Embrião de biografia e saudade

Fui ver o mar, lindo! Aberto! Perfumado, inquieto! Barulhento. Colorido. Meu. Contudo, o frio não me permitiu chegar perto: aproveitei o calor e o fogo forte da lareira e do fogão à lenha. Então, cozinhamos o pinhão e o feijão do jeito que têm que ser feitos. Sem os pães e as geleias açucaradas da preta Maria. Na calma, caminhei pela cidade: sem mar, é o feito. Feito? Não, o desfeito. Que bicho mais louco é o homem! Depredador, nocivo, cruel. O mar lá estava, e as pedras também. Ilha dos Lobos. A Lagoa do Violão poluída. O rio Mampituba, escuro, com botos; o mesmo rio que a barra fez aberto… Daquele lado eu gosto, o cheiro é outro: barcos pesqueiros, canoas. Lembra a vida do começo, da barranca. Os molhes pinta mar e rio. Beleza importa sim. Não a das pessoas, mas desta natureza que sobrou.  Como fez frio! Meus sonhos de Cambará do Sul e São José dos Ausentes, hoje, na sombra. Será que eu quero a neve? Será que eu, ainda, quero alguma coisa?Depois o hoje Porto Alegre. Não vou garantir nesta loucura desordenada de tempo sem tempo, falta de coerência, equilíbrio, lugar nenhum no concurso, mas estou tentando, estou quase com a cama-campanha armada no Cursinho. Puxa! Não consigo estudar nem entender estes ditongos e acentos e vírgulas, crase, ortografia: erro tudo. Mas estou tentando, querendo, concentrando. E a Legislação? Cartas rogatórias, precatórias, TJ, Sumário, juiz togado, comarca: vocabulário a se incorporar. Ainda a informática em detalhe, decorando. Não compreendo as questões, a memória é um fiapo, papel comido de traças. Louca, louca mulher. A casa está numa desordem permanente, minha. Os objetos se movimentam pelo chão como pudeste ver. Se me perguntares como consigo tirar as coisas das gavetas, das caixas eu não saberei te responde. Não sei. Sei que te reencontrar foi iluminar tudo por um momento. Depois o real, o silêncio da não chamada. Volto aos papéis, documentos, inquietações, fotos, desânimo: esquisito mesmo, isto tudo faz trânsito pelo chão. O mundo de dentro, estripado, no tapete. Ou mesmo grudado nas portas, como se os lembretes fossem solução! Quando a noite chega e o lobisomem aparece, escondo-me nos lençóis: durmo, durmo, durmo. Não faço nada. Estou doente. Odeio a televisão. Esquisito… Só minha floresta progride. Comprei alpiste e os passarinhos vêm piar e comer nos meus verdes. Não tenho máquina fotográfica, mas, hora desta peço para fotografarem e mando num daqueles papéis impressos para reconheceres a AMAZÔNIA da Beth. Tudo sombrio, com chuva e movimento sacudido pelas samambaias. Já tirei as avencas das frestas, detestam vento. Segundo PHF: “Nada oprime como se imagina que possa, calma mulher”. Mas eu repito. O que oprime é o desejo contido e a falta de verdade interior. O que oprime é o inferno de nos olharmos ao espelho e vermos o diabo: o inferno interior que não queremos revelar aos outros. Oprime a certeza da minha preguiça, as incapacidades, as ilusões frustradas, a idiota vaidade guardada intacta.  Este mesquinho egoísmo e esta opaca mediocridade. Oprime não termos a compreensão nem o espetáculo inteiro, só o palco. As diferenças de linguagem. Por que não aceitar o prazer de estar casa num dia como este? O silêncio. A possibilidade de ler. Estudar o que posso estudar. Aceitar o limite de ser apenas uma mulher comum. Uma mulher igual a todas as outras mulheres comuns. Não sou a Lou Salomé, nem Nais Nïnn. Rever, repassar, adulterar lembranças, explicar os isto e o aquilo. Não há necessidade, mas, ao mesmo tempo é toda esta necessidade da verdade, do despojamento que busco. Não vou me afobar nem me afogar em copo de água, irei mais longe. E, depois, não importa só o palco, mas o espetáculo inteiro. Até a paixão e o beijo importam. Importa que fugi do beijo e do abraço manso e lento.  O beijo da lembrança. Não peguei, nem senti; nem o suor e o cheiro do corpo do outro. O nada e o tudo que o sexo nos dá. Quero o vagar do recomeço. O vagar dos pequenos prazeres que irão construir o espetáculo completo. Então, a casa é o cenário perfeito aonde perdemos e achamos coisas, pessoas, cheiros. A invenção inteira. Não um quarto de passagem, limpo, liso. Os escritores usaram este método masmorra para poderem pensar e escrever, sem distrações. Pessoas e coisas nos atrapalham para pensar e interiorizar o que somos. Apenas tocar no beijo silencioso do amor renova; tudo o mais desgasta. Perde-se o tempo de crescer, de ser alguém. A escravidão. Depois, tudo repetido, nunca original. Se existe o único é o autismo interior. Será que eles têm, tiveram razão? Quando escrevem estão inteiros na loucura que a verdade impõe. Então o menor quarto, a menor casa, o mar, seriam o caminho, o meu. Tropeçamos nas coisas e na ignorância de nós mesmos, paradoxalmente, imóveis. Falta de atenção!… Ficar, assim, com joelhos esfolados, sem dedo, capengas.  Nietzsche. Adorei as convicções, as certezas corajosas: ser pessoas no livro do psicanalista: leitura para todos. Estabelecer o laço da cumplicidade não só amorosa, mas humana. Ou somos animais inferiores?Este jogo das leituras; adoro. Estas pequenas parcerias possíveis que podemos construir, sem espelho, com outra pessoa, divertido, vivo.Da galeria ficou o buraco vazio: as coisas de dinheiro, irregularidades do pouco caso me tocaram, busco solução na lei trabalhista. Deixo de ser passiva.  Isto resolvido, mas já me sinto inquieta. Sabes que estou, também, pedindo o divórcio, assim, resolvo a questão de SCSUL. Bem, agora preciso daquele imóvel. Mas, na justiça tudo é moroso, também nojento. Caminho chafurdando na má intenção dos outros, e, nos meus limites, sem dinheiro. Revolta-me a ganância, a soberba. A falta de generosidade, carinho. A mão que recebemos exige troca. Não há surpresa amorosa nas pessoas: revólveres, granadas, venenos e torturas. Nada de flores. Pão ou chocolate. Nenhum perfume. O fétido das ruas, o mau cheiro das pessoas. Tenho que marchar pra guerra e lá estou treinando o tiro com a velha espingarda de caçar pombos e patos. Tudo proibido. E eu estou lá. Não posso roubar, não consigo encontrar a forma (e roubar já é tão fácil por aqui: as cuecas cheias de dinheiro, escândalos dos ricos na política, o filho mesmo do presidente: guarda-florestal, ou similar agora empresário-fenômeno; o metalúrgico que veste Armani; como é fácil “negociar”, roubar, dar tiros e ficar com a bolsa de dinheiro, invadir bancos pela justiça) e o jeito, fico na intenção.  Não posso desprezar o dinheiro, preciso dele para viver, assim, estou na linha de frente, armada, pronta para atirar, lutar, revidar, esquartejar. Nas trincheiras q a vida impõe. Que parágrafo! AH! Se fosse verdade passar neste concurso! Resolveria as questões de direito e aplacaria a angústia. Dos erros aos acertos. Gostaria de receber um bilhete teu, uma carta, uma troca onde o selo seria o permanente para nós dois. E tudo é lento e manso. Escrever-te lava minha alma. Vou estudar. Com saudade do que não aconteceu.

2 comentários sobre “Embrião de biografia e saudade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s