Explicação de saudade…

Boca do Acre, 15 de maio de 1967.

Beth, minha querida

Há muito que tenho em mãos a tua carta. E esta é a tática que uso quando gosto das cartas: custo a responder. Pois, assim, ela é lida muitas vezes. Após ser respondida toda carta é posta de lado, pertence ao passado. Isso não quer dizer que não tenhamos nos impregnado de um pouco dela. Apenas amadurecemos aquele conhecimento o suficiente para dispensar sua presença física; passa, pois, a ser uma presença permanente, ainda que, às vezes, não nos demos conta.

A vida aqui, minha cara Beth, é apenas a continuação da minha vida, enquanto vista como história individualizada. Coisas interessantes as há, e muitas. Seria para mim difícil contá-las. Por um lado porque o tenho feito lá para casa e por outro porque não poderia dar o colorido necessário no papel. Aliás, as experiências foram feitas, se assim pode-se dizer, para ser vividas, e não para ser contadas. Talvez tu vás classificar o que direi como  amava ao passado (Quero saber tudo de ti menos das tuas saudades da gente daqui.”). Pois, quero saber  como vão meus amigos, parentes e mesmo simples outrora conhecidos. Pois,  quero saber uma palavra dita por uma determinada pessoa. Enfim, quero contar que sinto saudade. Mas tu talvez não saibas como são as saudades de quem parte. São um bocado diferentes das que ficam. Há que fazer todo um caminho até purificá-la. Explico. No início o que sentimos é o que o inglês define muito bem como home sick. Uma doença causada pela falta de afeto e pela saudade de si mesmo, de sua vida pregressa e pelas incertezas do futuro. Aos poucos os sentimentos vão se depurando e no fim sobra só o que verdadeiramente podemos chamar de saudade. Uma doce saudade. É uma lembrança alegre e, sobretudo gratificante; nos anima a enfrentar as novas situações. Não estamos sozinhos. Penso que para se poder sentir esse tipo de saudade precisa-se ter um estado de liberdade interior. É  precisamente por ter essa liberdade (mesmo quando falta tanto no mundo objetivo) é que tu me pediste para não falar disso e achei, então que podia, e tinha, alguma coisa para te dizer sobre isso, precisamente.

 […]

Para ti,  Betinha, um grande e afetuoso abraço do Eduardo

(Eduardo Azeredo Costa)

 

Desaparecem, e voltam. Como a memória de tantas histórias.

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