Perdas impostas

A chuva transforma, esconde a cidade, na bruma, no cinzento. De volta a Porto Alegre. Não reconheço o cheiro: não mais terra molhada, não mais verde derramado da mata,  mas selva de cimento e uma vida arrumada em caixas.

Existem numerosas espécies e gêneros de hortaliças, porém todas, segundo nossos princípios de classificação, jazem no lodo. Crescem aí e aí são colhidas. Batatas, tomates, chicória e nabos. Seres não-humanos e seres humanos. Alterando a analogia, poder-se-ia dizer que vivemos vidas que estão encaixadas desde o nascimento à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos todos condicionados a viver numa caixa, que, daí em diante, erigimos nossa própria caixa, uma prisão, um receptáculo em nossa volta… Até que, finalmente com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório.”[1]

Perdas impostas. Decisão imposta. Tempo certo, errado. Existe avesso para a vida? Espero. Coleciono tentativas: quero crescer, mas permaneço naquela primeira caixa quente: útero materno: sem lutar, sem fazer força, sem dor. O conhecido, e primeiro sentimento experimentado…  É o amor que me afoga e me engana? A queixa é o outro. Outra vez, apenas palavras. Palavras que não explicam. Usadas palavras! Sufoco de angústia, e me transformo em palavra… Ou sou pedaço buscando outro pedaço. Justifico vida, sentimento quando explico o mundo: guerras, miséria, superpopulação, desmatamento, poluição, discriminação, doenças. Inserida no mundo, mas é o mundo que está dentro de mim. O mundo (de dentro para fora) sou eu. O mundo, meu olhar. Este medo passa pelo olhar, a raiva passa pelo olhar. O rancor passa pelo olhar. Este mundo se esconde no olhar.  Por vaidade e covardia tenho medo do fracasso antes mesmo de viver. Milagre pequeno, mas legítimo: os contos / as narrativas além das tintas…

Gosto do silêncio fresco da madrugada, do tronco rugoso da vida que se dilui em feridas abertas, na culpa, na raiva, também no amor.  Que todos os esforços se soltem. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2012


[1] Cooper,David. Psiquiatria e Antipsiquiatria. Editora perspectiva. Coleção Debates. São Paulo. P.35.

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