Afundamos por vaidade

Existem numerosas espécies e gêneros de hortaliças, porém todas, segundo nossos princípios de classificação, jazem no lodo. Crescem aí e aí são colhidas. Batatas, tomates, chicória e nabos. Seres não-humanos e seres humanos. Alterando a analogia, poder-se-ia dizer que vivemos vidas que estão encaixadas desde o nascimento à morte. Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da escola, já nos tornamos todos condicionados a viver numa caixa. Daí em diante, elegemos nossa própria caixa, uma prisão, um receptáculo em nossa volta…[1]

Perdas impostas. Decisões prementes no tempo  demarcado como certo, (e nem sempre tão certo, lá, dentro de nós). Perde-se autonomia. Soma de tentativas. Queremos crescer, mas permanecemos naquela primeira caixa quente… Útero materno: sem lutar, sem fazer força, sem dor. O conhecido,  primeiro sentimento experimentado… É o amor que nos afoga? A queixa é sempre o outro. Palavras que não explicam. Apenas palavras organizadas, ditas, repetidas estas usadas palavras que saem assim tão rápidas, lá de dentro da gente, num sufoco de angústia: somos palavras… Ou sou pedaço, buscando outro pedaço de um inteiro que desconheço. As pessoas justificam a vida quando explicam o mundo dos acontecimentos: guerras, miséria, superpopulação, desmatamento, imigração, poluição, discriminação, doenças. Pensam  estar inseridas no mundo, mas é o mundo que está dentro delas. O mundo (de dentro para fora) é cada um de nós. Nós é que carregamos este mundo, nós o imaginamos. O mundo é nosso olhar. Quem tu és? Preciso saber. Diferente de quem eu sou… Assim, tateando, tu e eu, na inquietude da alma, afundamos. Por vaidade e covardia receamos o fracasso antes mesmo de viver o encontro. Elizabeth M. B. Mattos


[1] Cooper,David. Psiquiatria e Antipsiquiatria. Editora Perspectiva. Coleção Debates. São Paulo. p.35.

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