Amigo amado

Parece uma grande tolice ficar transcrevendo páginas e páginas, parece falta de assunto ficar a comentar este ou aquele livro, desdobrar o assunto em meia dúzia de parágrafos para preencher o que precisa ser dito, escrito outra vez, do jeito próprio. Tudo parece uma bobagem! Se eu conto que tomei café preto, e fiquei uma hora olhando pela janela.  Se eu mencionar minha vontade de morar no Rio de Janeiro, ou de viajar, entrar nas malas pra não voltar, não faz sentido. Se eu contar que Torres ainda é um lugar bonito, banalidade! Tudo é pequeno, e pouco. Se eu explicar que as calçadas deveriam ser limpas, que os papéis, as latas, os sacos plástico deveriam ter outro destino que não os canteiros… Que devemos separar lixo seco, de orgânico e etc. Impróprio! Ou que orar faz parte da vida. Ou ainda solidariedade e a generosidade transformam o mundo! Não… Estariam todos rindo porque é quase efeito natalino! Se eu explicasse a Doutrina de Allan Kardec ficariam chocados. Se eu estiver chorando de fome, ou rezando, ou adotando uma criança, tudo seria irrelevante. Sermos como somos é tão banal! Assim mesmos insistimos… Ousamos. E eu transcrevo outra vez Por Favor, Cuide de Mamãe.  Talvez não comprem o livro, nem queiram ver o filme argentino Medianeiras… E eu insisto. Quando li estes parágrafos lembrei do amigo amado. É especialmente para ele este recorte. O meu jeito próprio de dizer é assim camuflado na escrita de Kyung – Sook Shin.

Percebo que fui uma pessoa terrível para você. Deve ser porque o primeiro encontro é importante. Tenho certeza de que, bem no fundo, sempre pensei que você me devesse alguma coisa, e eu demonstrava isso fazendo o que bem entendesse. (…) Parecia deslocado e estranho parado na frente do mar. (…) Jamais consegui esquecer aquela expressão, mas agora que penso no assunto, talvez sua expressão estivesse perguntando: ‘Até aqui ela conseguiu me localizar?’ Komso tornou-se um lugar inesquecível para mim por sua causa. Eu sempre o procurava quando acontecia algo com o qual não conseguia lidar sozinha, mas quando recuperava alguma paz de espírito, o esquecia. Pensava que o esquecia. Quando você me viu em Komso, a primeira pergunta que me fez foi: ’ O que houve de errado?’ Estou dizendo isso só agora, mas quando fui procurá-lo naquela ocasião, era a primeira vez que eu o fazia apenas para vê-lo, não porque tivesse acontecido alguma coisa comigo. (…) Obrigada por ter permanecido no mesmo lugar. Talvez eu tenha conseguido continuar a viver por causa disso. Peço desculpas por ter ido procurá-lo repetidas vezes sempre que me sentia desassossegada, mas sem deixá-lo sequer segurar minha mão. Embora eu o procurasse, quando parecia que você estava me procurando, eu agia com indelicadeza. (…) Sinto muito, muito mesmo. No início, era porque eu achava constrangedor, depois, porque achava que não devíamos e, mais tarde, porque eu estava velha. Você foi meu pecado e minha felicidade. Eu queria parecer digna diante de você. (p.196-197)

Um comentário sobre “Amigo amado

  1. Beth, lindo texto .
    Na minha visao , ninguem foi terrivel para ninguem.
    Penso que se complementavam, cada um ao seu modo, uma parceria e amizade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s