Verdade

“Verdade,verdade,verdade,verdade, verdade. A paixão é frenética, inesgotável e, segundo minha experiência, tem a rara capacidade de se realimentar.” (p.62)

Philip Roth – O professor do desejo

Paulo Sérgio

Lendo Daniel Glattuer  (acho que recomendei @mor e  A sétima onda) volto no tempo. Imagino que tu és o meu Leo! Sou Emma. Reencontramos-nos depois de trinta anos, ou quarenta? Tanto o tempo acelera! Outra vez o intenso de um dia depois do outro!

Não guardo a lembrança toda. E nem sinto o peso definitivo da felicidade. Lembro risadas, leveza, e do ardente. Do inesperado que chega adiantado, sem ansiedade. Certezas, nenhum medo! E lendo o livro repasso os verbos sair, voltar, ficar, recomeçar, largar. Verbos no infinitivo para serem conjugados no modo indicativo, ou modo subjuntivo. O possível. Tens razão, não foi passagem de ano, nem dia 25, nem 31 de dezembro. Estes nós lembraríamos! O que enternece? A música, nossos abraços! A leveza dos trinta anos! A sétima onda que Daniel cita no livro. A sétima onda do escritor e presidiário Henri Charrière citada no livro biográfico Papillon. A salvação… Amor e todas as vertentes que nos libertam. Bom esperar! Acreditar que atravessaremos a sétima onda! Quero te dizer o seguinte: o escritor vienense Daniel Glattauer me faz chegar muito perto de ti. Hoje, através dos e-mails, neste tempo digitado de ir e vir posso me reencontrar contigo. Não é ótimo?

Chuva forte

Voltar na volta adequada. Enumerar. Casa, cidade, rua, táxi, automóvel, política, filhos, sentimento, jardim.  À volta com fita, papel, caixa, espaço, vazio, surpresa. Sento exausta na ponta da cama, mas não quero mesmo dormir, apenas chegar. Joelhos, cabeça, costas, braços doem. Tantas foram às frases conciliatórias! Não vou abrir o portão. As camélias exuberantes, crescidas assim sem poda, belas!Desagradáveis degraus! Amaldiçoados! Escadas não levam para o céu. E as estrelas se escondem. Vejo a chuva grossa e forte batendo nos meus olhos!

MINAS

Filha: penso em ti todos os dias, todas as horas sem me decidir se devo seguir em frente, parar, rir, ou chorar! Piso nos explosivos, voluntariamente, ou sou mesmo desastrada? Não sei. Como é o nome destes mortíferos instrumentos? Minas. Na guerra as minas aleijavam, matavam. No meu tempo de guria eram elas as moças de programa as minas. E era mesmo desvio? Sexo. Não se podia fazer ‘agarros’ com a namorada pedida em casamento. Deveria ser virgem, casta e boba até o dia fatal. Nesta noite da lua doce seria habilidosamente introduzida aos prazeres. Mais tarde aos cuidados da casa e maternidade. E tudo sem manual. Será que sou mesmo tão antiga? Pois sou. O tempo impiedoso mostra as pernas cansadas, gorduras inadequadas, e o vento sopra em fiapos de cabelos brancos! Lamentável! Mas algumas mulheres, homens chegam aos oitenta e cinco, noventa anos vigorosos, elegantes, tratados, viajados e amados. Parece injustiça. Talvez seja. A economia, os ganhos, os reais, dólares, euros e libras estão mal divididos. Se protegidos o vento não sopra, as pernas repousam, e tudo se apresenta no melhor dos mundos possíveis. Envelhecemos como meninos em redoma. Sem minas no caminho, nem sobressaltos. Estamos no maior CIRCO do Mundo! O planeta Terra. Bom que faz sol hoje!

Acelerar

Sempre a dor, e esta inquietude que as relações humanas nos produzem! Vida aos pulos. Engole-se um amontoado de horas sem medo de engasgar. Euforia pouco contagiante. Assustadoramente feliz, em risadas soltas e penteados apressados. Reivindicações, pontuações ferinas sobre o que não segue o mesmo ritmo. E o sol convida a sair, a chuva ao capote, o frio a manta. Equivalem ao café quente no shopping, vitrinas na Rua 24 de outubro, vinho no bom restaurante.  Cozinha italiana. Cinema. Francês ou argentino para escândalo de muitos. Telefone. Longas conversas! Todos os assuntos atropelam.  Respira! O dia mal começou…

O Brasil vai parar no dia 11 de julho?

Lenda

Minha natureza de geógrafa gosta de passear. Recomeçar. Outra vez a mudança. Nova varanda, outro quintal, aquele rio fundo, pedras. A casa traz o prazer longamente sofrido no deserto da saudade. Chegar seria atravessar a mata por estradas curvas de terra. Silencioso e verde caminho! E subir todas aquelas escadas!

Os passos são pequenos, os joelhos ardem esfolados, mas a lenda se escreve…

Porque as rainhas não explicam nada, e menos ainda a razão de sua vinda repentina e de tão longe.

As rainhas, mesmo ciumentas, não reprovam nada de ninguém, aliás que homem dotado de razão teria atrevimento de imaginar que pôde  fazer sofrer uma rainha?