Escrevendo para PAULO HECKER FILHO

Como já comentei contigo outro dia o inferno somos nós no espelho. Para não ver o fogo ardendo, não escutar os gritos desesperados, não rever os corpos contorcidos sangrando, abrindo, ou uma criança em chamas correndo… ou os acorrentados, ou cães espedaçando outros cães, não  devemos nos olhar ao espelho. Aplaca as dores e os maus sentimentos. Assim, olho, gentilmente, para os lados: jacarandás, cinamomos com flores, carros com pessoas, janelas iluminadas, cafés falantes, cães de raça enfeitados. Bebo a água da garrafas plásticas displicente  caminho pelas vitrines. Visto as roupas pretas, procuro os lançamentos de livros em novas edições que se multiplicam! Isto é o mundo hoje e agora. E, viva o Juremir, homem do jornal Correio do Povo! Expressão de menino! Quem pode dizer que consegue vender a alma em cada linha?! Ele é bonzinho? Ou vai nos ajudar a ver o mal e o homem mau? Viva Juremir na crônica de domingo. A novela das oito a ser acompanhada como lição? E os contos de fada voltam a ser editados em versão televisiva!!!!! Censura em horário aberto? Nosso Tavares precisa ser mais ativo, alerta, aguçado! Décio Freitas era estudioso, lia bastante, sabia das coisas. Paulo, meu querido, será que logo seremos todos bonzinhos? Gostei. Eu sou boazinha: triste, feia, aflita, mal amada, mas boazinha. Vou ao cinema bem festiva, e volto pra dormir cheia de idéias. Boazinha!!!! Logo me cairá do céu o maná e o emprego. Mas, não era nada disso que ia te escrever. São aqueles desejos corruptos que temos lá dentro: aquela gana presente de tudo querer e poder: o vinho bom, a carne macia, o salmão, as cerejas naturais, o branco nos estofados, as porcelanas na mesa, e o riso de poder. As sedas!  Adoro a roupa bem cortada, deslizante num corpo magro e bonito. A alegria do pátio e do peixe no aquário das crianças, os cachorros também no sofá. E por que não os gatos? Mas, não vais me contrariar: todos cheirosos. E, da cozinha o bolo de laranja com cenoura, ou recheio de ovos moles nas caldas doces e nas ameixas. Frutas sem tóxico, as laranjadas feitas na hora, jarras transparentes amareladas e roxas. Isto é agora. Ou não existe mais? E não te contei ainda que o desejo vai crescendo e quando explode não é mais nada. O desejo se desfaz no limbo do outro quando ele tenta, o outro, nos presentear para aplacar o desejo, satisfazer, nos fazer felizes, ora! Mas ele não está aqui. Fica, na mesa, o presente.  E eu volto a querer  por perto o Mário de Almeida Lima e as conversas com pão quente, escapadelas das voltas de ir ao banco, das idas pra casa, dos presentes livros que guardei nas mãos num prazer de toque maior do que qualquer outro prazer. Como teus livros, ou a revista chegando na caixa do correio. Dia de festa; mas não leio nada até esquecer tudo daquela maldita alegria. É um momento depois do outro. O livro é meu, tua letra, dedicatória pequena fica lá; espera por mim, a poesia. A tua poesia. Mas, como já te disse, repito, o inferno somos nós mesmos. Queimando, sufocando, desejando e querendo a água, o alívio. E o desejo que o outro seja despejado no nosso corpo em forma de prazer. Queremos a própria vaidade de sermos amados em gozo comprido. Para isto ficamos bonzinhos, solícitos, generosos, sorridentes. Aceitamos. Quero flores, tortas chegando em casa, uma caixa com surpresa, um lenço colorido pro pescoço, e as vaidades todas femininas que não me alcançam… Leio o jornal e alguém escreve que o autor X é muito bom, e o outro reafirma o Y é melhor. Quero os dois. Fotos, alusões: desejo vem como brotoeja. Livros espalhados pelo chão…, alívio porque logo estarás aqui. O Mário proporcionava alegria livresca: o Bechara, a correspondência da Anais com o Miller, em francês, Flaubert, em português, as cartas. E, também,  o amigo Faraco com o livro Lágrimas na chuva, na prateleira, sem ler…Esperando o final da história que era um autógrafo, uma fala, eu não sei. Droga! Por que  tinha que passar assim tão depressa por mim o meu amigo? Eu o invoco para que me ajude, ordene meu caos, estude comigo, faça o tema, tome café preto, olhe pra mim. Mas não está aqui. Era o tempo de  Porto Alegre generosa. Água mineral, o café preto, até sorvete da Parmalate na beira da calçada: um homem.  E ele tá lá escondido dentro de mim… E assim fazemos com o desejo, deixamos preso, escondido, ou desfazemos devagar. Não quero ter as pratas, ´e só vestir roupa bonita, mas ser jovem outra vez, ter cadeira pra sentar prosaicamente. Quero não ter contas pra pagar, não pedir dinheiro emprestado, vender tudo. Fugir? Olhar pro mar, e ficar lá quieta, feliz. MAR existe. Vez que outra atravesso um texto inteiro feito uma agulha de ponta rombuda com linha grossa que vai e vem fazendo bordado por cima. Foi assim que eu li O PRISIONEIRO DE GASPRA. Gostei tanto! Gostei tanto que te confesso Paulo (isto é segredo de Estado, apenas nosso), fui eu quem escreveu o conto, e mandou pro Faraco publicar… Está tudo aqui dentro, de verdade.  Vejo tudo como ele descreveu, menos a mulher, pois se sou eu a mulher que vê, não tenho homem passando e entrando na minha vida, lendo jornal, vendo futebol, fumando, olhando  para a comida pronta da mesa e saindo outra vez. Não tenho aquela sombra masculina na vida, mas, grito, grito pedindo socorro. Sinto a esperança, esperança igual. Finjo que alguém me ama sem que eu saiba e essa pessoa me espera, como Penélope esperou Ulisses. E finjo tanto que, às vezes, passam-se três dias e três noites, sem que nesse tempo eu veja a casa, o subúrbio, a agência de correios (…).Quando paro de fingir, quando regresso a mim, me dá uma angústia tão funda, uma vontade tão forte de gritar… A esperança de que, pensando no que penso que escrevo, meu pensamento alce voo  pelo escuro deste espaçoRepara, Paulo, que ali no texto tem um você que eu chamo, na minha vida real de marchand, e fico esperando que esta pessoa escute o que eu digo e sigo, assim, como no conto: Pode ser que você, na amena noite terrestre, sinta um frêmito, um estranho calor e diga a nossos amigos que sonhou comigo, que no sonho estou longe, sozinho num lugar do qual nunca ouviu falar, num lugar que só existiria num sonho. Mas pode ser também que você  suspeite desse sonho e faça alguma coisa. Pode ser que embarque numa nave espacial ou contrate um advogado ou faça uma promessa ou qualquer outra coisa e venha me buscar. Paulo, vês como eu escrevi exatamente na medida que o Sérgio aceitou. Piegas eu estou sempre a pedir beijos, abraços, afagos, presença, carinho quente, isto ele cortou do meu texto. Na vida real não acontece Paulo, fica tudo preso na imaginação e nos bilhetes. Envelheço, seca como a pereira da Katherine Mansfield, lembras? O conto A felicidade? Que lindo! É este? Mas o meu conto que o Faraco publicou termina assim, lindo! E eu repito num  novo grito Pode ser que embarque numa nave espacial ou contrate um advogado ou faça uma promessa ou qualquer outra coisa e venha me buscar. Como eu gostei!! Como eu escreveria tudo de novo: Gostaria que você soubesse que estou longe, sozinho num lugar do qual nunca ouviu falar, num lugar que só existe num sonho. Mas se você não pode me ver nem me ouvir, como saberia? Tampouco espero que leia esta carta, embora eu pretenda enviá-la. Só um milagre, não é? Tamanha é a distância ente nós, que é como se você também não existisse e fosse outro sonho. Se você pudesse acompanhar meu dia-a-dia, diria que é o que sempre foi e cada coisa está onde sempre esteve. Sim, tenho uma casa em que tudo se assemelha àquela que eu tinha. Mas o lugar – você acredita? -, o lugar é outro e, em meus delírios chego a pensar que transportaram a casa no guindaste de uma nave espacial. E não só a casa. (…) Paulo, não posso escrever tudo de novo, o Sérgio vai ficar furioso comigo, afinal, o conto saiu como inédito na ZERO HORA de sábado, dia 18 de setembro de 2004 no Segundo Caderno. Não esquece de mim. Vou mesmo estudar até dezembro como retomas na tua última carta e fazer concursos. Tens razão: “ não tá muito Beth” mas aceitas. Obrigada pelo estímulo, é meio assombração este tempo… E, das angústias saem os textos, as inquietações e os meus gritos desordenados. Então vem saudade do amor que me fazia chorar, resmungar, gritar, discutir, enfim, estar viva. Contrariar, pensar, remexer junto nesta ferida do mundo. Sigo teu conselho quando limpo a casa passando aspirador, esfregado os vidros, molhando as plantas, limpando as pratas, ou cozinhando. Depois vem a angústia de novo. Diz minha filha Ana que está escrito na roda de todos os filhos a certeza de que conseguirei. Dos teus livros não há engano. Os poemas desfilam pelo jornal e passam de boca em boca preciosos. Eu, eu fico meio engraçada de escrever sobre isto. Mas, vou fazer de um salto. Reler o primeiro, e ler o segundo num mergulho sem soma de letras ou som; enfiada dentro de cada um deles pra cheirar tudo e sentir tudo, depois volto a te escrever. Eu vou fazer sim. Um beijo. Obrigada por escreveres. Tu sabes que eu sinto saudade das presenças que já se foram como a do Flávio, Iberê e Mário. Tu estás aqui comigo e isto aquece.

As passagens em itálico são do conto O prisioneiro de Gaspra de Sérgio Faraco.

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