Carta e memória

Torres, 3 de junho de 1997, na memória.

Organizar sentimentos, repassar o tempo. Colocar a máscara. A individualidade se esconde atrás de nova personalidade. A máscara agrega a trivialidade da vida e do cotidiano um aditivo de coragem. Coloco a máscara.

Em pouca água nos afogamos.

“Nem um minuto mais posso esperar para te olhar outra vez. Nem um minuto sem tocar, beijar, cheirar, e estas coisas todas que temos vontade de fazer quando o inesperado se aproxima. ”

Rosas em atraso. Trinta e quatro anos depois, não, quarenta e três na conta exata. Engenheiro, não marinheiro. Navego no indefinido mar da imaginação. Atrasado, e fantasioso encontro. Verdade do quebra-cabeça: fraqueza, intervenção, não timidez. Vantagem de ser menina, outra vez, (para rimar). Entendo interrogações,  lacunas. Viajaste neste atraso com rosas cor de rosa.

“Tão pouco, e tudo. Não completo, tudo teria sido preenchido pela coragem. ”

Procurei no tempo errado, a pessoa errada. Vulnerável, não tímida, mas esperei o homem certo. Ironia. Não existe a pessoa certa. Gostar é sempre parcial. A explicação, intelectual. O intelecto nos remete a uma comparação entre o que desejamos ver, ler, ouvir. Confundimos, assim, gostar com concordar. Só se gosta do que se concorda.

A mãe, a minha, importa em todas as histórias. Genética, o escudo. Vivemos num mundo carregado de julgamentos do que possa ser certo, ou errado. Enigmático ou participativo, subordinamos conceitos estéticos e culturais ao nosso cristalizado repertório de ideias, opiniões e convicções. E nunca sabemos ao certo, o errado, o possível.

Estas rosas cor de rosa despertaram a menina. Mas não vieste buscar a mulher. Um capricho, o encontro. Confissão, e também, estabilidade carimbada.

“O prazer se sacode assim mesmo, escabelado, arrepiado, sem propósito. Talvez, ele possa telefonar ao chegar a Porto Alegre. Saia de casa, ás 23 horas, atravesse a rua, entre no botequim da esquina, compre cigarros, e telefone para dizer que pensa em mim, e vai voltar, em breve. ”

Imaginação. Não estarás do outro lado do fio. Contudo, corajosamente, escreves uma carta. E não é mais branco e preto, verdade e mentira, mas fantasia.

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