TUA MEMÓRIA HÁ SEM QUE HOUVESSES

“Tua memória há sem que houvesses,

Teu gesto, sem que fosses alguém.

Como uma brisa me estremeces

E eu choro um bem…”[1]

Às avessas, primeiro a alma, primeiro por dentro, primeiro o pensamento, a ideia de ser alguém. Depois o vulto que se confunde… Imaginação. A foto, duas, três, quatro fotos, e ainda não é ele. Ele tem cheiro, tem boca, tem braços, tem corpo, tem olhos bem pretos. Pele morena, corpo pequeno. Doce, tranquilo. Observa, olha nos meus olhos . Óculos grandes. (Quero vê-los pequenos, redondos, menores.) Unhas retas, longas. Gestos lentos, momento novo. A boca se abre sorrindo, entregue.

Atravessamos a geografia. E já estamos um diante do outro. Palavras se espremem, ou se envergonham. Afago à pele lisa, a mão. Porto Alegre dos Casais. Abraço fundo, demorado.

A história se escreve sem vontade de largar. O espaço escolhe outro espaço e se alarga. Palavra com pele e odor. Contar é muito dificultoso escreve Guimarães Rosa. Não pelos anos que já se passaram, mas pela astúcia que tem certas coisas passadas de fazer estardalhaço, de se remexerem dos lugares. E o porão da memória reclama. Há tanta gente  trancada lá dentro.
[1] p.184. 19/11/193. Cancioneiro. Obras Completas Fernando Pessoa

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