Materialidade

Enquanto tento ordenar o tempo, arrumar esta, aquela estante, vou refazendo trajetos. Histórias. Revisar as caixas abarrotadas de fotos. Reler uma carta. Voltar. Sinto o cheiro obsessivo deste apego. Envelheço. Tropeço. Esqueço. E compreendo o que Maurois escreve. Os objetos não decepcionam, nem traem. Os livros conversam, o precioso ilumina. O prazer da posse. Cristal, porcelana. Prata. Estanho, cobre. A maciez do algodão, cetim, renda. A beleza do objeto conversa com a alma dolorida, acalenta. Afinal…O mundo nos faz falta com toda sua materialidade.

“Mas tive um bizarro sentimento de amargura ao rever aquela casa que foi minha. Como burguesa francesa, gostaria de conservar tudo. Prefiro Cristiano a meu primeiro marido, por certo, mas tenho saudades da minha biblioteca, meus móveis. Fiquei impressionada ao constatar que à proporção que envelheço apego-me cada vez mais aos objetos, as casas. O Dr. Marolles disse-me, um dia, que as mulheres como eu amam apaixonadamente os brilhantes. Mas, não são somente os brilhantes; são os livros preciosos, as peles. As coisas assumem a importância de seres. Os objetos não decepcionam; proporcionam sempre exatamente o prazer que se esperava deles. Os objetos não traem…” (p.377) Terra de Promissão, André Maurois.

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