Expurgar

Amanhecer cinzento. Abafado. Nada se mexe! Dores no calor. Estas permanecem incompatíveis, ardidas. Sem medida. O sentimento imensurável espreguiça. Antônio Arthur é bom saber de você! Margeado pelos seus, e trabalhando. No meu ócio as lembranças. Guardo comigo festas de meninos mimados! Acordo recordações. Divido vozes, letras, seus poemas…Olho o vento. Leio a carta cautelosa escrita por você. Eu lhe mandei um pacote de pedaços descolados da Beth que você desconhece. Queria afastar a rigidez que impede minha mobilidade inteira. “Que minha situação não seja assim tão má”. Eu o desejo, mas é raso este seu querer. Estou com o gesso da imobilidade pós-acidente: não foi do trem, mas do tempo. Tudo está na alma. Ninguém pode chegar perto, tocar, despertar, fazer sumir ou ver. Assim é a dor. Seus poemas descrevem sentimentos coerentes. “É duro o viver” diz a carta. “Nós acordamos e recordamos”, o poema. Sobrevivemos entre aspirar, expirar, sangrar, curar. O que sabemos de perder ou ganhar? Ou será que ficaremos para sempre amarrados no amparo conhecido de ontem? Bom ter ontem, passado perfumado. Colhido com segurança. Feliz momento, o segundo daquele que nomeamos felicidade, ou o inteiro. Alegria, tristeza consciente. Podemos mesmo soterrados cavar, e sobreviver. Mesmo com mãos cheias de bolhas a sangrar. Tão diferente a perda! O pesar! Muitos poemas serão escritos! Muita carta perdida, nenhum livro feito… Sentaremos no banco da praça esperando as estações se alternar. Crescer pode doer mais do que envelhecer!Descola-se a pele, e nos vemos nus, disformes.  É um diálogo sincopado, diferente do que possa ter escrito em cartas apressadas, postadas com ansiedade: correio lento, tanta terra, tanto vôo… Perguntas nas respostas. O tempo aliado do passado não redimensiona o presente. Quem é o Arthur? Quem sou eu? E o Antônio Arthur quem é?Quem somos nós? Todas as perguntas amontoadas atravessam os dias, e chegam à sua voz e voam, mas não encontram respostas nem nas suas cartas, nem nas minhas… Histórias vazias, palavras ordenadas não chegam onde você está. Os poemas sim. O poeta descreve o trajeto, alivia a alma, dilacera, corta, cola. Dói Arthur! Respira a dor. Protege, cuide para que nada perturbe o sentimento deste pedaço arrancado, violentado pelos versos deste seu eu inexplicável. Ao chorar as lágrimas não lavam, sulcam. A presença do outro permanece nas marcas que o corpo possui. Seus olhos azuis mais sombrios deste seu inverno cinzento de chuva e frio rebrilham no fogo e pingam a dor… São lágrimas, não olhos o que posso ver neste momento. Das mãos em concha um pedaço arrancado: seu coração, e seu olhar insone. Então o que se quebra, o que verga é a dor. Exposta.  Liberar. Listar. Escorregar. Largar, guardar. Poetar é alinhar, transgredir, expurgar. Eu beijo você.

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