AS BALEIAS

As baleias estiveram em Torres: dezoito ou vinte. Esguichavam, nadavam com seus filhotes. Vieram para as águas mornas e mansas deste mar. Entre os lobos marinhos, as rochas. As baleias estão em Torres.

Passo o tempo arrumando. Preparo amor. Penduro quadros, encero os móveis, lustro as pratas. Espaços no armário. Roupas passadas, empilhadas.  Luzes certas para a meia-luz. Os discos com o piano de Mozart,de Brahms. Ou Brel, ainda Violeta Parra. Não vejo os dias passarem.  Espero o amor.

Os marceneiros, as prateleiras, eletricistas, luminárias: preparo a casa para que chegues amanhã, ou setembro? Nunca sei ao certo. O correio. Estou alegre.

Outro telegrama: /Só quando rapaz é melhor amar sem paz; mas já, mais tarde, como agora, quero tranqüilo comer amora pra que todos vejam Gaal me namora, menamora. /Leio, releio.  São versos. Olho para minhas mãos, vou tocá-lo. Releio o que escrevo: eu me descrevo. Arranco a beleza do corpo, e sabes por que faço isso? Para concentrar em ti o poder estético do meu mundo. Não quero ser bonita, apenas quero estar dentro da imagem que faço de ti… Nos meus movimentos, tua presença. Minhas mãos existem não para ser belas, mas pra tocar teu corpo. Escrevo. Escrevo enquanto te espero.  Antecipo ansiosa. A saudade marca o corpo.

Encero, limpo, lustro, espero. Compro violetas, plantas verdes. O verdes  na luz de frestas das janelas entreabertas. A chuva faz o verde chorar. Venta nesta primavera. Os telegramas e os versos chegam: / Quando a quem ama só resta telegrama, até mesmo o beijo escreve-se com o desejo de que o papel tenha gosto de mel; saudade aperta, mas abraço não deserta mesmo que no dia 12 não esteja aí, estarei ao teu lado, contigo, todos os momentos./ Leio. Releio. Riso aberto.  Bom é te esperar.Para que perdure andar do amor de abraços beijos toques alma, terminantemente proibido refrigerantes, comida salgada, álcool em suas várias modalidades; além todas manualidades exclusivas vida íntima./ Pretendo inspeção ocular após dia 25. Beijos, Saudade./Descomunal saudade Gaal, mas não quero apurar viagem; pois necessito tentar vender imóveis agora pra não voltar rápido permanecendo eu lado todo o tempo. Mil beijos./ O tempo de espera o meu tempo de amor. Mais um detalhe, mais outro e o riso perpassa tudo. O desejo aquece. As palavras escrevem o tempo. Telegramas caminham rápidos, e misturam emoções. As palavras  crescem no meu caderno de notas: para cada nova palavra nova leitura encadeada, associações de prazer. Linguagem desdobrada, leitura misturada às tantas outras leituras! Tecer, tecer amor, e  amar a nova forma  de amor: palavras./ A paga incêndios, contém emoções, evita suicídios, homicídios, afogamentos. Enfim, explica aí. Quem interessar possa que não se aflijam além limites porque poucos dias mais estarei chegando. Beijos. Saudades./ Difícil resolver alguns detalhes aqui. Talvez não esteja aí data pensada. Tento cumprir pé da letra, sugestão entregar tudo, mas, burocracia demora obrigando adiar. Beijos, abraços. Quero envolver Gaal. Estejas tranqüila. Estou sozinho.Retido. Retido. Faço mil planos contigo para julho, também,  depois tentando sonhar preciso Gaal pra vencer letargia tomou conta de mim; estarei aí máximo primeira semana de julho esperando até lá te cuides: corpo e alma, cabeça já que coração é ingovernável mesmo. Mil beijos, milhões de abraços./ Adiamentos viagem aumentam saudades. Vontade sentir-te estar contigo; demora não é desamor ao contrário. Tardo por querer ganhar tempo extraviado anos não te conheci. Beijos./ Fico olhando para o nada. Releio, vejo, repasso. A palavra vai crescendo, criando outra nova palavra, movimentando: interno, remexendo depois numa outra via, outra guia… Nova história. Leio entre todos os outros todos os novos, o último conto… O novo tempo. A palavra vai criando, crescendo, movimentando, depois salta.  Estanca. Para, fica quieta e significa  a via,  a veia sangra, via faz o novo, o outro, homem, mulher, a história. Lentamente sigo o rumo, a nova estrada. Não é mais a minha história…Letárgica no espanto do vazio desta ausência. São as chuvas desta primavera. São os ventos.  E o mar sem as baleias. Esguichavam, nadavam com filhotes. Elizabeth M. B. Mattos – setembro – 2012

Correspondência

Açambarcar, engolir, ver cor nas palavras é o processo. Absorvo algazarra. Acompanho correrias e brincadeiras, joelhos esfolados, seguro bolas que rolam nas calçadas, empurro carrinho de boneca, bocejo. Os mesmos comandos mecânicos. Domésticos. Roberto Carlos, depois Beethoven, concerto para piano. Li o livro que mandaste pelo correio. Passei lençóis, experimentei a nova receita de bolo de laranja. Dormi um pedaço da tarde. Elizabeth M.B. Mattos – 2012 –  Torres

(…) “encontraste felicidade nas coisas simples: marido, casa, arvoredo, gado, e para alimentar a tua fantasia, as nuvens que, nos dias ensolarados, povoam o campo com um rebanho de sombras.Reencontraste o sabor do pão feito em casa, tu que por tanto tempo te nutriste com o pó do asfalto da grande cidade. Eu te compreendo, mas não deixo de pensar na tua formação esmerada, nos teus companheiros, clássicos e modernos, da língua francesa. Tu os abandonaste? Também gosto da vida da campanha — bem a conheço –, vida arrastada, modorrenta, feita de dias longos, demorados. Em Porto Alegre também há muito remanso, muito sossego. Mas eu não me deixo adormecer na modorra.É preciso estar atilado, se não, a gente vira coisa, morre por dentro.Tenho saudade das rosetas, dos mata-cavalos, das marias-moles, das guanxumas e dos carrapichos que jogava, por judiação na corujinha da minha irmã preta. Hoje tudo isso é lembrança. Eu também sinto falta dos amigos do Rio, não da cidade. Tenho trabalhado muito, de sol a sol.”

 Diferentes cenários, idênticos e domésticos sentimentos. Nostalgia ao ler a carta de Iberê. Beth Mattos – Torres – 2012

Os pedaços que ficam…

“O Juiz passou os olhos pela sala em que Henry lhe dissera o que havia a dizer; viu a lista dos seus títulos, ainda sobre a mesa, a cadeira posta de lado como Henry a deixara ao levantar-se, e as coisas permanentes e inanimadas – o relógio dourado, os pequenos bronzes que o ladeavam, a sua cadeira de braços, o livro que estava a ler quando Henry chegara – e tudo lhe parecia pertencer agora a um antigo período acadiano de sua existência, separado dele pela torrente de desastres subitamente desencadeada. Quando se recebe uma notícia má, as coisas inanimadas, que ela em nada modificou, parecem reter em si o espectro da felicidade perdida do observador; este toca no relógio, quase esperando uma resposta milagrosa; retoma o livro abandonado, lembrando-se; foi este o parágrafo que eu deixei em meio quando ocorreu o desastre; e as coisas nenhuma resposta lhe dão. ” (p.96) A História do Juiz  –  Charles Morgan

Ainda Amós OZ

“Pois é, a gente tem de viver de alguma coisa, não é mesmo?” Porém seu coração não estava no comércio, mas sim nas suas paixões secretas e inocentes, que, tal como um ginasiano de setenta anos, abrigava no fundo do coração – nostalgias e sonhos vagos. Se lhe fosse dado viver sua vida novamente, conforme suas preferências e autênticas inclinações, por certo teria escolhido amar as mulheres, ser amado por elas, compreender seu coração, gozar de sua companhia nas férias de verão em meio à natureza, navegar em barquinhos por lagos azuis aos pés das montanhas nevadas, compor poemas apaixonados, ser um homem lindíssimo, delicado, de cabelos cacheados, mas de porte masculino, ser amado pelas multidões,ser Tchernichowski, ou Byron. Ou melhor ainda, ser Zeef Jabotinsky: o poeta inspirador e o líder carismático combinados em uma única maravilhosa pessoa.

Toda a sua vida ansiou por mundos de amor e generosidade de sentimentos. Ao que parece, nunca percebeu a diferença entre amor e admiração: tinha uma sede imensa de ambas as coisas. ” (p.136)

 

AMÓS OZ De Amor e Trevas. Editora Companhia das Letras

O BULE ESTÁ NA VITRINE

Tens razão neste ir e vir e permanecer no mesmo lugar… Detalhes de um grande vazio. Na verdade um ponto, um texto. E todos juntos. Variantes.  Uma tela preta, um ponto branco, pode ser nada… Ou o começo. Um bule de chá vermelho pintado. Ou descrito. O começo.

Parece ruim este olhar demorado, mas não é…O objeto e suas diferentes faces! A leitura tem releitura. Voltas… Como ir ao baile de fantasia todos os anos com a mesma fantasia: o livro. Ou ir sempre ao mesmo baile….Que bom teres escrito! Leio tua carta no prazer, e posso te ver aí sentado na varanda a escrever.

Hoje vi o filme francês Entre os Muros da Escola: impressionante. Voltei estupefata! A imigração, a integração na vida do outro é uma adaptação cruel. Violenta e cruel. E todas as adaptações se assemelham… Como a banal relação de homem e mulher: nem sempre a mesma linguagem. Entender o outro é adaptar-se… Novas referências. Barreiras, às vezes, intransponíveis como mostra o filme. Ou soluções e leveza ao final.

Não somos diferentes, meu querido, etiquetamos a vida, as pessoas, as coisas. Tens razão, estou a me colocar na liquidação. Os outros são o bom resultado. Enquanto  alguns se  movimentam entre passeios e restaurantes, sigo entre o quarto e o quarto. Contabilizo… E sem dinheiro parece que não saímos do lugar. Vive-se a supervalorização da moeda como medida de vida possível.

Se morássemos numa ilha: pescaríamos, entraríamos no mar, dormiríamos na rede… Acender o farol. Acordaríamos com o sol… Parece igual, mas não é. Outras pessoas atravessam ruas, enfrentam o trânsito, comem às pressas, olham e conversam com as mesmas pessoas, equacionam, resolvem. Nós pescamos o peixe. Para eles não basta o peixe, querem o peixe limpo, cozido…

Existe a grande história, o grande romance, o sucesso ou o fracasso na ponta da vida… Antes, adaptação.  E sabemos que não tem pote de ouro pra pegar no fim da rua, não na nossa rua…Todos os dias , dia vencido. Importa o que escreveste: “No fim somos nós mesmos…”

Ainda não sei a diferença entre comprar o bule vermelho porque é belo (beleza, aliás, q só eu percebo), e comprá-lo como utilitário, para fazer a infusão.

O bule está na vitrine. Elizabeth M.B. Mattos – 2012 – Porto Alegre

Louco Amor

Resta insinuar-nos, sem grandes pressas, entre os dois impossíveis tribunais que se enfrentam entre si: o dos homens que eu, por exemplo, fui, quando amei, e o das mulheres, que me surgem, todas elas, vestidas de claro. Assim o mesmo rio redemoinnha, deixa marcadas as garras, desvenda-se e passa, preso do encanto das doces  pedras, das sombras e das ervas. A água, enlouquecida com seus redemoinhos, com uma autêntica cabeleira de fogo. Para fluir, como a água, em pura cintilação, seria necessário perder a noção do tempo. Mas que defesa existe contra ele? Quem nos ensinará a decantar os prazeres do recordar?” (p.9 André Breton/ O Louco amor)

flores brancas para Laila

Chove sol, chove calor. Já deves ter chegado a Porto Alegre. Embora se tenha passado um par de dias juntas, pouco foi dito. As raivas de ontem se desmancham nos beijos recheados de olhares mansos. Há saudade na tua presença fugidia.  Momento de alívio quando adormeces vestida; posso afrouxar tua roupa, fechar as cortinas, colocar outro travesseiro para melhor apoiar teu corpo pequeno. Silêncio conciliador neste curto espaço de tempo… Entregue, suspiro no alívio, como se toda tensão pudesse desaparecer. Transformar erros em acertos. Poderiam as queixas se volatizar? A beleza do corpo adormecido transforma o quarto. As cortinas estufam ao vento. E a floração do jasmim perfuma a sala.

O vestido que cobre teu corpo está colado na tua pele suada. A perturbação desta contemplação tira o ar, e sinto um enjoo doce e quente desta floração tão próxima da janela. Mastigo as pequenas flores brancas… Minhas narinas abrem e fecham, tenho as mãos molhadas. Adormeço sentada. E a tarde vai esfriando o dia. A chuva fica mais forte. Venta. O verão surpreende.

Durante o tempo em que estivemos juntas imaginei cada palavra que poderia dizer, pensei o discurso, imaginei o pretexto para dizer o que me afligia. Separei qualidades e defeitos.  Mas confundi amor com responsabilidade. Felicidade com abnegação. Elaborei, mentalmente, o que escreveria reconsiderando a dificuldade das longas, retardatárias, ou invasivas cartas. Repassei leituras adequadas, procurei autores que auxiliassem apoiando minha advertência, mas não consegui escrever. Nem dizer.  Não consigo. Sempre adormeço ao teu lado… Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2012