Óculos de ler

001 (3)Perdi meus óculos de olhar, olhar longe, olhar perto. Tristes olhos de olhar… Então, enxergando pouco, faço pouco, vejo menos, nem me mexo. Espero. Perdi na rua, de um jeito idiota qualquer, como pode ser idiota quando se perde aquilo que é necessário. Faço estas coisas. Perco o importante: os óculos, a energia, o bonde, a piada, o sorriso, o lenço, os brincos, o anel, a cabeça quando me aborreço! O livro que quero ler, o que pretendia reler. As anotações. A fala. O sorriso, e seguidamente, perco a ironia. Agora perdi os óculos. Vou lembrar que os perdi até meados de 2014. Justifico. Cansada, ansiosa. Ansiosa e tropeçando em tanta felicidade! Foi assim que os perdi. Eu perdi chamando por ti Francisco… Perdi. E agora encontrei as fotos de estúdio. O livro de contos na pilha da esquerda, ao lado da cama. A conta do telefone, o endereço do hidráulico, a paciência. Comi o bolo de chocolate, não tão bom como o de banana, e menos ainda do que o de cenoura… Perdi a coragem de me indignar, desesperar porque estou sem óculos, e não deveria estar. Droga!  Sem paciência faço piada. Nas calçadas, na grama, nas casas visitadas. Aonde? Amassados, perdidos, tristes, e eu já deixando o vento carregar. Ou as formigas se enfeitarem. Repetindo: sinta o prazer de deixar pra traz o chapéu que o vento levou… Os quadros que o marido selecionou, ou a casa do sonho, os tapetes persas, a louça alemã numerada, os talheres de prata 900, os veludos mal escolhidos, as roupas esquisitas… Perdi os enfeites, o jeito, o dinheiro, mas não a graça! Vamos rir porque perdi meus óculos de ler na lagoa, na areia ao vento. Nos jardins das amoreiras. No vento. Anônima caminhada em direção ao mar

“… não tenho paciência alguma com as pessoas que não sabem abrir mão das coisas, que correm atrás delas a se lamentarem. Quando uma coisa se foi, ela se foi! Está termina e liquidada! Portanto deixe-a ir. Ignore-a e console-se, se é que quer consolo, pensando que nunca se recupera a mesma coisa que se perdeu. Ela será sempre uma coisa nova. Transforma-se no momento em que se vai. Ora, isso é verdade até mesmo quando se corre atrás de um chapéu que o vento arranca da cabeça da gente; e não quero dizer de modo superficial – falo em sentido profundo… Adotei como norma da vida nunca me lamentar e nunca olhar para trás. O arrependimento é um terrível desperdício de energia,…” (p.81-82)

Je ne parle pas français e Outros Contos – Katherine Mansfield

Talvez encontrem os meus óculos, e uma casa de veraneio pronta pra se encher de risadas em janeiro. Histórias e óculos para ler, para olhar, para aumentar alegria de observar! E depois de ter adotado a norma, eu possa sentar e conversar com ela Norma, e todas as coisas que já perdemos…

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4 comentários sobre “Óculos de ler

  1. Adorei a cronicA , me identifiquei c ela . Acho q mtos tbm vao se identificar….. Cha de fraldas do filhote da Tu afilhada dia 30 niv sabDo Magda

    Enviado via iPhone

    >

  2. Eu perdi meus óculos também !!! Lá em Lucca, estava toda faceira com os óculos novos italianos amarelo com pernas tartaruga e depois de um dia longo de compras, quando procuro os óculos, cadê? Me senti igual a vc !!! rsrsrs Mas não me dei por vencida, fui na ótica e comprei outro, igual !!! Amei poder fazer isso…rssrsrs

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