Escrever SOBRE escrever

“Escrevo o que não sei. Ao escrever, o que pretendo é arrancar-me da dúvida, da perplexidade, não para chegar a alguma resposta – não acredito em respostas -, mas para preencher o vazio da vida com palavras. Não escrevo para os que têm certezas, antes para os perplexos, para os que, como eu, só sabem perguntar, assumindo suas contradições no abismo dessa perplexidade, mas sem medo. A perplexidade é a forma mais aguda do pensamento; a reflexão, a mais passiva. Escrever pode provocar prazer, esse prazer que desafia o tempo, numa tentativa de perpetuidade, como quando fazemos do sexo amor. A página escrita, o filho, são resultados com os quais desafiamos a morte.”

“O ato de existir se especifica por aquilo que lhe falta, nos ensina Tomás de Aquino. O homem satisfeito, diria até, o homem normal, não sente nenhuma necessidade de escrever. Escreve o insatisfeito. Para quem apenas uma vida, esta, não basta. Há que ter uma paralela, a que escreve. E , uma outra, a em que aposta viver mesmo depois de morto. E a cada folha escrita sente, sem desistir, a inutilidade desse tentame.”

Quando: “escrevo estou pondo à prova o meu entendimento do mundo e, afinal, a mim mesmo. Disponho o que penso saber, buscando o que pretendo descobrir, e descobrindo que sei, enquanto escrevo, instauro um novo conhecimento para mim, sobre o que narro ou descrevo. Quem escreve se não escrever a si mesmo em cada parágrafo, poderá ser um autor, não um escritor.

Gilberto Wallace faz a distinção entre escritor, aquele que escreve, e um autor aquele que publica, faz do escrever um ofício.

“(…) escrever uma necessidade inútil. Partimos do desconhecido pretendendo atingir um ponto inalcançável.  Escrevi-lhe uma carta, de Praga, e depois outra, de Merano. Não recebi resposta. Assim escreve Kafka, numa carta seguinte. E continuaria a escrever, mesmo sem receber resposta. Assim escreve todo escritor, sem precisar de resposta, ainda que as aguarde. Escreve porque precisa, tem necessidade de escrever. Aqui me refiro ao escritor, não ao autor.”

 – GILBERTO WALLACE – Folha de LETRAS

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MESMO ASSIM

Apesar de tudo, sou humano.

Como os demais, fraco e forte.

Fraco mas não mostrando

e forte por não mostrar.

Humano

e portanto só no mundo.

Mesmo assim, estendo as mãos.

Poema de Paulo Hecker Filho / Folha de Letras

001 - Cópia (2)

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