PARIS no papel

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“Quarta-feira: 05 de outubro de 1947

[…]

Paris está sempre magnífica! E a nossa árvore, perdeu as folhas? Aqui todas as árvores as perdem, e elas flutuam lentamente sobre o Sena. Nestes últimos dias, andei longamente por Paris, invadida por um sentimento estranho e triste que alguns amigos afirmam compartilhar. […] Antigamente eu não teria sido capaz de escrever sobre Paris, devido à sua proximidade; agora eu poderia. Domingo, nos grandes boulevards, uma multidão perambulava sem pressa, só para passar a tarde. Pequenas barracas vendiam guloseimas e lâminas de barbear, tudo antiquado e lúgubre como um espetáculo contemplado de outro século. Há dez anos ela se transformou em uma cidade morta, como Praga ou Viena, porque não existimos mais por nós mesmos; as coisas acontecem na Rússia e na América, não mais aqui. […]”

Simone de  Beauvoir – Cartas a Nelson Algren –  Um Amor Transatlântico

Editora Nova Fronteira. (p. 88)

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Só por um minuto

Manhã sacudida. Papéis desaparecem no fogo. Brutal incêndio. Chamas abertas. Dormi na angústia, e acordei sem ânimo. Tudo se transforma em outra vez, outra vez, mais uma vez. É por um minuto. Todo o entusiasmo, ou vontade, disposição, tudo por um minuto. A referência documentada no talher de prata, no quadro óleo de Iberê Camargo, no retrato aquarela de Carmélio Cruz, nos livros e nas porcelanas, nos cristais, por um minuto…  Depois do fogo não há identidade. Pela garganta o medo, no peito a urgência. Estou desfeita! Há que se ter ordem, energia para recomeçar. Embalei sonhos. Cada por do sol, cada amanhecer. A lembrança volta para a Rua Vitor Hugo… É o tempo preguiçoso, cor de rosa, e envolto em beleza. Olhar, olhar, olhar e escutar. Abrir os braços devagar como se o casulo fosse uma caixa de música, e a borboleta não tivesse pressa nenhuma de voar. Nenhuma… Escancarar. Abrir a janela. Gesto ensaiado por toda uma tarde. Se escurecer estou na sombra dos jacarandás esperando… A grama se confunde com os canteiros de begônias. Música, vozes, mesas redondas e meia luz de abajures. O fogo das lareiras, ou a leveza das cortinas sob o carpete. Quando voltar o sol no alpendre vermelho, estarei comendo laranjas e bergamotas porque é inverno… É muito rápido. É muito rápido esta droga de viver. Idiota, estúpido. Por que escrever?

“– Para entretenimento… – murmurava ele com um sorriso desdenhoso. Ah! Tu precisas te entreter… Para isso escreves; isto é, trabalhas. Mas, meu caro,’ entreter’ significa passar tempo. Ora o tempo passa acelerado em demasia; não necessita de impulsos. Os homens deviam procurar ‘ entreter’ o tempo, e não entreter-se a si….Eu é isso que faço…Penso no passado, revivo os dias que passaram…Assim levanto uma barreira entre o presente e o futuro. O futuro é porém um ótimo saltador… salta todas as barreiras, vai se tornado o presente e eu pouco resultado alcanço… Escreves para não te aborreceres…Ah! Como seria feliz se conseguisse me aborrecer!…”(p.266 Mário de Sá Carneiro/ Obra Completa Prosa/ Princípio. Editora Nova Aguilar.

Escrever sem saber o rumo a tomar. Vou abrir um livro, qualquer outro livro… Sem motivo. Pode ser tudo mesmo sem motivo?

Amigos de Petrópolis

Aos amigos da rua Vitor Hugo, Petrópolis…

Sempre voltamos ao tempo feliz!

Na foto com o quadro de  Eduardo Vieira da Cunha  no fundo  reencontro na Garagem de Arte.

Sentada nas escadas  do clube Nádia, lindinha como sempre! E o famoso Guga (Guilherme Alberto Stunf). A foto seguinte  – Petrópolis Tênis Club . E na festa de 15 anos está Nádia , Ana Maria,  e  Ana Helena. ( As outras fotos foram cedidas pela Nádia Portela)

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O beijo

“Em RomaDiana era a deusa da lua e da caça, mais conhecida como deusa pura.”

 

Encontro, e detalhes. Um silêncio justificável, mas nem tanto! Peça de um velho quebra-cabeça incompleto, interrompido. Elo perdido. A moça bonita ama, responde e fala comigo. Acolher o desencontro dolorido da vida de G faz parte do espetáculo! Por conta do virtual, por conta da fantasia, maravilhosos hotéis e passeios, um passado na história inventada de Minas Gerais. Cartas descrevem rotas, rumos, paradas e exaustivas retomadas. É passado esquisito-esquecido porque inventado. Inverossímil. Tu menina, no entanto, existes. Reconsiderar perdas, dores e providenciar no que se nomina amor é estar alerta na vida. Suponho que seja o açúcar. Este encontro comigo atravessa sobras, chegas de um tempo virtual… Neste caso, um beijo amigo é um recorte para justificar a troca de mensagens. Sem compromisso, não traz de volta o tempo, nem tem futuro. É como passar a história num átimo. E revogá-la ao mistério de telhados numa cidade abandonada… Casas vazias, ruas com vegetação de desgovernado verde que avança sobre calçadas. Fantasmagórica tela pintada em tons amarelados com arabescos esverdeados. Rasgado vermelho no preto. Sem vultos. É um beijo perdido… Nem tanto para G, mas para a menina Diana Beatriz.

História Familiar

003 (2)A História do Automóvel
O automóvel que conduziu a governadora Yeda Crusius no Desfile Farroupilha, o Stutz 1928, integra o patrimônio público do Estado desde 1931 quando o governador Flores da Cunha o adquiriu. A porto-alegrense Míriam Palazzo refere detalhes dessa transação. O carro pertencia a Pedro Alexandrino de Mattos, comerciante de origem portuguesa, trabalhava com tecidos e fornecia mercadorias trazidas da Europa para o comércio gaúcho. Bem sucedido, possuía várias propriedades, entre elas as terras que hoje integram o Parque Saint-Hilaire. Nos fins dos anos 20 e começo dos anos 30, foi alto dirigente do Banco Popular. O carro era usado para conduzir a família, que residia na Rua Jerônimo Coelho, em seus compromissos. Com problemas decorrentes da instabilidade política e da participação nos episódios que mobilizaram o Rio Grande do Sul e o País naquele período, Pedro Alexandrino de Mattos decidiu vender o automóvel. A história desse que passou a ser conhecido como o veículo dos desfiles e que está exposto num dos salões do Palácio Piratini é confirmada pelas netas vivas de Pedro Alexandrino: Esther Costa e Ilka Ferreira Palazzo. O histórico automóvel foi produzido pelo norte-americano Harry Clayton Stutz, que deu seu nome  à marca. A produção se encerrou em 1935.

Na foto de família: Pedro Alexandrino Mattos e Rita Menna Barreto Mattos (a partir da esquerda. Esther, Ida, Roberto Menna Barreto Mattos (ainda menino) e Flávio M. B. Mattos.

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Outra foto antiga do carro em uso da família Mattos.

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Roberto no Stutz  com os amigos, e dificuldades…

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Resolvendo o problema.

008 (4) Roberto Menna Barreto Mattos na ‘Chácara’ hoje Parque Saint Hilaire.

 Porto Alegre – Rio Grande do Sul

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Pedro Alexandrino de Mattos

Eu

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1d4298c4-63d1-4ee8-a186-d659af64a819.jpg  BETH

Insensatez

Talvez o que transcrevo seja o insólito, o incomum, o que não importa. Mas não é esta a questão. Importa o livro lido, a discussão, a canção, o poema, o filme, o teatro. Os cafés, ou melhor, tudo importa. Principalmente Paris daquela época.

Ou sempre!

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O belo outono continua: o cheiro de queimado das folhas mortas, a luz amarela do sol sobre o Sena, em meio a nuvens cinzentas.” (p.75)

Ou “A galeria, a árvore, a rua, a noite inteira entrando em nosso leito […]” (p.75) 

O que vou dividir é a insensatez!

“Em minha vida de trabalho, austera e calma, é maravilhoso sentir em meu coração um tal tesouro de emoção, de dor, de felicidade, de amor ardente.[…] Você sabe que jamais escrevi cartas de amor em inglês. Estou consciente de que conceder tanta importância aos sentimentos pessoais é uma insensatez, quando no vasto mundo acontecem tantos fatos graves: a cólera no Egito, De Gaulle na França, sem falar nos EUA. Digamos que esta seja uma história tola mas bela […].(p.81)

Qual o grau de importância? Onde eu estou, onde tu estás? O que de fato gostaríamos de fazer, dizer, ou sentir? O quê?

Ainda as Cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren. Editora Nova Fronteira.

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LABIRINTO

A primeira viagem seria a Praga, a cidade labirinto?

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“Labirintos é a particularidade de Praga. Entra-se por uma porta, em busca de um copo de cerveja ou na perseguição de uma mulher bonita e, de repente, num repente, chegamos a uma rua toda outra, inesperada; ou a claridade se denuncia em um dos maravilhosos jardins interiores dos palácios da Renascença. Mas há também os labirintos que não conduzem a lugar nenhum: uma parede se levanta onde devia ser uma saía em um dos corredores; outro conduzia a uma escada apenas pressentida no escuro, e é preciso tempo e paciência para retornar-se sobre os passos dados para voltar ao ponto de partida. Da mesma forma Praga é a cidade das ruas falsas: de vielas que vivem apenas alguns metros ou que são, longitudinalmente, calçada e escada; de ruas amparadas por muros úmidos, onde os musgos desenham arabescos fascinantes, que fazem de cada observador uma espécie de psicopata, atraído pelo mistério que encerram. E quem ler detidamente a obra de Kafka encontrará os traços desta presença. O mofo, o velho, o azinhavre dos metais ociosos, tudo isso são instrumentos de que se vale Kafka para a escritura de sua mensagem.”

Jornal do Brasil: fragmento – Rio de Janeiro – 07 de junho de 1969. Mauro Santayana.

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