero mudar. ou quero agarrar o tempo. agarrar… pegar, e guardar o tempo. esta é a saudade que sinto de ti enquanto te estranho… por onde andas? por qual estrada passas? o que, de verdade, sentes? tenho que acalmar e voltar, algumas mudanças se inquietam, percepções, sensações. a gente não consegue explicar, apenas sente. estou sentindo. deve ser coisa de muito amar este sentir. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

frio em novembro

Sempre fez frio em novembro, ou sou eu que sinto frio? Quero achego, certeza e tudo. É vago? O espaço-casa me acolhe: no lugar que devo estar, estou. Voar nas lembranças e abraçar delicadezas. Ouvir boas vozes, sonhos coloridos. Estou viva e gosto. Aqui e agora. Muito bom. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

e a surpresa?

vou para a academia, e apreendo a sentir o corpo. especial

bilhete com desenho borboleta

querido, meu amado: abcdefgluarenuvemestrela, todas as palavras transparentes surgem em vermelho com esta tinta mágica. uso da magia de dias e dias em teste – procuro o formato certo para tocar no teu lado avesso a convenções – procuro o menino. o homem se esconde numa seriedade justa, num reverter correto. numa gratidão derramada. o que desejo? apenas rolar pelo gramado e me esconder atrás daquele arvoredo perfumado com jasmins. estaremos presos nos sonhos descascados das laranjas e das bergamotas, lambuzando as mãos. ah! eu te amo inconsequente. lúcido: a felicidade tem lógica colorida. por isso estamos escondidos e incomunicáveis. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

amarelo amarelo amarelo

Entre uma tristeza interrompida e a vontade de despejar lágrimas e soluços para aliviar os pesos de certas dores imaginárias. O tempo deve virar horas. Encontro daquela memória despida / sem pudor. Nua. Olhar altivo: tu me compreenderás. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

virando a página

Minhas confissões lotadas de lacunas: imediatamente preenchidas pelas tuas cartas, tuas reflexões. Hoje justificas a gritaria que fazias com tua mãe: teu pai te maltratava com o descaso, desamor. Pesos se faziam necessários. Ele não me ama, ela carrega a culpada. Sou a complicação destes desafetos. E troquei temporariamente de mulher. De casamento em casamento para acertar os enredos das solidões. Nenhum copo de cerveja resolve, mas as mulheres se apresentam, generosas e tolerantes. Eu sobrevivo. Cem estes acertos de amor, sou um pai distraído. Nada fácil nem natural. O modelo da mulher de plantão serve para que eu preencha as necessidades. Quase sempre as dela. Se ela gosta, devo estar acertando. Não questiono o departamento. Reparo no corpo flexível nas roupas combinantes, no carro funcionando, e nos cabelos espichados e compridos / definem o feminino / mesmo que a voz destoe e tenha modos masculinos ou sei lá como descrever. Ela entrou no papel de minha mulher, convicção musical. E tu me perguntas sobre felicidade? Eu proporciono todos os prazeres de consumo que ela me impõe…Não é ótimo? Ah! Comprei um carro novo. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2024 – Torres

envelhecer

a boa definição sobre explicar / escrever sobre esta coisa aborrecida: envelhecer…

pronto, terminou o fazer antes da hora, agora, posso levar toda a energia para o sonho.

sonho de abraçar, beijar o amado,

esquecer dia ou noite, e rir

um cálice de vinho ou só o perfume da noite.

surpresa!

agora há coisas que você não pode fazer mais!

sou tu / não você

por que voltar aos pronomes? alterar o que será / não o planejado,

surpresas – um dia depois do outro: abrir os olhos = viver.

“Envelhecer já é por si só um destino!” Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres debruçada na leitura com Robert Musil

renovação

Tem uma pressa mental que se ‘agarra’ na renovação que pode ser perigosa… Perigosa para o pacato e ‘arrumado’ da vida. Explico. A idade chateia / criança quer ser adulto, atravessa a tal adolescência esquisita e ‘pumba’ / sou gente grande, e agora? Etapas. O envelhecer junto com a consciência… E longa vida. E lá vamos aos tropeços com dúvidas e alegrias. Secando lágrimas e inventando. A tal invenção esquisita… Eu exercitando os músculos, abrindo a rotina, ah! minha boa e conhecida rotina, acerto horários, sacudo a preguiça e coloco no varal a nova energia… Sei lá qual apressada avaliação posso fazer. Arregalo os olhos! Cuidado para não esquecer o óbvio. Meu amado querido! Não posso esquecer de te pensar. E te escrever. Amanhã. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres – vou entrar nos detalhes desta vida nova e me debruçar para te te ver, ao menos pela janela… Como posso ser assim estabanada? O óbvio? Vontade de te beijar,

achas que eu disse coisas que não disse

Eu não as disse. Esclareço. Você sabe como os sonhos se abrem. Sabe, quando sonha, às vezes: você já esteve ali, já falou com aquela pessoa, ou… É como se a gente reencontrasse a memória. Os sonhos se abrem meu querido. Assim, embora tão perdidamente perdido eu lembro. E volto / retomo você, enterro o pronome tu / ele. Passei a usar este pronome depois de o teres sublinhado. Bom gaúcho! Eu sou uma boa carioca, ou paulista, um gaúcha que você. Tanta desenvoltura… Tu me tiraste o você. O sua desenvoltura se esconde na nomenclatura. Você sabe como os sonhos se abrem: dominam, voltam, dançam. Neles, você e eu, Búzios, Buenos Aires e a ladeira que atravessas em Porto Alegre… Ora, meu querido, sempre foi você na estrada por Torres, nas idas e vindas e nos mimos. Reencontrar a memória dá uma força, uma energia menina que me faz dançar nos teus / seus braços e voltar a beijar, beijar e beijar…

Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2024 – Torres (você é a forma mais fácil de tirar a roupa e entrar no mar)

“Agora eu vejo-ouço um mundo em que as coisas estão paradas e as pessoas andam, do jeito de sempre, mas sonoramente visíveis.” (p.507) Robert Musil O Homem sem Qualidades