Ressaca

Terapia da leitura, ou leitura terapêutica? Palavra, significado, preguiça…O livro atravessa a ponte, instiga, trabalha. O corpo se alonga. Corrida apressada. Ressaca. Excesso. Estupidez, genialidade. Palavras, e palavras. Personagens, pessoas. Alucinação. Ressaca. O sono amolece, distorce. A leitura da metamorfose. Cheguei ao último capítulo. Avareza. Medo.Onde se esconde o bicho homem?

Está outra vez cinzento. Exaustão física se aperta no desânimo.

Não vou para a África

Este ano não quero aproveitar as milhas do cartão com passagem. Vou me concentrar nos livros. Ficar afundada na cadeira preguiçosa. Trocar milhas por travesseiro, panela, chaleira, coberta. Vou deixar o prazo expirar. Sossegar. Viajar pelas gavetas, prateleiras, estantes… Decidir, afinal, o que vou me desfazer. Repassar velhos e rabiscados diários. Datar fotos antigas. Vou percorrer as ladeiras da casa. Subir escadarias, selecionar  livros, descer ao porão. Reler cartas antigas. Sentar na varanda. Escutar música. Renovar lençóis, toalhas. Comer uvas. Beber um vinho nos cálices da vovó. Colocar flores nos vasos. Este ano vou viajar em casa: sem fazer mala, sem entrar no aeroporto, sem percorrer distâncias. Não vou mesmo para a África. Elizabeth M. B. Mattos – 2015

Sempre a mesma coisa

Troco os móveis de lugar. Tiro da estante o livro. Velhas observações. Cada leitura, lembrança específica.  Repasso este, aquele. Tudo em desordem. Arrasto armário para lá, levo mesa. E aquela mesa pequena? Resolvo quebra cabeça das cadeiras. Fujo do computador. Da tarefa. Sou eu o centro. Interessa o que escrevo? Abro o livro.

 Experiência perfeita da leitura.  Descubro o nosso retrato, fico a nos perseguir em qualquer página, em todos os livros … Talvez seja isso. Se reconhecer um milhão de vezes.

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“Finalmente compreendi que a solução para o dilema, o constrangimento de escrever sobre ‘problemas pessoais insignificantes’ era reconhecer que nada é pessoal, no sentido de que é exclusivamente próprio de uma pessoa. Ao escrever sobre si mesmo, está-se escrevendo sobre os outros, pois os problemas, sofrimentos, prazeres e as emoções do autor – junto com suas extraordinárias e notáveis ideias – não podem ser apenas do autor. A maneira de lidar com o problema da ‘subjetividade’, essa chocante questão de estar preocupado com o minúsculo indivíduo que é ao mesmo tempo apanhado nessa explosão de terríveis e maravilhosas possibilidades, é vê-lo como um microcosmo e, assim, irromper através do pessoal e do subjetivo, generalizando o pessoal, como na verdade a vida sempre faz, transformando uma experiência particular – ou assim se pensa quando ainda se é criança: ‘Eu estou me apaixonando’, Eu estou sentindo esta ou aquela emoção, ou pensando isso ou aquilo ‘ ‘- em algo muito maior: crescer é, afinal de contas, nada mais do que aceitar que a única e incrível experiência que se teve é o que todo mundo partilha.” (p.13) O Carnê Dourado, Doris Lessing. Editora Record. RJ. 1972. 

 

Do desânimo

Não é cinza porque hoje fez sol. Não é falta de energia, levanto de um salto, bem cedo, caminho. Na ponta da lagoa, feirantes esticam lonas: verduras, frutas, flores. A lagoa corre, levemente, crespa. Estou caída aos encantos da crônica. David Coimbra na Zero Hora de sexta-feira, 06 de novembro de 2015. “Este mundo não é fácil. As pessoas são tudo, menos cristalinas, e, por mais que você tenha certeza do que é certo, nunca é certo que conseguirá fazê-lo e, se fizer, não é certo que acertará. A vida, definitivamente, não segue em linha reta.” Sobre canções, e poesia.

“A vida, definitivamente, não segue em linha reta. A selvageria do coração de Belchior não é a selvageria do tigre e do leão, é selvageria de cervo e do passarinho, do bicho pacífico e arredio, que não fará mal ao homem, mas não será domesticado. Este mundo não é para seres humanos como Belchior. Ele não se encaixa  nas exigências desta vida e, assim, afastou-se dela. O coração de Belchior é como vidro, como um beijo de novela. Por isso, por não aguentar, desistiu. Pelo menos é o que sinto. Porque como Belchior, às vezes também tenho vontade de pedir para a vida: Vida, pisa devagar. Meu coração, cuidado, é frágil.”

Descoberta

“Os pelos dourados sobre a pele morena, as pernas esguias, os braços leves, de músculos flexíveis, os olhos cismadores, na apaixonada contemplação de si mesmo, cada pedaço do ser refeito e desfeito, amontoado na curiosidade, no espanto, que me arrepiava todo, em ondas sucessivas – e o corpo cheira a maresia. Foi num desses quartos de porão habitável, na realidade um verdadeiro andar térreo com entrada própria, que mais tarde me desmanchei em gozo lendo A carne de Julio Ribeiro.” (p.88) A casa do meu avô, Carlos Lacerda

Impulsos perigosos

Comprei um lustre horrível. E não foi na promoção. É muito feio. Retirar imediatamente. Mas, tenho medo do próximo passo. Esquecer? Encaixotar? Tudo que acende aqui em casa tem luz fria de laboratório. Convivo assim mesmo, impactada. Não conformada com estes pequenos horrores. Compro geladeira esquisita, com espelho. Cafona. Claro, num site, menos dispendiosa… Divertido. Resultado? Olho, diariamente, para meu monstro metálico. Doar? A cozinha se enfia na sala ou a sala avança até a cozinha? Modernidade. E eu tão século dezenove! Afeita a boas cozinhas que guardam o perfume concentrado do assado, bolo batido, aromatizado. Rosa, lírio, o cheiro forte da madeira, do encerado nos quartos, na sala de estar. Enfim! Espaços geograficamente distintos na minha cabeça. Que desastre! Estou a conviver com os monstros escolhidos, comprados. Loucura. Posso pendurar o lustre em cima da geladeira. Terei uma instalação. Para enquadrar melhor a trajetória de horrores impulsivos, acabo de comprar um fogão branco. Por que branco? Porque normalmente são brancos. Não pensei na geladeira avizinhada? Estou tendo alucinações. A maligna megera se apossou de um recôndito, remoto bom gosto. Engolir o veneno, morte lenta. Acudam por favor! O kitsch veio morar ao meu lado. E não é o clássico pinguim em cima do refrigerador. Nonsense.  Impropriedade completa. Raiva. É pra chorar? O fogão tem dois fornos, e chamas assim, assadas. Apitos. E não gosto de cozinhar. Isso existe? Em oferta. Será que estava? Dizem que os velhos precisam de cuidadores, são perigosos. Impulsos, abstrações, histórias sem contexto, fantasias. Minha galeria de coisas feias parece significativa. Não é nada engraçado.