Falar ou escrever

Pois é minha amiga, eu estou sempre preocupada com os rasgos. Eu, eu e eu. Fico a colocar pronomes em todas as frases como se o português assim exigisse, não exige. Confundo. É a saudade escondida, já escondida sim, do francês que antes se sacudia feliz, atuante, e se arremessava, como o melhor. Agora, recolhido, tímido, e hesitante se esconde nesta construção galega distraída que uso ao escrever, e até ao falar. Uma imponência egocêntrica, deslocada. Os verbos em francês, não caminham sozinhos, precisam do pronome pessoal. Na língua portuguesa são livres. Volto ao rasgo da carta. Rasgo no sentido melhor da palavra porque não sangra, não dói. O repente tempestivo que de impulso se abre… E ao se abrir liberta, se expõe. Também constrangido, é verdade, de algum maneira tímido, impróprio, mas muito mais um rasgo feliz. Era isso que eu queria dizer. Já tinha te escrito uma primeira carta (e como lamento não ser pelo correio, dentro de um envelope, com selo, com demora, com trajeto, com tropeço e ansiedade, como as cartas de antigamente, missivas. Hoje são eletrônicas, imediatas. Brotam na tela misturadas aos recados e propagandas, e urgências. E lá está a nossa mensagem eletrônica cheia de palavras sem dizer nada, apenas impulso, vontade), bem, o fato é, minha amiga, que outra carta se escrevia dentro de mim. Arrufo, arroubo, sentimentos que se armam instantâneos dentro da pessoa… Ao fato. Tanto detalhe no chamado encontro, mas é mais desencontro. O inquietante, e sem solução amigo paulista. Lembras? Uma história significativa, forte, mas etérea. E já espicaçada. Vaidades se chocam. Não compreendo, ou melhor, me entendo. Eu, eu quero dizer, eu quero fazer, eu quero ser, eu quero dirigir, eu quero sentir, eu quero escrever, eu não quero falar, quero escrever. Outro tipo de ponte que não atravessa de um lado para outro, mas… Digamos que enfeita o jardim. Vai do jardim para o mesmo jardim. Eu me surpreendo. Não amiga. Ele quer falar, olhar. Não considera escrever e ler o mesmo que conversar. (E são coisas diferentes, é claro. Mas a mesma, não é?) Empresta outro valor aos escritos. Escrever é diferente de falar. Claro. Mas eu digo que é melhor. Escrever comunica, explica, faz sentir e chega no outro. Acho que pode ser maior do que as palavras gaguejantes ou jorradas num encontro  de olho no olho. Esta fala apressada pode até ser equivocada, de momento, de sentimento já fugindo na hora de chegar. Pode apenas representar, atuar assoleada, friorenta. Sei lá. Pois é amiga, mais explico mais me atrapalho. Talvez o escrito se proponha a releitura, ao cuidado de voltar, dar dois passos, recuar, dizer outra vez, pensar, dar dois passos, e assim deixar o espontâneo. Talvez não surpreenda. Não se veste de gala, nem senta na ponta da cadeira cerimonioso, cuidado, precavido. Insisto na pergunta, por que não é conversa o escrever? A fala escrita se cristaliza, a fala escrita preenche, conversa  até com ela mesma. Eu acho, eu penso que sim. eu gosto assim. E chegam as citações que se embolam numa erudição que pode ser e não ser erudição, mas apoio, ilustração. Isso ele não gosta mesmo. Eu gosto. Os livros e autores se metem todos no meio das minhas falas. A citação ilumina, amplia. A citação é a risada, a careta, o senta e levanta. A citação faz a vez do olhar distraído. Sim, também pode ser como o beijo. Ou o abraço. Será? Sei lá. Mas assim longe, ele lá eu aqui fico triste. Não triste por estar longe porque não conversamos podendo conversar, e dizemos sem dizer nada… Fico triste porque nos inviabilizamos.  Rasgos diferentes estes.

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