Cinco movimentos

1.

Pisoteamos, não pedimos licença, pisoteamos pretensiosos. Enverdece, floresce o caminho da violência. O país se sacode. Perdemos o cheiro do pão, do mingau com canela. Desesperamos. Isabel imagina um caminho diferente. Retira do forno as duas tranças de pão doce. . .

2.

O piano dedilhado ligeiro, cheio, mas assim mesmo vazio. Remediada dor no ao embalo da música. Lucia se ilumina enquanto o som entra pelos olhos.

3.

Lençóis macios, travesseiros empilhados. O estalo da lenha. Nós de pinho sangrando, escorrendo… O cheiro da cera. Os cães, os jacarandás.

4.

Investiga-se a memória. Nada fica claro, nem sonho, nem intenção. Os motes devem estar no detalhe que esquecemos, guardamos na gaveta…  A conversa atravessa o escuro, não define, mas sinaliza. Sofia pensa: eu queria ter ficado no teu abraço por muito mais tempo.

5.

Não ter mãe, não ter pai. Sentar no fio da calçada. Não pedir licença, nem perdão. Não comer. Choramingar. Desaprender. Violência a cada empurrão matreiro. Peteleco corretivo. Sem palavra. Desavisada beleza se espalha pelos ombros de Isabel. Dançam os pés pequenos. Tímido bailado de pele morena. E a história está apenas começando.

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