Iberê Camargo na minha vida

Porto Alegre, 23 – 8 – 82
Elizabeth, encontraste felicidade nas coisas simples: marido, casa, arvoredo, gado, e para alimentar a tua fantasia, as nuvens que, nos dias ensolarados, povoam o campo com um rebanho de sombras. Reencontraste o sabor do pão feito em casa, tu que por tanto tempo, te nutriste com o pó do asfalto da grande cidade. Eu te compreendo, mas não deixo de pensar na tua formação esmerada, nos teus companheiros, clássicos e modernos, da língua francesa. Tu os abandonaste?Também gosto da vida da campanha – bem a conheço -, vida arrastada, modorrenta, feita de dias longos, demorados. Em Porto Alegre também há muito remanso, muito sossego. Mas eu não me deixo adormecer na madorra. É preciso, Beth, estar atilado, ouvindo atento como cão. Se não, Beth, a gente vira coisa, morre por dentro. Sim, amiga, no verão aceitarei teu oferecimento, iremos para o campo. Tenho saudade das rosetas, dos mata-cavalos, das marias-moles, das guanxumas e dos carrapichos que jogava, por judiação na corujinha da minha irmã preta. Hoje tudo isso é lembrança. Lamento os teus desacertos com os Moog, e as atribulações de teu marido. Espero que tudo termine bem. Eu também sinto falta dos amigos do Rio, não da cidade. Tenho trabalhado muito, de sol a sol. Envio-te um catálogo da minha exposição, realizada este mês. Escreve sempre que puderes. Maria te manda um abraço. Abraço também para teu marido. Conta sempre comigo. O Iberê

Porto Alegre, 7 – 6 – 84.
Cara Beth. Era uma noite muito escuro. Ao longe avistei um luzeiro: Santa Cruz. Pensei comigo: Beth mora numa estrela. Então passei silencioso, abafando os passos, para não acordar a princesa. A estrada, um lamaçal escorregadiço como sabão.À beira, no café, um magote de alemães beberrões e barulhentos.Gente boa, pacífica. Na carta pus junto o catálogo da exposição de Santa Maria. Um abraço afetuoso. O Iberê

Porto Alegre, 24 – 11 – 86.
Querida Beth. Lamento que tenhas perdido tua mãe. Eu ignorava este transe. Espero que meu carinho te sirva de conforto. Minha amizade te faça companhia. Continuo pintando, pintando e pintando. Acabei mais um quadro de grande formato intitulado Reminiscências. Neste quadro eu me transformo no pescador da Emulsão Scott, com um grande peixe às costas. Quando guri fui obrigado a tomar esse fortificante, o que fazia com repugnância. Acho que toda a minha geração foi lubrificada com esse óleo de bacalhau. Beth, quando vires a Porto Alegre vem ver o que faço. Tá bom? Não cultives a solidão, amiga. É bom que voltes ao trabalho. Dispõe sempre de mim. Do amigo de sempre, o Iberê.

Iberê Camargo na minha vida

2 comentários sobre “Iberê Camargo na minha vida

  1. Que alegria estas cartas. Sempre gostei de me corresponder, também sou deste tempo… Os afetos verdadeiros manifestados mesmo na distância física. Estou adorando teu Blog. Bjo

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