Rosaura e Sonia

I

Sonia pendurou as roupas no varal. Quatro fronhas, duas toalhas de rosto, dois panos de prato desbotados. E depois os lençóis. Onde estarão os vestidos, as blusas, as saias? Nenhuma meia. Sonia entra na casa pela porta dos fundos. Já varreu o alpendre. Lavou a louça. Escutou o rádio. Este dia não termina! No entanto, cada vez que pensa no fim, o fim necessário/ fatal da vida, estremece. Não, ela não quer morrer, não hoje, nem amanhã. Pensa no Júlio na Laura, na Vera. E já na cozinha separa ingredientes para o bolo, pensa na batedeira. Descasca as frutas. E sente o cheiro gostoso do amanhã … do amanhecer.

II

Rosaura se surpreende com a chuva pesada. Fecha as janelas. E se deslumbra, atrás da vidraça, a olhar o gramado. O prazer do frescor. Pudesse esquecer aquela inesperada conversa confessional. Sem sofrimento a esbofetear. Uma avó louca. Não, não era louca. Um dia sofreu transtornada. Internaram. Esqueceram dela, simples assim. Morrer é desaparecer da vida das pessoas. Esquecer e ser esquecida. Todos de costas. Já não lembro em qual igreja …

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2 comentários sobre “Rosaura e Sonia

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