Paulo Hecker Filho, ao acaso…

Compreendo cada vez menos, meu amigo, as reações humanas. Como nos surpreendemos!  Livrar-se de laços conturbados; perfeito ou neurótico, sobrevivência estúpida.Continuar mulher? Mulher versus submissão? Preciso do corpo, olhar, fala e cheiro. Nada pode ser pior do que a dependência. O que descreves tão bem no conto Império das mulheres[1]. Estaremos um dia prontas? No conto: Um era responsável pela solidão do outro, mas teriam se realizado mais se não tivessem permanecido juntos? Foi por adiarem sempre a solução dessa dúvida que não se separaram, ou por haver, no fundo, um resto de amor entre eles, que revivia, ao menos como fidelidade, quando o outro se afastava? Ele começou a trabalhar demais desde que se meteu em política.Por que fui ler aquilo antes de dormir? Os personagens, pelo menos Ernesto e Marina, vivos e reais. Renato tão fantasmagoricamente personificado como a alma masculina. E aquelas marionetes fêmeas? Como pode a vida resolver-se assim? E é assim. Volto a reler Katherine Mansfield,  Felicidade, perfeito. Faço a relação com o teu conto, tua narrativa  Império das mulheres  … Cruel? Seremos todos sempre, constantemente enganados por nós mesmos aceitando viver neste carrossel ridículo de farsa onde as pessoas se cultuam numa necessidade primária de carência, sem prestigiar nem um pouco o sentimento (existem sentimentos?). K. Mansfield descreve o  sentimento da pura felicidade estabelece o elo com a beleza, a perfeição dos objetos. E depois a revelação. O choque com o real…Bem! Estar contigo é bom: seja em Juventude, ou A febre de Viver. Lendo. Lendo e lendo. Tanto lirismo no teu conto Um dos Nossos! Apaixonada, estupidamente? Ou será apenas a minha memória? Agora resvalo no diálogo estranho, sem fatos, sem convivência, fictício…Dou outra volta! Em Império das mulheres: tudo é verdadeiro, mas nada existe, apenas Marina, apenas Ernesto: morto, portanto amado. Estou, repetindo, estupefata e anestesiada. Não basta Lioran ou Lexotan para dormir. Sinto o corpo doendo. As camas estão todas tomadas, e fico a me perguntar o que espero que não seja entrar no que propõe Schopenhaueur: (…) desviemos um instante os olhos de nossa própria indigência e de nosso limitado horizonte; levemo-lo sobre estes homens que venceram o mundo nos quais a vontade, atingindo a perfeita consciência de si, se reconheceu em tudo que existe e livremente renunciou a si mesma… então, em vez deste tumulto de aspirações sem fim, em vez destas passagens constantes do desejo ao medo, da alegria ao sofrimento, em vez destas esperanças sempre inalcançadas e sempre renascentes, que fazem da vida humana, enquanto animada pela  vontade um sonho interrompido, não perceberemos mais do que esta paz, mais preciosa que todos os tesouros da razão, a calma absoluta do espírito, esta serenidade imperturbável, tal como Rafael e Corregio a pintaram nas figuras de seus santos e cujo brilho deve ser para nós a mais completa e verídica anunciação da boa nova: a vontade desapareceu; subsiste apenas o conhecimento(…) Enfim!  Abrir mão da loucura, estabelecer correntes. Fazer sexo, ser mulher, desejar, importa? Não estou preparada para escrever, nem para realizar teses, muito menos para amar… Não compreendo as pessoas e acho um desperdiço de tempo estas relações infrutíferas que nos permitimos para alimentar a vaidade engraçada[2]. A vaidade corrompe. Somos vaidosos e tolos. Idiotamente queremos um tudo feito sem sacrifício ou dedicação.Se a beleza abençoa alguém a vaidade destrói. Fica-se à deriva. E, pobres! Acreditamos na vida eterna?Valor pequeno do prazer, da entrega de pele, de cheiro. Acreditamos no outro sem acreditar em nós mesmos. Sou apenas carne e desejo? Em que estou eu a me transformar? Em vaidade? Em raiva? Ou estupefação? Retomarei os filósofos. Quero um cachorro, gatos, jardim e paz. Como vou conseguir? Tudo é desperdício. Se eu pudesse, sairia desta terra, deste lugar, sairia de dentro de mim para ser outra.


[1] Juventude, Paulo Hecker Filho. Porto Alegre: sulina,1998.

[2]  Em qualquer sentido: cômico, divertido, gozado, hilariante, hilário; ver tb. sinonímia de belo, brincalhão e burlesco

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