A mala

É preciso sair deste torpor. Caminhar, reaprender.

Nós decidimos o percurso do desastre, conscientes ou não, explicitamente ou implicitamente. A culpa está presa nesta mala… Reservado, lacônico, inseguro. Viajo nos sentimentos. Solto amarras. Confiante menino! As dificuldades, de um modo geral, são afetivas… Mas o medo é negação.Tenho a tendência a ver o mundo filtrado pelo sonho seguro. O que significa estar/ entrar na vida de alguém?  Obsessão: és a mala que não pude abrir. Elizabeth M.B. Mattos –  outubro de 2012 – Torres

 

“Quando choramos por aqueles que morrem no viço da juventude – aqueles que foram privados de tempo para viver -, choramos por alegrias perdidas. Choramos por oportunidades e prazeres que nós mesmos jamais chegamos a conhecer. Temos certeza de que, de alguma forma, aquele corpo jovem teria conhecido o desejo e o prazer intensos que procuramos em vão durante toda a vida. Acreditamos que aquela alma jovem, inexperiente, presa na armadilha daquele corpo jovem, poderia ter sido livre e conhecido toda a felicidade que ainda buscamos.Dizemos que a vida é bela e que proporciona satisfações profundas. Tudo isso nós dizemos, enquanto caminhamos como sonâmbulos, percorrendo o nosso tempo, através de anos feitos de dias e noites. Permitimos que o tempo caia sobre nós e se vá, rápido como as águas de uma cascata, acreditando que nunca se esgotará. E, no entanto, cada dia que nos toca – e a todos os homens do mundo – é único, irrecuperável, finito. E é apenas mais uma quarta-feira.”[1]


[1] P.16 – 17; Hart, Josephine; Perdas e danos.

As cartas

Cartas. Quebra cabeça.  História aos soluços. Emoção confessional. Descrição parcial. Escrita truncada sem sequência, fragmento. Cartas são franjas. Lentas?! Voam ou caminham. Franjas de amor. Queixas de uma gueixa. (pra rimar) E quem guardou a história abafou sussurro e saudade. Leio num único fôlego nove vezes te amo e transformo tudo em em ficção. Escrever, o exercício complicado de fazer / refazer e apagar. Tu és virtual, e eu também sou virtual. As cartas são reais. Elizabeth M.B. Mattos –  outubro de 2012 Porto Alegre

naturalmente brancos…

Longe de casa, em casa. Outra vez o verde, a grama. Cheiro, passado novo, agora, ontem. Medo. Como pude ser imprevisível! Saudade das possibilidades… Estranho tempo de refazer, voltar, rever o antes, como se objetivar fosse solução. Contudo, o esperado, o inevitável colorido, o mar mutante, o silêncio, as esquecidas possibilidades… O permanente e suficiente gosto pelas palavras mornas. Palavras: hora, nada, inquieto, energia, guerra, resíduo, perda. Entre o tanto, o nada se solidifica. Outra vez escorrega o desejo de espiar. Espiar a vida do outro como se este, então, o outro, fosse eu mesma recomeçando. E lá estão soltos, todos… A energia passa, fico quieta. O corpo reclama o excesso. Sem espelho a juventude se esparrama no gozo. O que posso fazer se as linhas se cruzam em circuito desfeito, ou mesmo pelo feito de uma soma de nada. O resultado é zero? O sentimento da real, incapacidade de continuar. Aos solavancos a vida: saltos maiores, menores, nunca linha reta. Posso ver o verde pela risca da caverna,  escondido possível tesouro. O que espero desta conversa sem fim como a colcha de retalhos, enquadrados empilhados, tecidos com lã grossa. Aquece. Enfeita o colorido quente das brincadeiras. O lúdico dos excessos. De água, de luz, de calor, do frio: céu de estrelas, caminhadas longas, água, água e mais água. Matar o que antes existiu. Socorrer?  Nem um tijolo, uma telha, uma planta a renascer. Tudo deteriora. Deixar cair… Despencamos, e, ao envelhecer perdemos cabelos, dentes, cor, sentido. Nós tropeçamos ao atravessar a rua, tropeçamos no fio da calçada, e ficamos surpresos. Tudo a escorrer! Sai o grito. No fio da calçada, olhos fixos na casa: vidraça quebrada, tinta descascada, árvore seca, janelas fechadas, trancadas. O vazio espaço de um tempo de família aos pedaços, fugidas/ finitas. Este ferrolho é o choro  seco  diante do que para sempre se foi.

Cabelos brancos, naturalmente brancos. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2012 – Torres

Torres, 2019 sem pandemia, com a Ana Maria fotografando.

O amor nas dobras da DELICADEZA

O amor atravessa fronteiras… Diferenças se escondem na delicadeza, na gentileza, e na simplicidade. Outra vez…  Amar de amor! Estremecemos surpreendidos. Perda, sofrimento, um embalo, a ponte. É preciso  coragem  il faut arriver… Chegar na outra margem. Beth Mattos

A DELICADEZA DO AMOR, um filme de David e Stéphane Foenkinos com Audrey Tautou et  François Damiens.

INDAGAÇÕES e viagens

Por que motivo na vossa primeira viagem por mar sentistes essa mística vibração, quando vos disseram que tanto o navio como vós já se achavam fora do alcance da vista? Por que é que os antigos persas consideravam o mar como sagrado? Por que razão lhe atribuíram os gregos um deus especial, o próprio irmão de Júpiter?  Seguramente, tudo isso tem um sentido. E mais profundo ainda é o significado do mito de Narciso, que por não poder agarrar a imagem suave e atormentada que viu na fonte, mergulhou dentro dela e se afogou. Pois a mesma imagem vemos nós em todos os rios e mares. É a imagem do inacessível fantasma da vida; é aí que se encontra a chave para tudo. (p.41/ Herman Melville/ MOBY DICK)

DOIS MUNDO

…a palavra é aparência[1]  Traçamos meta, escolhemos o caminho, mas somos atropelados por acidentes, o limite. Ao acaso. Independe da vontade. Equívocos traçam o caminho. Perdas, encontros, carências afetivas, falta de oportunidade, desencontro. O mundo se apresenta cinza, embora seja azul.

Livre, selvagem. Depois, a educação formal, a escola. Na igreja o cheiro de incenso, o canto gregoriano, o latim.  A confissão e a culpa. O  imediato.  E nos pensamos no melhor dos mundos possíveis, o nosso. Mas não é exatamente isso. O olhar do outro é o espelho: aprovação, reprovação, porta aberta, ou fechada. Respondemos as necessidades do outro, e redefinimos as nossas próprias necessidades, outra vez, e mais outra vez. E tudo tão misturado…

A palavra descreve o momento, mas a explicação já não é mais precisa, não é o momento, mas representação. A resposta vem resvalando, flutuando. E já mudamos a direção. Somos a interlocução. O resultado tem eco. Ou ladainha.  Escutamo-nos, e não somos nós…  Vozes, o isolamento.  Não conseguimos dizer, explicar, sentir a palavra.  Precisamos do outro para entender o real… Paradoxal. E o mundo se escreve com tentativas, descaminhos para novos caminhos, atalhos.

Segundo as Palavras de Mench-Hsi[2]:   Quando alguém chegou à velhice e cumpriu sua missão, tem o direito de enfrentar tranquilamente a ideia da morte. Não necessita dos homens. Já os conhece e sabe perfeitamente como são. O que necessita é de paz. Não convém visitar este homem, falar-lhe, fazê-lo sofrer com banalidades. Convém, antes, passar ao largo diante da porta de sua casa, como se ninguém vivesse nela.

E eu não compreendo. Ou não envelheço. Não cumpri a missão. Necessito dos homens. As banalidades me enojam, mas não choro, vou ao encontro delas. E para me entender preciso do teu olhar.

[1] As palavras são uma máscara que raramente expressam de maneira correta o que está por trás; antes encobrem. A inteligência não é o que importa, mas sim a imaginação. P.37 in O círculo Hermético de Miguel Serrano.

[2]  P.22 in O círculo hermético: Herman Hesse a C G Jung de Miguel Serrano.Ed Brasiliense.1970.

ESPANHOL

Torres, com sol, com chuva, com nuvens, com mar transparente. Mergulho na Praia Grande apesar da chuva. Apesar das nuvens a beleza dourada da moça de barriga redonda, cheia de luz: talvez sete meses de gravidez. Risadas do filho correndo, pernas se fazendo firmes. Releitura das leituras que fazemos de nós mesmos, dos livros, das horas, do tempo que passou. O medo de guardar aberto… Na velha cesta a toalha, óculos, uma blusa, e o livro da Sivana Bullrich: universo emprestado. Da fruteira duas maçãs, dois pêssegos, três ameixas vermelhas da terra, lavadas as frutas. Estou pronta. Nós dois. O dia inteiro nós dois. Sem palavras: salta da pele o desejo. Encontramo-nos na praia. Existe o outro descolado de nós mesmos: criação de espírito de outro mundo: o outro que respira, pensa, ri, chora, olha, fecha os olhos para dormir, acorda e deseja. O outro que nos pertence e a qual pertencemos: eleição, reconhecimento. Quando eu o vi pela primeira vez, deitado na areia, aberto ao sol, aventureiro nas férias de olhar escrevi depressa a história toda, para não esquecer nenhum detalhe de ver/olhar. Teus olhos chegaram claros. Dancei no olhar. Conversa de água enrolada nas pernas, nos braços, entrando na boca. O corpo molhado na tua voz. O primeiro dia de mar. Horário quente do meio-dia, sol de tanta gente! Outra vez a história sem pontuação. É tudo jogo de verão, mas ainda é primavera. Ler em voz alta deitada na areia. O toque do meu braço no teu braço. Intimidade, construção minuciosa. Suados e suados, espreguiçados no solitário caçar borboletas e mariposas da areia, entre as pedras. Como gravar iniciais no carvalho do bosque, da mesma floresta do Chapeuzinho Vermelho. O caminho das flores, na tarde dos frutos: maciez cálida, prazer. O mar. Praia entre morros, areia, grama, calçada, vozes. Beijar o desejo. Escutavas sem olhar, discutíamos sem dizer, olhávamos sem nos ver. Choveu a tarde e isto foi bom. Elizabeth M.B. Mattos outubro de 2012 – Sempre Torres e outras lembranças…

 

EXPOSIÇÃO

Exposição de amores, risível: temos mesmo que transformá-los em ficção? Importa descobrir o fio, voltar ao tema. Da possível aresta, renovar o velho, encontrar o bom lugar para uma vaidade menor, a luta desesperada pelo eterno, pelo Era uma vez… Felicidade, ou infelicidade? Desastroso aos meus olhos perceber que mesmo os velhos amigos ditos especiais, também sucumbem ao ridículo, exageramos, eles e eu, ridículos, expostos. A vergonha paralisa: não posso ter vergonha, é preciso ousar a vaia. Já confiei na integridade, tropecei em pequenas e grandes mentiras, tudo pela vaidade. A importância que nos damos, comédia. Temos necessidade de nos misturarmos uns aos outros, e fugir do isolamento. E nos expomos. Fraquejamos. Somos, contudo, reconhecidos de forma diferente daquela com que desejamos ser vistos: estranhos a nós mesmos? Tornamo-nos confortáveis na intimidade do silêncio. É preciso encontrar a sobrevivência, mesmo que em desespero. Palavras e trejeitos escorrem como água perdida. Elas nos fazem pecar. Surpreendo-me ambivalente, batendo palmas. Tu, és o abominável devorador da beleza! Plasmei a imagem que seria o retrato: amigo, eu me queria desenhada tal e qual eu mesma me imaginava, não como tu me desejavas. Foi por medo, por vaidade que nunca conversamos sobre nós dois. A mesma vaidade me impede de contar a verdade. Eu me esgueirava… São aqueles remotos sonhos que brotam agora. E também o baile, a valsa, o samba, o ritmo da saudade: isto é voltar para ti. Busco oportunidade – inteligência a mover acontecimentos, atrair pessoas: o grupo quer se reconhecer… Não existe acaso… O correto? Oportunidade de executar. Estou tentada a me corromper. Sou corrompida. Não, não é isto. Quero te acordar. Começou a chover e a ventar: escureceu. E são apenas três e meia da tarde. Elizabeth M.B. Mattos –  outubro de 2012 – T O R R E S