Nada Somos

Carta – testemunho do Acidente do Morro do Chapéu em 1950. A importância de voltar no tempo explica o  Nada Somos…Estamos na memória. A decisão de caminhar importa tanto quanto a de ficar, ver as sombras de dentro da caverna. Acendemos  luzes…

Porto Alegre, 2 de agosto de 1950 (quarta-feira)

Querida Anita:

Logo após a horrível tragédia que enlutou o nosso Rio Grande do Sul e levou nossos amigos Ligia, Alice e Coracy, pretendia te escrever. Mas, os dias chegaram, se foram, e fui deixando que soubesses das notícias pelos jornais. Agora, refeito deste sonho e depois de ter em minhas mãos tuas cartas do dia 22, 25, 27 e 28, posso contar-te o que foi a maior perda que sofremos. Eu estava com a Maria Guilhermina, aí pelas 8 horas da noite em casa da Ligia, esperando que o Agilberto trouxesse Ligia, Alice e Coracy, que viajavam do Rio pelo “Constellations”. Um pouco antes das 9 da noite chegou Agilberto, pálido e com os olhos no fundo, dizendo que o “Constellations” fizera uma aterragem forçada lá pra S. Leopoldo e que as ambulâncias tinham ido para lá. Pus minha capa e um chapéu da Joana e saímos os três, no carro do Agilberto rumo a S. Leopoldo. Quando estávamos em Sapucaia já sabíamos que ele batera num morro, adiante de S. Leopoldo. Agilberto chorava. Fora do carro a chuva se derramava cada vez mais. Entramos por uma estrada completamente enlameada e lá pelas tantas quando o carro não podia avançar mais, em sentido contrário vinha uma caminhonete. Desci na frente e perguntei onde estava o aparelho. Cinco rapazes informaram que tinham já estado no local, um morro de difícil acesso, que todos estavam mortos e que nós não chegaríamos lá, tais as dificuldades a vencer. Resolvemos dar volta, mesmo porque o Agilberto não queria saber de mais nada. Quando voltamos, ainda patinando o carro sobre terrível barro, encontramos um carro da “Aeronáutica” que nos perguntava notícias sobre o local. Mal parei e vi dentro o Major Abel Azambuja, nosso colega do Colégio Militar e perguntei-lhe aonde ia, tendo me contado que ia até o local, de qualquer jeito, pois ia fazer o inquérito. Deixei Agilberto e meti-me no carro com ele. Mais uns 2 kilometros e o carro parou. Descemos e caímos na lama a patinar no meio da noite e da chuva. Caminhamos uns 8 km a pé e depois já vendo o clarão do incêndio no morro, começamos a escalar o monte, procurando uma vereda dentro do mato que nos levasse até lá. A 1 ½ da madrugada chegamos no topo, no meio de uma cerração medonha e chuva que tirava a visibilidade num raio de 15 metros. O quadro era horrível: 4 pessoas tinham sido jogadas para cima e estavam perto de nós. Mais abaixo a fogueira do avião, com 10 000 litros de gasolina a arder. Pelas 2 ½ resolveram suspender a busca em face da cerração, da chuva, para recomeçarem ao clarear do dia. Descemos, e até hoje não sei como subi e desci. Pela primeira vez bebi cachaça e por isso nem me resfriei, nem nada. Até as 5 horas da manhã chegamos ao Q.G. da base aérea, em Porto Alegre, e logo fui até o Januário. O coitado não sabia de nada e começou a chorar. O resto pode imaginar. Encontraram Alice e Ligia com os rostos perfeitamente reconhecíveis. Coracy foi identificado pelos dentes e uns 14 dos 50 não puderam ser identificados: haviam ficado presos no avião em chamas. Como vês nada somos. Falei com o Dionélio, e lhe disse que estavas na Europa com meu consentimento. Que até então jamais indagara de ninguém se fizera bem ou mal (…) e, bendizia tua viagem, (…)

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Coracy Prates da Veiga – 39 anos, Alice Veiga, 32 anos, Ligia Dornelles Franciosi, 31 anos. Todos jovens!

Maria Guilhermina irmã de Ligia. Joana, irmã de Anita. Dionélio Machado amigo da família.

“ (…) a queda do Constellation da Panair do Brasil, prefixo PP-PCG, durante os procedimentos de aproximação no Aeródromo de Gravataí, em Porto Alegre, na tarde de sexta-feira dia 28 de julho de 1950, teve um ingrediente dramático adicional. O avião era pilotado pelo lendário comandante Edu, um dos pilotos mais experientes do Brasil na época…[1]


[1]Acidente no Morro do Chapéu – A Queda do Constellation em Sapucaia do Sul – livro escrito por Abrão Aspis –

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2 comentários sobre “Nada Somos

  1. “Somos contos contando contos, nada” (Ricardo Reis)
    “Somos contos de contos contando contos, nada” – acrescentou-lhe José Saramago

    “vamos pelo mundo contando o conto que somos e os contos que aprendemos…” (Saramago)

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